Antiguidades Judaicas - Livro XIV 16
Livro XIV: Pompeu, Roma e a ascensão de Herodes
Como Herodes, depois de se casar com Mariane, tomou Jerusalém à força com a ajuda de Sósio. E como se pôs fim ao governo dos asmoneus.
Terminado o casamento, Sósio avançou pela Fenícia, tendo enviado o exército à frente pelas regiões do interior. Ele próprio, que era o comandante daquela tropa, chegou em seguida com grande número de cavaleiros e soldados de infantaria. O rei também veio em pessoa de Samaria e trouxe consigo um exército nada pequeno, além do que já estava no local, pois somavam cerca de trinta mil. Todos se reuniram diante das muralhas de Jerusalém e acamparam junto à muralha norte da cidade. Eram agora um exército de onze legiões de soldados de infantaria armados e seis mil cavaleiros, com outras tropas auxiliares vindas da Síria. Havia dois generais: Sósio, enviado por Marco Antônio para ajudar Herodes, e Herodes, por conta própria, com o objetivo de tirar o governo de Antígono, que havia sido declarado inimigo em Roma, e de se tornar ele mesmo rei, conforme o decreto do senado.
Os judeus cercados dentro das muralhas da cidade lutaram contra Herodes com grande disposição e ardor, pois toda a nação estava reunida. Eles também divulgavam muitas profecias sobre o templo e muitas coisas agradáveis ao povo, como se Deus fosse livrá-los dos perigos em que se encontravam. Tinham ainda removido tudo o que estava fora da cidade, para não deixar nada que servisse de sustento, fosse para homens ou animais, e por meio de saques particulares aumentavam a falta do necessário. Quando Herodes percebeu isso, montou emboscadas nos lugares mais adequados contra esses saques e enviou legiões de homens armados para trazer provisões, inclusive de lugares distantes, de modo que em pouco tempo passaram a ter grande abundância de mantimentos. Os três baluartes foram erguidos com facilidade, porque tantas mãos trabalhavam nele sem parar. Era verão, e nada os atrapalhava na construção das obras, nem o clima nem os trabalhadores. Assim eles posicionaram as máquinas de cerco, abalaram as muralhas da cidade e tentaram toda sorte de meios para entrar. Mesmo assim, os que estavam dentro não demonstravam medo algum, mas também montaram não poucas máquinas para se opor às máquinas dos sitiantes. Faziam ainda surtidas e queimavam não só as máquinas que ainda não estavam terminadas, como também as concluídas. E quando chegavam ao combate corpo a corpo, suas investidas não eram menos ousadas que as dos romanos, embora ficassem atrás deles em técnica. Erguiam novas obras quando as anteriores eram destruídas, e cavando minas subterrâneas, encontravam-se uns aos outros e ali lutavam. Valendo-se de uma coragem bruta em vez de bravura prudente, persistiram nessa guerra até o fim. E faziam isso enquanto um exército poderoso os cercava e enquanto eram atormentados pela fome e pela falta do necessário, pois calhava de ser um ano sabático. Os primeiros a escalar as muralhas foram vinte homens escolhidos; os seguintes foram os centuriões de Sósio. A primeira muralha foi tomada em quarenta dias, e a segunda em mais quinze, quando alguns dos pórticos ao redor do templo foram incendiados. Herodes divulgou que tinham sido incendiados por Antígono, para expô-lo ao ódio dos judeus. Tomados o pátio externo do templo e a cidade baixa, os judeus fugiram para o pátio interno do templo e para a cidade alta. Mas então, temendo que os romanos os impedissem de oferecer os sacrifícios diários a Deus, enviaram uma embaixada e pediram que ao menos lhes permitissem trazer animais para os sacrifícios. Herodes concedeu o pedido, esperando que fossem se render. Mas, ao ver que não faziam nada do que ele supunha, e sim o enfrentavam com amargura para preservar o reino a Antígono, lançou um ataque contra a cidade e a tomou de assalto. E então todos os lugares se encheram de mortos, pela fúria dos romanos diante da longa duração do cerco e pelo zelo dos judeus que estavam do lado de Herodes, que não queriam deixar vivo nenhum dos seus adversários. Assim eram massacrados sem parar, em multidões, nas ruas estreitas e nas casas, e enquanto fugiam para o templo em busca de abrigo. Não havia piedade nem por crianças nem por idosos, e tampouco poupavam o sexo mais fraco. Embora o rei enviasse mensageiros por toda parte suplicando que poupassem o povo, ninguém continha a mão da matança, mas, como se fossem um bando de loucos, atacavam pessoas de todas as idades, sem distinção. Foi então que Antígono, sem considerar nem suas circunstâncias passadas nem as presentes, desceu da cidadela e se lançou aos pés de Sósio. Este não teve piedade dele na reviravolta de sua sorte, mas o insultou sem medida e o chamou de Antígone [isto é, mulher, e não homem]. Ainda assim, não o tratou como mulher, deixando-o em liberdade, mas o pôs a ferros e o manteve sob estrita custódia.
