Antiguidades Judaicas - Livro III 12

Livro III: o deserto, o Sinai, a Lei e o tabernáculo

Diversas leis.

Quanto ao adultério, Moisés o proibiu por completo, pois considerava algo feliz que os homens fossem prudentes nas questões do matrimônio, e que era proveitoso tanto para as cidades quanto para as famílias que os filhos fossem reconhecidos como legítimos. Ele também abominava que os homens se deitassem com as próprias mães, tendo isso como um dos maiores crimes, e o mesmo valia para deitar-se com a mulher do pai, com tias, irmãs e mulheres dos filhos, todos casos de perversidade abominável. Ele também proibiu o homem de se deitar com a esposa enquanto ela estivesse impura por causa do fluxo natural, de se aproximar de animais irracionais e de aprovar a relação com outro homem, o que significava buscar prazeres ilícitos por causa da beleza. Para os que cometessem semelhante insolência, ele determinou a morte como castigo.
Quanto aos sacerdotes, ele lhes prescreveu um grau de pureza duas vezes maior. Pois os submeteu às restrições mencionadas acima e, além disso, proibiu-os de casar com prostitutas. Também os proibiu de casar com uma escrava, ou com uma cativa, ou com mulheres que ganhavam a vida em ofícios desonestos e mantendo hospedarias, bem como com uma mulher separada do marido por qualquer motivo que fosse. Mais ainda, ele não considerava apropriado que o sumo sacerdote casasse sequer com a viúva de um homem falecido, embora permitisse isso aos sacerdotes comuns. A ele permitia casar com uma virgem e mantê-la. É por isso que o sumo sacerdote não pode aproximar-se de um morto, ainda que os demais não estejam proibidos de chegar perto de irmãos, pais ou filhos quando morrem. Mesmo assim, devem ser irrepreensíveis em todos os aspectos. Ele determinou que o sacerdote que tivesse algum defeito físico recebesse de fato a sua parte entre os sacerdotes, mas o proibiu de subir ao altar ou de entrar na Casa Santa. Também lhes ordenou que observassem a pureza não nos serviços sagrados, mas também na vida cotidiana, para que ela igualmente fosse irrepreensível. E por essa razão os que vestem as vestes sacerdotais são sem mácula e notáveis pela pureza e sobriedade. Tampouco lhes é permitido beber vinho enquanto trajam essas vestes. Além disso, eles oferecem sacrifícios que são íntegros e não têm defeito algum.
E de fato Moisés lhes deu todos esses preceitos, sendo eles observados durante a sua própria vida. Mas, embora vivesse então no deserto, ele tomou providências para que pudessem observar as mesmas leis quando tomassem a terra de Canaã. Concedeu descanso à terra, livre de arar e plantar, a cada sétimo ano, assim como lhes havia prescrito o descanso do trabalho a cada sétimo dia, e ordenou que o que crescesse por si mesmo da terra pertencesse em comum a todos os que quisessem usá-lo, sem fazer nesse aspecto distinção alguma entre os seus próprios compatriotas e os estrangeiros. Ele também determinou que fizessem o mesmo depois de sete vezes sete anos, que somam cinquenta anos. E esse quinquagésimo ano é chamado pelos hebreus de Jubileu. Nele os devedores são libertos das suas dívidas e os escravos são postos em liberdade. Esses escravos haviam se tornado tais, ainda que fossem do mesmo povo, por transgredir algumas das leis cujo castigo não era a pena capital, e eram punidos por esse método da escravidão. Esse ano também restitui a terra aos seus antigos donos da seguinte maneira. Quando chega o Jubileu, nome que significa Liberdade, aquele que vendeu a terra e aquele que a comprou se reúnem e fazem uma estimativa, de um lado dos frutos colhidos e de outro das despesas feitas com ela. Se os frutos colhidos superam as despesas feitas, quem a vendeu recupera a terra. Mas, se as despesas superam os frutos, o atual possuidor recebe do antigo dono a diferença