Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XIV

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XIV na Obra

O Livro XIV cobre cerca de três décadas decisivas, da guerra civil entre os irmãos asmoneus Aristóbulo e Hircano até a queda definitiva da dinastia em 37 a.C. É o livro em que Roma entra de vez na história judaica: Pompeu toma Jerusalém em 63 a.C., os procônsules Gabínio e Crasso intervêm na província, Júlio César concede privilégios aos judeus, e a casa de Antípater, o idumeu, ascende até que seu filho Herodes é feito rei pelo senado romano e toma Jerusalém com o apoio do general Sósio.

Esse período fica fora da Bíblia hebraica e do Novo Testamento. Não há paralelo canônico direto para a maior parte da narrativa. O interesse do material é o pano de fundo que ele oferece: é aqui que se monta o cenário político da Judeia em que o Novo Testamento se abre, com Herodes, o Grande, já no trono, sob suserania de Roma.

Conteúdo do Livro

    A guerra civil dos asmoneus

  • A disputa entre os irmãos Aristóbulo e Hircano pelo trono, o acordo que dava o reino a Aristóbulo, e a fuga de Hircano para Aretas, rei dos nabateus, por conselho de Antípater(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 1)
  • Aretas e Hircano cercam Aristóbulo em Jerusalém, o general romano Escauro levanta o cerco, e a morte de Onias, o homem justo que se recusou a amaldiçoar o partido sitiado(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 2)
  • Pompeu e a tomada de Jerusalém

  • Aristóbulo e Hircano levam a disputa a Pompeu, a fuga de Aristóbulo para a fortaleza de Alexandrium e a ordem de Pompeu para que entregasse as fortalezas(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 3)
  • Pompeu cerca e toma Jerusalém à força no ano de 63 a.C., entra no santuário do Templo, mas não toca em seus tesouros, e torna a Judeia tributária de Roma(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 4)
  • Os procônsules romanos na Judeia

  • Escauro faz um pacto com Aretas, e o procônsul Gabínio reorganiza a Judeia depois de vencer Alexandre, filho de Aristóbulo(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 5)
  • Gabínio captura Aristóbulo, fugido de Roma, e o reenvia preso, e depois, ao voltar do Egito, vence Alexandre e os nabateus em batalha(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 6)
  • Crasso saqueia o Templo de Jerusalém em 54 a.C., marcha contra os partos e perece com seu exército, e Cássio assume a Síria e contém os partos(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 7)
  • Júlio César, Antípater e os decretos romanos

  • Os judeus se tornam aliados de César na guerra do Egito, os feitos de Antípater e sua amizade com César, e as honras concedidas aos judeus por romanos e atenienses(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 8)
  • Antípater confia a Galileia ao filho Herodes e Jerusalém a Fasael, e Herodes, acusado pela inveja dos judeus por ter executado o bandido Ezequias, é julgado diante de Hircano e do Sinédrio(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 9)
  • A longa coleção de decretos e cartas oficiais com que romanos, atenienses e outras cidades reconhecem privilégios e isenções aos judeus, transcritos por Josefo como documentos de arquivo(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 10)
  • A ascensão de Herodes

  • Marco sucede a Sexto, morto pela traição de Basso, Cássio chega à Síria após a morte de César e oprime a Judeia, e Malico envenena Antípater antes de ser morto por mando de Herodes(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 11)
  • Herodes expulsa da Judeia Antígono, filho de Aristóbulo, e ganha a amizade de Antônio com dinheiro, de modo que Antônio recusa as acusações contra ele e escreve aos tírios em favor dos judeus(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 12)
  • Antônio nomeia Herodes e Fasael tetrarcas, os partos invadem trazendo Antígono e fazem Hircano e Fasael prisioneiros, Fasael morre e Hircano é mutilado, e Herodes consegue fugir(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 13)
  • Herodes escapa do rei da Arábia, corre ao Egito e segue para Roma, onde, prometendo dinheiro a Antônio, obtém do senado e de Otaviano o título de rei dos judeus(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 14)
  • Herodes volta da Itália à Judeia e move guerra contra Antígono, com o relato das campanhas e dos reveses desse período(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 15)
  • Herodes, já casado com Mariane, toma Jerusalém à força em 37 a.C. com a ajuda do general romano Sósio, e o governo dos asmoneus chega ao fim(Antiguidades Judaicas - Livro XIV 16)

A tomada de Jerusalém por Pompeu

O episódio central do livro é o cerco de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C. Josefo relata que os sitiados não impediram a construção das obras de cerco em dia de sábado, por causa do descanso prescrito pela lei, o que teria facilitado a tomada do Templo. Conta também que Pompeu entrou no santuário interior, viu o que estava reservado apenas ao sumo sacerdote, mas não tocou nos tesouros, e no dia seguinte mandou purificar o Templo e restituiu o sumo sacerdócio a Hircano. A partir desse ponto a Judeia se torna tributária de Roma. O detalhe sobre o sábado Josefo apoia em fontes pagãs, citando Estrabão e Tito Lívio, e não na tradição bíblica.

Os decretos romanos

Boa parte do livro é ocupada por uma coleção de decretos, cartas e resoluções oficiais com que Júlio César, o senado e diversas cidades gregas confirmam direitos e isenções aos judeus, como a permissão de viver segundo suas leis, observar o sábado e enviar dinheiro ao Templo. Josefo transcreve esses documentos como provas de arquivo, num bloco que interrompe a narrativa. Os estudiosos discutem o grau de fidelidade e a ordem desses textos, e há suspeita de erros de cópia e de cronologia, mas o conjunto é considerado uma fonte importante para o estatuto jurídico das comunidades judaicas no mundo romano.

Fontes e Método

Como o relato já não acompanha a Bíblia, Josefo passa a depender de fontes greco-romanas. A base principal é Nicolau de Damasco, secretário e historiador da corte do próprio Herodes, cuja História Universalfavorecia o rei. Josefo combina esse material com Estrabão de Capadócia, com Tito Lívio e com os documentos oficiais que transcreve. Onde Nicolau é elogioso demais com Herodes, Josefo às vezes corrige ou contrabalança, mas em outros pontos repassa o viés da fonte sem filtro. A dependência de Nicolau ajuda a explicar tanto a riqueza de detalhes quanto a inclinação favorável a Herodes em parte da narrativa.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

O Livro XIV é uma das principais fontes sobre a entrada de Roma na Judeia e a ascensão de Herodes, e dialoga com Estrabão, Tito Lívio e a história romana do período. Seu valor é maior aqui do que nos livros que apenas recontam a Bíblia, porque grande parte do material vem de fontes externas e de documentos. A cautela necessária é dupla: a dependência de Nicolau de Damasco introduz simpatia por Herodes, e os números, datas e a ordem dos decretos transcritos nem sempre são confiáveis. Ainda assim, sem este livro a transição do mundo asmoneu para o mundo herodiano, o pano de fundo imediato do Novo Testamento, seria muito mais obscura.