Antiguidades Judaicas - Livro III 15
Livro III: o deserto, o Sinai, a Lei e o tabernáculo
Como Moisés se desagradou com isso e predisse que Deus estava irado e que eles permaneceriam no deserto por quarenta anos, e que durante esse tempo não voltariam ao Egito nem tomariam posse de Canaã.
Moisés agora se aproximou do povo com firmeza e o informou de que Deus se irritara com o abuso que tinham cometido contra ele e lhes aplicaria um castigo. Não seria o castigo que mereciam pelos seus pecados, mas o que os pais aplicam aos filhos para corrigi-los. Pois, segundo ele contou, enquanto estava no tabernáculo e chorava a destruição que viria sobre eles, Deus lhe lembrou de tudo o que tinha feito por aquele povo, dos benefícios que tinham recebido dele e, ainda assim, de como tinham sido ingratos. Acabavam de se deixar levar pela covardia dos espias, a ponto de julgar que as palavras dos espias eram mais verdadeiras que a própria promessa de Deus. Por isso, embora ele não fosse destruí-los todos nem exterminar por completo a nação que tinha honrado mais que qualquer outra parte da humanidade, não permitiria que tomassem posse da terra de Canaã nem que desfrutassem da sua prosperidade. Em vez disso, os faria vagar pelo deserto, vivendo sem morada fixa e sem cidade, por quarenta anos seguidos, como castigo por essa transgressão. Mas Deus prometera dar aquela terra aos seus filhos e os tornaria donos das boas coisas das quais vocês se privaram com suas paixões descontroladas.
Depois que Moisés falou dessa forma ao povo, conforme a orientação de Deus, a multidão se entristeceu e ficou aflita, e suplicou a Moisés que conseguisse a reconciliação deles com Deus e que não os deixasse vagar mais pelo deserto, mas que lhes desse cidades. Ele, no entanto, respondeu que Deus não admitiria nenhuma tentativa desse tipo, pois não tinha chegado a essa decisão por nenhuma leviandade humana nem por ira, mas os havia condenado judicialmente àquele castigo. Não devemos duvidar de que Moisés, sozinho, acalmou tantas dezenas de milhares de pessoas iradas e as converteu a um temperamento brando. Pois Deus estava com ele e preparava o caminho para que ele persuadisse o povo. E, como muitas vezes tinham sido desobedientes, agora percebiam que tal desobediência os prejudicava e que por causa dela continuavam caindo em calamidades.
Esse homem foi admirável pela sua virtude e poderoso em fazer com que as pessoas dessem crédito ao que ensinava, não só durante o tempo da sua vida, mas até hoje não há um só dos hebreus que não aja como se Moisés estivesse presente, pronto para puni-lo caso fizesse algo indecente. Não há ninguém que não obedeça às leis que ele ordenou, ainda que suas transgressões pudessem ficar ocultas. Há também muitas outras provas de que o poder dele era mais que humano. Pois ainda houve quem viesse das regiões além do Eufrates, numa viagem de quatro meses, passando por muitos perigos e com grandes despesas, em honra do nosso templo. E, mesmo assim, depois de oferecer suas oblações, não podiam participar dos próprios sacrifícios, porque Moisés tinha proibido isso por algum dispositivo da lei que não permitia, ou por causa de algo que lhes acontecera e que nossos antigos costumes tornavam incompatível com aquilo. Por isso, alguns deles não chegaram a sacrificar, e outros deixaram seus sacrifícios incompletos. Aliás, muitos não conseguiam sequer entrar no templo num primeiro momento e iam embora nessa situação, preferindo a submissão às leis de Moisés à satisfação dos próprios desejos, mesmo sem temer que alguém pudesse incriminá-los, apenas por respeito à própria consciência. Assim, essa legislação, que parecia ser divina, fez com que esse homem fosse estimado como alguém superior à sua própria natureza humana. E mais: pouco antes do início desta guerra, quando Cláudio era imperador dos romanos e Ismael era nosso sumo sacerdote, e quando caiu sobre nós uma fome tão grande que um décimo [de trigo] era vendido por quatro dracmas, e quando nada menos que setenta coros de farinha foram levados ao templo na festa dos pães asmos (esses coros equivalem a trinta e um medimnos sicilianos, ou quarenta e um atenienses), nenhum dos sacerdotes teve a ousadia de comer uma só migalha disso, mesmo durante uma aflição tão grande sobre a terra, e isso por medo da lei e da ira que Deus mantém contra os atos de maldade, mesmo quando ninguém pode acusar quem os pratica. Por isso não devemos nos admirar com o que se fez naquela ocasião, já que até hoje os escritos deixados por Moisés têm tamanha força que até os que nos odeiam admitem que quem estabeleceu este ordenamento foi Deus, e que isso se deu por meio de Moisés e da sua virtude. Mas quanto a essas questões, que cada um as entenda como achar melhor.