Antiguidades Judaicas - Livro III 14
Livro III: o deserto, o Sinai, a Lei e o tabernáculo
Como Moisés enviou alguns homens para explorar a terra dos cananeus e o tamanho de suas cidades. E ainda, como, ao voltarem depois de quarenta dias, os enviados relataram que não seriam páreo para eles e exaltaram a força dos cananeus, a multidão se perturbou e caiu em desespero, e resolveu apedrejar Moisés e voltar ao Egito para servir aos egípcios.
Quando Moisés conduziu os hebreus dali até um lugar chamado Parã, que ficava perto das fronteiras dos cananeus e era difícil de habitar, reuniu a multidão em assembleia. De pé, no meio deles, disse: "Das duas coisas que Deus decidiu nos conceder, a liberdade e a posse de uma terra próspera, uma vocês já receberam pelo dom de Deus, e a outra obterão em breve. Pois agora estamos próximos das fronteiras dos cananeus, e nada pode impedir que tomemos essa terra, agora que finalmente chegamos a ela. Digo que nem rei, nem cidade, nem mesmo toda a raça humana reunida poderia impedir isso. Preparemo-nos, então, para a tarefa, pois os cananeus não nos entregarão sua terra sem lutar. Ela terá de ser arrancada deles por grandes esforços de guerra. Enviemos espias, que examinem a qualidade da terra e a força que ela tem. Mas, acima de tudo, estejamos unidos e honremos a Deus, que mais que todos é nosso socorro e nosso auxílio."
Depois que Moisés falou assim, a multidão respondeu com sinais de respeito e escolheu doze espias, entre os homens mais notáveis, um de cada tribo. Eles atravessaram toda a terra de Canaã, das fronteiras do Egito até a cidade de Hamate e o monte Líbano, e, tendo conhecido a natureza da terra e de seus habitantes, voltaram para casa, gastando quarenta dias no trabalho inteiro. Trouxeram também consigo alguns dos frutos que a terra produzia, mostraram a excelência desses frutos e relataram a grande quantidade de coisas boas que a terra oferecia, o que era motivo para a multidão ir à guerra. Mas em seguida os assustaram de novo com a enorme dificuldade de conquistá-la: que os rios eram tão largos e profundos que não podiam ser atravessados, que as montanhas eram tão altas que por causa delas não se conseguia avançar, que as cidades eram fortes, com muralhas e firmes fortificações ao redor. Contaram-lhes ainda que tinham encontrado em Hebrom os descendentes dos gigantes. Assim, esses espias, que tinham visto a terra de Canaã, ao perceberem que todas essas dificuldades eram ali maiores do que qualquer uma enfrentada desde que saíram do Egito, ficaram eles próprios apavorados e procuraram apavorar também a multidão.
Por isso supuseram, a partir do que tinham ouvido, que era impossível tomar posse daquela terra. E quando a assembleia se dispersou, eles, suas mulheres e seus filhos prosseguiram em lamentação, como se Deus não fosse de fato ajudá-los, mas apenas lhes fizesse belas promessas. De novo culparam Moisés e gritaram contra ele e contra seu irmão Arão, o sumo sacerdote. Passaram aquela noite muito mal, dirigindo a ambos palavras insultuosas. Mas, pela manhã, correram a uma assembleia, com a intenção de apedrejar Moisés e Arão e assim voltar ao Egito.
Mas entre os espias estavam Josué, filho de Num, da tribo de Efraim, e Calebe, da tribo de Judá. Temendo o que isso traria, foram para o meio do povo e acalmaram a multidão. Pediram que tivessem bom ânimo, que não condenassem a Deus como se ele lhes tivesse mentido, e que não dessem ouvidos aos que os assustaram contando o que não era verdade a respeito dos cananeus, mas aos que os encorajavam a esperar bom êxito, porque haveriam de conquistar a felicidade prometida. Pois nem a altura das montanhas nem a profundidade dos rios poderiam impedir homens de verdadeira coragem de enfrentá-las, sobretudo enquanto Deus cuidasse deles de antemão e fosse seu auxílio. "Vamos, então", disseram, "contra os nossos inimigos, sem nenhuma suspeita de fracasso, confiando que Deus nos conduzirá e seguindo aqueles que devem ser nossos chefes." Foi assim que esses dois os exortaram e tentaram aplacar a fúria em que estavam. Moisés e Arão, por sua vez, caíram por terra e suplicaram a Deus, não pela própria salvação, mas que ele pusesse fim ao que o povo fazia sem pensar e trouxesse à calma as mentes deles, agora perturbadas pela paixão do momento. A nuvem então apareceu, pairou sobre o tabernáculo e declarou a eles que ali estava a presença de Deus.