Capítulos
Antiguidades Judaicas - Livro III
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.
O Livro III na Obra
O Livro III cobre o intervalo entre a saída do Egito e a recusa daquela geração em entrar em Canaã. Acompanha os relatos de Êxodo 15 a 40, de Levítico e do início de Números: a travessia do deserto rumo ao Sinai, o maná e a água, a guerra contra Amaleque, a visita de Jetro, a teofania do Sinai e os dez mandamentos, a construção do tabernáculo, as vestes sacerdotais, a consagração de Arão, o sistema de sacrifícios, festas e leis de pureza, e por fim o episódio dos espiões que condena o povo a quarenta anos de deserto.
Conteúdo do Livro
- A marcha pelo deserto rumo ao Sinai, a sede e a falta de pão, as águas amargas adoçadas e a chegada do maná, que Josefo descreve e cuja etimologia explica (Êx 15 a 17) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 1)
- A guerra contra os amalequitas e os povos vizinhos e a vitória dos hebreus comandados por Josué (Êx 17) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 2)
- A vinda de Jetro, sogro de Moisés, ao acampamento junto ao Sinai e o reencontro com a família (Êx 18) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 3)
- O conselho de Jetro para que Moisés nomeasse chefes de milhares e de centenas, e a adoção dessa ordem judicial pelo povo (Êx 18) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 4)
- A subida de Moisés ao monte Sinai, a teofania e a entrega das leis a Israel, com a exposição dos dez mandamentos (Êx 19 e 20, 24) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 5)
- A construção do tabernáculo no deserto, com a descrição de suas medidas, cortinas, da arca, da mesa, do candelabro e do altar (Êx 25 a 27, 35 a 38) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 6)
- As vestes dos sacerdotes e do sumo sacerdote, com a interpretação simbólica que Josefo dá a cada peça, como o éfode, o peitoral e a mitra (Êx 28 e 39) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 7)
- A consagração de Arão e dos filhos ao sacerdócio e a instituição do serviço sacerdotal (Êx 29, Lv 8 e 9) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 8)
- A natureza dos sacrifícios: holocaustos, ofertas pela transgressão e ofertas de paz, com o modo de cada oferta (Lv 1 a 7) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 9)
- As festas do calendário e como cada dia delas era observado, incluindo a páscoa, pentecostes, as trombetas e o dia da expiação (Lv 23, Nm 28 e 29) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 10)
- As purificações e as regras de pureza ritual sobre o puro e o impuro (Lv 11 a 15) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 11)
- Diversas leis morais e civis dadas por Moisés ao povo (Lv 18 a 20, com material de Êx e Nm) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 12)
- A partida do monte Sinai e a marcha até as fronteiras dos cananeus (Nm 10) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 13)
- O envio dos espiões para explorar Canaã e o relato amedrontado que trouxeram depois de quarenta dias, com a revolta e o desespero do povo (Nm 13) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 14)
- A repreensão de Moisés e o anúncio de que aquela geração vagaria quarenta anos no deserto sem entrar em Canaã (Nm 14) — (Antiguidades Judaicas - Livro III 15)
Do Egito ao Sinai
Jetro e a organização do povo
O Sinai e a Lei
O tabernáculo e o sacerdócio
Sacrifícios, festas e leis rituais
A partida do Sinai e o castigo no deserto
Fontes e Método
Nesta parte Josefo segue principalmente a Torá, parafraseada e reorganizada, num procedimento que os estudiosos chamam de "Bíblia reescrita". Ele não copia a ordem do texto: reúne em blocos temáticos a legislação que no Pentateuco aparece dispersa entre Êxodo, Levítico e Números, e adia certas leis para tratá-las em conjunto. Em vários pontos suaviza o sobrenatural ou acrescenta explicações que soam plausíveis a um leitor grego, como ao descrever o maná ou ao discutir a etimologia das palavras hebraicas.
Josefo também interrompe a narrativa para defender que não acrescenta nem omite nada da Lei, e promete um tratado à parte sobre as razões de cada preceito, que nunca chegou a publicar. A interpretação simbólica que dá ao tabernáculo e às vestes sacerdotais, em que cada elemento representa partes do cosmos, reflete a exegese alegórica corrente no judaísmo helenístico, próxima da de Fílon de Alexandria.
A Alegoria do Tabernáculo e das Vestes
Ao descrever o tabernáculo, as vestes do sumo sacerdote e os utensílios, Josefo lê cada peça como imagem do universo. As três partes da tenda representariam a terra, o mar e o céu; os doze pães, os meses do ano; o candelabro de sete braços, os planetas conhecidos na época. Essa leitura cósmica não está no texto bíblico: vem da tradição judaico-helenística que buscava mostrar a um público culto que a religião de Israel encerrava uma sabedoria sobre a natureza. Vale como testemunho da interpretação do século I, não como sentido original dos ritos.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
Para o período do deserto, Josefo não é fonte independente da Bíblia: ele a reconta, harmoniza e racionaliza. Seu valor está no testemunho que dá da forma como o judaísmo do fim do Segundo Templo lia a Lei, organizava os preceitos e os explicava a estrangeiros. A leitura exige cautela com o programa apologético do autor, com as leituras alegóricas que ele projeta sobre o culto e com suas divergências de ordem e de detalhe em relação ao Texto Massorético. Ainda assim, é uma das pontes mais antigas entre a narrativa do Pentateuco e a prática sacerdotal de seu tempo.