Capítulos

Um rolo de papiro parcialmente desenrolado, lacrado com selo de cera vermelha, ao lado de um anel de sinete e um tinteiro

Cartas - Livro II

Cartas sobre oratória, heranças, a morte de amigos e o cotidiano da elite romana

Sobre a obra

As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e mais tarde governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, poliu e publicou. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.

Este é o Livro II, com 20 cartas. O período coberto é o dos primeiros anos de Trajano. A datação da publicação é debatida, mas a estimativa mais comum agrupa os três primeiros livros na virada do século I para o II.

O grande processo: Mário Prisco

Duas cartas seguidas relatam o julgamento de Mário Prisco, procônsul acusado pelos provincianos da África de receber dinheiro para condenar e executar inocentes. Plínio e Cornélio Tácito foram encarregados pelo senado de sustentar a acusação, e o caso foi julgado com Trajano presidindo. A sentença mandou recolher ao erário os setecentos mil sestércios recebidos e baniu o réu de Roma e da Itália. É um dos relatos mais detalhados que sobreviveram de um processo por extorsão provincial.

O julgamento em duas cartas

Morte, memória e caça a heranças

O livro abre com o funeral público de Vergínio Rufo, o general que recusou o império duas vezes, tratado por Plínio como o fim de uma era. No polo oposto está a carta 20, uma sequência de anedotas sobre Marco Régulo rondando moribundos para figurar em testamentos. As duas juntas mostram o que a sociedade romana honrava e o que ela tolerava.

Cartas sobre herança e reputação

Oratória, recitação e o tribunal dos centúnviros

Plínio volta com frequência ao ofício. Descreve o orador grego Iseu, que falava de improviso como quem tinha escrito por muito tempo. Confessa que as causas no tribunal dos centúnviros o cansam mais do que o agradam, porque a maioria é pequena. E discute quando um discurso deve ser recitado antes de publicado.

Cartas sobre a palavra pública

A casa, a mesa e o campo

A carta 17 descreve cômodo por cômodo a vila laurentina, a poucas horas de Roma, e é uma das fontes mais usadas para reconstruir a casa de campo romana. A carta 6 conta um jantar em que o anfitrião servia três qualidades de vinho conforme a categoria do convidado, e registra a resposta de Plínio: ele serve o mesmo a todos, porque convida para um jantar e não para uma classificação social.

Cartas sobre a vida doméstica

Relevância para o leitor cristão

O Livro II não fala de cristãos. Serve como retrato do mundo em que as primeiras comunidades cristãs se organizavam, na geração em que a crítica majoritária situa os últimos escritos do Novo Testamento. A carta do jantar é um exemplo útil: ela documenta, por dentro e sem intenção polêmica, a prática de sentar convidados em graus e servir comida diferente a cada grau. É exatamente o costume que Paulo repreende em Corinto, ao dizer que a ceia deixa de ser do Senhor quando um passa fome e outro se embriaga. Plínio não conhecia essa carta e não está respondendo a ela: o valor do paralelo é contextual, não literário.

(1Co 11:20-22)

A ponte direta com o cristianismo está no Livro X, escrito cerca de dez anos depois, quando o mesmo autor, já governador da Bitínia-Ponto, pergunta a Trajano como deve julgar os cristãos.

(Cartas - Livro X 96:1-10)