Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XIII

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os onze primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os nove seguintes, a partir do Livro XII, cobrem o período helenístico e romano até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XIII na Obra

O Livro XIII cobre cerca de um século, da morte de Judas Macabeu, por volta de 160 a.C., à morte da rainha Alexandra Salomé, em 67 a.C. É a história da dinastia hasmoneia em seu apogeu: a liderança de Jônatas e de Simão, os longos governos de João Hircano e de Alexandre Janeu, e o breve reinado de Aristóbulo I, primeiro hasmoneu a assumir título de rei. O pano de fundo é a desintegração do reino selêucida, dividido por guerras civis entre pretendentes ao trono, que abriu espaço para a independência judaica.

Conteúdo do Livro

    Jônatas, sumo sacerdote e líder dos judeus

  • Jônatas assume a liderança após a morte de seu irmão Judas Macabeu e, com o irmão Simão, guerreia contra Báquides, general selêucida (paralelo a 1Mac 9)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 1)
  • Na disputa entre Alexandre Balas e Demétrio I pelo trono selêucida, Jônatas é nomeado sumo sacerdote por Alexandre, e o capítulo registra a morte de Demétrio (1Mac 10)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 2)
  • A amizade entre o sacerdote Onias e Ptolomeu Filometor do Egito, e a construção por Onias de um templo judeu em Leontópolis, no Egito, semelhante ao de Jerusalém(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 3)
  • Alexandre Balas honra Jônatas, mas Demétrio II derrota Alexandre e firma aliança de amizade com Jônatas (1Mac 11)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 4)
  • Trifon derrota Demétrio e entrega o reino a Antíoco VI, filho de Alexandre, e ganha Jônatas como auxiliar; os feitos e as embaixadas de Jônatas, inclusive a Roma e a Esparta (1Mac 12)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 5)
  • Jônatas é morto por traição de Trifon; os judeus fazem de Simão general e sumo sacerdote, e ele age com firmeza, em especial contra Trifon (1Mac 12 e 13)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 6)
  • Simão e a independência

  • Simão se alia a Antíoco VII Sidetes (Pio) e guerreia contra Trifon e depois contra Cendebeu, general de Antíoco; Simão é assassinado por traição de seu genro Ptolomeu (1Mac 15 e 16)(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 7)
  • João Hircano

  • João Hircano recebe o sumo sacerdócio e expulsa Ptolomeu do país; Antíoco VII faz guerra contra Hircano e depois firma aliança com ele(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 8)
  • Após a morte de Antíoco VII, Hircano organiza uma expedição contra a Síria e firma tratado com os romanos; a morte dos reis Demétrio II e Alexandre Zabinas(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 9)
  • Na disputa entre Antíoco VIII Gripo e Antíoco IX Cízico, Hircano toma e arrasa Samaria; Hircano rompe com os fariseus e adere aos saduceus(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 10)
  • Aristóbulo e Alexandre Janeu

  • Aristóbulo I assume o governo e coloca um diadema na cabeça, sendo o primeiro hasmoneu a usar título de rei; trata com crueldade a mãe e os irmãos, mata Antígono e morre pouco depois(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 11)
  • Alexandre Janeu faz expedição contra Ptolemaida e recua por medo de Ptolomeu Latiro; a intriga com Cleópatra e a derrota dos judeus diante de Ptolomeu(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 12)
  • Apoiado no pacto com Cleópatra, Alexandre Janeu ataca a Celessíria e arrasa Gaza; reprime uma revolta interna com grande matança de judeus, em meio às lutas entre os pretendentes selêucidas(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 13)
  • Demétrio III Eucero vence Alexandre Janeu mas logo se retira por medo dos próprios judeus; Alexandre executa muitos opositores, inclusive a crucificação em massa que Josefo descreve(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 14)
  • As expedições de Antíoco XII Dioniso e do nabateu Aretas contra a Judeia; Alexandre Janeu toma muitas cidades e morre após três anos de doença, deixando conselho à esposa Alexandra(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 15)
  • A rainha Alexandra

  • Alexandra Salomé conquista a boa vontade dos fariseus e governa por nove anos, devolvendo influência a eles, até sua morte(Antiguidades Judaicas - Livro XIII 16)

As Três Seitas: Fariseus, Saduceus e Essênios

É no Livro XIII, no relato sobre João Hircano, que Josefo introduz pela primeira vez nas Antiguidades a descrição das três seitas judaicas: fariseus, saduceus e essênios, distinguidas pelo que ensinavam sobre o destino e o livre-arbítrio. O episódio em que Hircano rompe com os fariseus e adere aos saduceus é a primeira notícia detalhada do conflito entre os dois grupos, que voltaria a marcar o governo de Alexandra. Essas páginas estão entre as fontes mais antigas que descrevem os fariseus e saduceus como partidos organizados, e dialogam com o que o Novo Testamento e a literatura rabínica posterior dizem sobre eles. Convém notar que Josefo descreve as seitas em termos de escolas filosóficas gregas, um enquadramento adaptado ao seu público romano.

Fontes e Método

Para a primeira parte do livro, que trata de Jônatas e Simão, Josefo segue de perto 1 Macabeus, parafraseando e reorganizando o material em grego. A partir de João Hircano, onde 1 Macabeus termina, ele passa a depender de outras fontes, em especial a história universal de Nicolau de Damasco, secretário de Herodes, e provavelmente de relatos sobre a casa hasmoneia. Há também sobreposição com sua obra anterior, a Guerra dos Judeus, que cobre parte do mesmo período de forma mais resumida. As duas versões nem sempre coincidem nos detalhes.

Como em toda a obra, Josefo escreve com um programa apologético e dá às figuras hasmoneias o brilho que convém ao seu projeto. Para episódios como a tomada de Samaria por Hircano ou a repressão sangrenta de Alexandre Janeu, ele é com frequência a única fonte literária detalhada, o que torna difícil controlar seus dados por testemunhos independentes.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

O Livro XIII é a principal narrativa contínua que temos sobre o período hasmoneu posterior aos Macabeus. Para a parte coberta por 1 Macabeus, Josefo apenas reconta uma fonte que ainda possuímos. Já para os governos de Hircano, Aristóbulo e Janeu, ele é muitas vezes insubstituível, ainda que dependente de fontes hoje perdidas como Nicolau de Damasco. A leitura exige cautela com a tendência laudatória ou crítica do autor diante de cada hasmoneu, com a moldura helenística que ele impõe às seitas judaicas, e com as divergências entre este relato e o da Guerra dos Judeus. Ainda assim, sem o Livro XIII a história da Judeia entre os Macabeus e a chegada de Roma ficaria quase em silêncio.