Tendo Herodes vencido os inimigos, sua preocupação passou a ser controlar aqueles estrangeiros que o haviam auxiliado. Pois a multidão de forasteiros se precipitava para ver o templo e os objetos sagrados que havia nele. Mas o rei, julgando que uma vitória seria aflição mais severa que uma derrota se eles vissem algo que não era lícito ver, usou súplicas, ameaças e às vezes até a força para contê-los. Proibiu também o saque que se fazia na cidade e perguntava muitas vezes a Sósio se os romanos esvaziariam a cidade de dinheiro e de homens e o deixariam rei de um deserto. Disse-lhe ainda que considerava o domínio sobre toda a terra habitada como recompensa de modo algum equivalente a tamanha matança de seus concidadãos. E quando Sósio respondeu que esse saque devia, com justiça, ser permitido aos soldados pelo cerco que tinham enfrentado, Herodes replicou que daria a cada um sua recompensa com seu próprio dinheiro. Por esse meio resgatou da destruição o que restava da cidade e cumpriu o que havia prometido. Pois deu um presente generoso a cada soldado, um presente proporcional aos seus comandantes e um presente verdadeiramente régio ao próprio Sósio, de modo que todos partiram cheios de dinheiro.
Essa destruição abateu-se sobre a cidade de Jerusalém quando Marco Agripa e Canínio Galo eram cônsules de Roma, na centésima octogésima quinta olimpíada, no terceiro mês, na solenidade do jejum. Foi como se um ciclo periódico de calamidades tivesse retornado, desde a que se abateu sobre os judeus sob Pompeu. Pois os judeus haviam sido tomados por ele no mesmo dia, e isso vinte e sete anos antes. Então, depois de dedicar a Deus uma coroa de ouro, Sósio partiu de Jerusalém e levou Antígono consigo, a ferros, até Marco Antônio. Mas Herodes temia que Antígono fosse mantido na prisão apenas por Marco Antônio e que, ao ser levado a Roma por ele, conseguisse ter sua causa ouvida pelo senado e demonstrasse que, sendo ele próprio de sangue real e Herodes apenas um homem comum, o reino caberia, ainda assim, aos seus filhos, por causa da família a que pertenciam, mesmo que ele tivesse ofendido os romanos pelo que fizera. Foi por esse temor de Herodes que ele, dando muito dinheiro a Marco Antônio, tentou persuadi-lo a mandar matar Antígono. Pois, uma vez feito isso, ficaria livre daquele medo. E assim chegou ao fim o governo dos asmoneus, cento e vinte e seis anos depois de instaurado. Essa família era esplêndida e ilustre, tanto pela nobreza de sua estirpe quanto pela dignidade do sumo sacerdócio, e também pelos feitos gloriosos que seus antepassados haviam realizado por nossa nação. Mas esses homens perderam o governo por suas discórdias entre si, e ele passou a Herodes, filho de Antípater, que era de família apenas comum, sem ascendência ilustre, e que estava submetido a outros reis. E é isto o que a história nos conta sobre o fim da família asmoneia.