Antiguidades Judaicas - Livro XIV 3

Livro XIV: Pompeu, Roma e a ascensão de Herodes

Como Aristóbulo e Hircano foram a Pompeu para disputar quem deveria ter o reino. E como, depois que Aristóbulo fugiu para a fortaleza de Alexandrium, Pompeu marchou com seu exército contra ele e ordenou que entregasse as fortalezas que possuía.

Pouco depois Pompeu chegou a Damasco e marchou pela Celesíria. Nessa ocasião vieram a ele embaixadores de toda a Síria, do Egito e também da Judeia. Aristóbulo havia lhe enviado um grande presente: uma videira de ouro no valor de quinhentos talentos. Estrabão da Capadócia menciona esse presente com estas palavras: “Veio também uma embaixada do Egito, com uma coroa no valor de quatro mil peças de ouro. E da Judeia veio outra, quer você a chame de videira, quer de jardim. Davam ao objeto o nome de Τερπωλὴ, A delícia. Nós mesmos vimos esse presente guardado em Roma, no templo de Júpiter Capitolino, com esta inscrição: Dádiva de Alexandre, rei dos judeus. Foi avaliado em quinhentos talentos. E diz-se que quem o enviou foi Aristóbulo, o governante dos judeus.”
Pouco tempo depois vieram a ele de novo embaixadores: Antípater, da parte de Hircano, e Nicodemo, da parte de Aristóbulo. Este último também acusou os que haviam aceitado subornos: primeiro Gabínio e depois Escauro, um de trezentos talentos e o outro de quatrocentos. Com esse procedimento ele fez desses dois seus inimigos, além dos que tinha. E quando Pompeu ordenou que os que tinham litígios entre si viessem a ele no início da primavera, tirou seu exército dos quartéis de inverno e marchou para a região de Damasco. No caminho, demoliu a cidadela que ficava em Apameia, construída por Antíoco Cizíceno, e tomou conhecimento da região de Ptolomeu Meneu, um homem perverso, não menos que Dionísio de Trípoli, que havia sido decapitado e que era também seu parente por casamento. Ainda assim, Ptolomeu comprou o perdão de seus crimes por mil talentos, e com esse dinheiro Pompeu pagou o soldo dos soldados. Conquistou também o lugar chamado Lísias, do qual Silas, um judeu, era tirano. E depois de atravessar as cidades de Heliópolis e Cálcis e transpor a montanha que fica no limite da Celesíria, veio de Pela a Damasco. Foi ali que ele ouviu as causas dos judeus e de seus governantes Hircano e Aristóbulo, que estavam em desavença um com o outro, e também a causa da nação contra os dois, pois a nação não desejava ficar sob governo monárquico. A razão é que a forma de governo que receberam de seus antepassados era a submissão aos sacerdotes do Deus que adoravam, e eles reclamavam que, embora esses dois fossem descendentes de sacerdotes, buscavam mudar o governo da nação para outra forma a fim de escravizá-los. Hircano queixava-se de que, mesmo sendo o irmão mais velho, fora privado do direito de nascimento por Aristóbulo, e que tinha apenas uma pequena parte do território sob seu controle, pois Aristóbulo lhe tomara o resto à força. Acusou-o também de que as invasões feitas aos territórios vizinhos e a pirataria no mar eram obra dele, e de que a nação não teria se revoltado se Aristóbulo não fosse um homem dado à violência e à desordem. E não foram menos de mil judeus, dos mais respeitados entre eles, que confirmaram essa acusação. Essa confirmação foi obtida por Antípater. Mas Aristóbulo alegou contra ele que era o próprio temperamento de Hircano, inativo e por isso desprezível, que o levara a ser privado do governo, e que ele mesmo fora obrigado a assumi-lo por medo de que passasse para outras mãos. Quanto ao seu título de rei, dizia que não era diferente do que o pai assumira antes dele. Chamou também como testemunhas do que dizia algumas pessoas jovens e insolentes, cujas vestes de púrpura, cabeleiras bem cuidadas e demais adornos foram detestados pela corte. Eles se apresentaram não como quem ia defender uma causa em um tribunal, mas como se marchassem em um cortejo pomposo.
Depois de ouvir as causas dos dois e condenar Aristóbulo por sua conduta violenta, Pompeu falou com eles de modo cortês e os despediu, dizendo que, quando voltasse à terra deles, resolveria todos os seus assuntos, assim que primeiro examinasse a situação dos nabateus. Enquanto isso, ordenou que ficassem quietos e tratou Aristóbulo com cortesia, para que ele não fizesse a nação se revoltar e impedisse seu retorno. Foi exatamente o que Aristóbulo fez. Pois, sem esperar nenhuma decisão definitiva que Pompeu lhes prometera, ele foi à cidade de Délio e dali marchou para a Judeia.
Diante desse comportamento, Pompeu ficou furioso. Tomando o exército que conduzia contra os nabateus, as tropas auxiliares vindas de Damasco e de outras partes da Síria, e as demais legiões romanas que tinha consigo, fez uma expedição contra Aristóbulo. Ao passar por Pela e Citópolis, chegou a Coreia, que é a primeira entrada na Judeia quando se atravessam as regiões centrais. Ali chegou a uma fortaleza belíssima, construída no topo de uma montanha chamada Alexandrium, para onde Aristóbulo havia fugido. Dali Pompeu lhe enviou ordens para que viesse até ele. Então, por insistência de muitos para que não fizesse guerra contra os romanos, Aristóbulo desceu. E depois de discutir com o irmão sobre o direito ao governo, voltou a subir para a cidadela, pois Pompeu lhe deu permissão para isso. E ele fez isso duas ou três vezes, iludindo-se com a esperança de que o reino lhe fosse concedido. Por isso continuava fingindo que obedeceria a Pompeu em tudo o que ordenasse, embora ao mesmo tempo se recolhesse à sua fortaleza, para não se rebaixar demais e para estar preparado para uma guerra, caso se confirmasse o que temia, que Pompeu transferiria o governo a Hircano. Mas quando Pompeu ordenou que Aristóbulo entregasse as fortalezas que mantinha e enviasse uma ordem escrita de próprio punho aos comandantes dessas fortalezas para esse fim, pois eles haviam sido proibidos de entregá-las por qualquer outra ordem, Aristóbulo de fato concordou em obedecer, mas mesmo assim recolheu-se descontente a Jerusalém e fez preparativos para a guerra. Pouco depois disso, certas pessoas vieram do Ponto e informaram Pompeu, enquanto ele estava a caminho conduzindo seu exército contra Aristóbulo, que Mitrídates havia morrido, assassinado por seu filho Farnaces.