que faltava e lhe deixa a terra. E se os frutos recebidos e as despesas feitas se equivalem, o atual possuidor a restitui aos antigos donos. Moisés quis que a mesma lei valesse também para as casas que fossem vendidas em aldeias, mas estabeleceu uma lei diferente para as vendidas em uma cidade. Pois, se quem a vendeu devolvesse ao comprador o seu dinheiro dentro de um ano, era obrigado a restituir a casa. Mas, caso um ano inteiro tivesse transcorrido, o comprador podia desfrutar do que havia adquirido. Essa foi a constituição das leis que Moisés aprendeu de Deus, quando o acampamento estava ao do monte Sinai, e foi isso que ele entregou por escrito aos hebreus.
Ora, quando esse estabelecimento de leis pareceu bem concluído, Moisés julgou oportuno enfim fazer uma revisão do exército, por considerar adequado organizar os assuntos da guerra. Por isso encarregou os chefes das tribos, com exceção da tribo de Levi, de fazer uma contagem exata do número dos que podiam ir à guerra, pois os levitas eram consagrados e isentos de todos esses encargos. E quando o povo foi contado, encontraram seiscentos mil homens aptos a ir à guerra, dos vinte aos cinquenta anos de idade, além de três mil seiscentos e cinquenta. No lugar de Levi, Moisés tomou Manassés, filho de José, entre os chefes das tribos, e Efraim no lugar de José. De fato, foi um pedido do próprio Jacó a José que lhe desse os seus filhos para serem dele por adoção, como relatei antes.
Quando armaram o tabernáculo, eles o acolheram no meio do acampamento, com três tribos montando suas tendas de cada lado, e foram abertos caminhos pelo meio dessas tendas. Era como um mercado bem organizado, e tudo ali estava pronto para venda em devida ordem, e havia toda sorte de artesãos nas lojas. Nada se parecia mais com uma cidade, que às vezes podia mover-se e às vezes ficava fixa. Os sacerdotes ocupavam os primeiros lugares ao redor do tabernáculo, depois os levitas, que, por se contar toda a sua multidão a partir dos trinta dias de idade, eram vinte e três mil oitocentos e oitenta homens. E durante o tempo em que a nuvem pairava sobre o tabernáculo, eles julgavam oportuno permanecer no mesmo lugar, supondo que Deus habitava ali entre eles. Mas, quando ela se afastava, eles também partiam.
Além disso, Moisés foi o inventor do formato da trombeta deles, que era feita de prata. Sua descrição é esta. No comprimento, era pouco menor que um côvado. Compunha-se de um tubo estreito, um pouco mais grosso que uma flauta, mas com largura suficiente para admitir o sopro da boca de um homem, e terminava em forma de sino, como as trombetas comuns. Seu som era chamado na língua hebraica de Asosra. Fabricavam-se duas delas. Uma era tocada quando queriam que a multidão se reunisse em assembleia. Quando a primeira dava o sinal, os chefes das tribos deviam reunir-se e deliberar sobre os assuntos que lhes diziam respeito. Mas, quando davam o sinal com as duas, convocavam toda a multidão. Isso se fazia quando o tabernáculo tinha de ser removido. Pois, quando o primeiro sinal era dado, aqueles cujas tendas ficavam no lado leste preparavam-se para partir. Quando o segundo sinal era dado, os que ficavam no lado sul faziam o mesmo. Em seguida, o tabernáculo era desmontado e levado no meio de seis tribos que iam à frente e seis que seguiam atrás. Todos os levitas ficavam ao redor do tabernáculo. Quando o terceiro sinal era dado, a parte que tinha as tendas voltadas para o oeste punha-se em movimento, e ao quarto sinal os que ficavam ao norte faziam o mesmo. Eles também usavam essas trombetas nos serviços sagrados, quando levavam os sacrifícios ao altar, bem como nos sábados e nos demais dias [de festa]. E foi então que Moisés ofereceu, no deserto, o sacrifício que se chamava Páscoa, sendo o primeiro que ele oferecia depois da saída do Egito.