Cartas - Livro II 17
Cartas sobre oratória, heranças, a morte de amigos e o cotidiano da elite romana
Caio Plínio ao seu caro Galo, saudações.
Você se admira de que minha propriedade laurentina, ou laurente, se prefere assim, me agrade tanto. Deixará de se admirar quando conhecer o encanto da casa, a comodidade do lugar e a extensão da praia.
Fica a dezessete milhas da cidade, de modo que, terminado o que havia para fazer, é possível ficar ali ainda com o dia inteiro e bem aproveitado. Chega-se por mais de um caminho, pois tanto a via Laurentina quanto a Ostiense levam ao mesmo ponto, mas a Laurentina deve ser deixada na décima quarta pedra miliária, e a Ostiense na décima primeira. De ambos os lados a estrada é em parte arenosa, um pouco mais pesada e demorada de carruagem, mas curta e suave a cavalo.
Daqui e dali a paisagem é variada: ora o caminho se estreita por bosques que o cercam, ora se abre e se espalha por campos amplíssimos. Há muitos rebanhos de ovelhas, muitas manadas de cavalos e de bois, que, expulsos das montanhas no inverno, reluzem com as ervas e o calor da primavera. A casa é ampla o bastante para o uso, sem manutenção dispendiosa.
Em sua parte da frente há um átrio simples, mas não pobre; depois, pórticos curvados à semelhança da letra D, que encerram um pátio pequeno mas alegre. É um excelente refúgio contra as tempestades, pois são protegidos por vidraças e, mais ainda, por largos beirais.
Diante do centro fica um pátio interno alegre; logo um triclínio bastante belo, que avança em direção à praia e, quando o mar é empurrado pelo vento sul, é levemente banhado pelas ondas já quebradas e quase esgotadas. De todos os lados tem portas duplas ou janelas não menores que as portas, e assim, dos lados e da frente, descortina como que três mares; pelos fundos vê o pátio interno, o pórtico, o pátio, de novo o pórtico, depois o átrio, e através deles os bosques e os montes distantes.
À esquerda dele, um pouco mais recuado, há um quarto amplo; depois outro menor, que por uma janela deixa entrar o sol nascente e por outra retém o poente; por esta janela também avista o mar que fica abaixo, mais distante, mas mais seguro.
Pela junção desse quarto e daquele triclínio forma-se um ângulo que concentra e intensifica o sol mais puro. Este é o aposento de inverno e também o ginásio dos meus; ali todos os ventos se calam, exceto os que trazem nuvens e tiram o tempo bom antes de tirar o uso do lugar.
Junta-se a esse ângulo um quarto curvado em forma de abside, que acompanha o curso do sol por todas as suas janelas. Em sua parede foi embutido um armário à maneira de biblioteca, que guarda livros não para ler, mas para reler.
Anexa-se a ele um cômodo de dormir, separado por um corredor que, suspenso e provido de canos, distribui e fornece de um lado para outro o calor que recebe, com uma temperatura saudável. O resto desse lado é reservado ao uso dos escravos e libertos, com a maioria dos cômodos tão limpos que podem acolher hóspedes.
Do outro lado há um quarto muito bem-acabado; depois, ou um quarto grande ou uma sala de jantar modesta, que brilha com muito sol e muito mar; depois dela, um quarto com antecâmara, fresco no verão pela altura e abrigado no inverno pelas proteções, pois está resguardado de todos os ventos. A esse quarto juntam-se outro quarto e uma antecâmara por uma parede comum.
Daí, o cômodo do banho frio, espaçoso e amplo, em cujas paredes opostas se curvam, como que projetadas para fora, duas piscinas bem capazes, se você levar em conta que o mar está perto. Junto fica o cômodo de unção, o forno do hipocausto e a fornalha do banho; depois, dois cômodos mais elegantes que dispendiosos. Ligada a eles há uma piscina quente admirável, de onde os que nadam veem o mar;
e não longe a sala de jogo de bola, que recebe o sol quentíssimo da tarde quando o dia já declina. Aqui se ergue uma torre, sob a qual há dois aposentos, outros dois nela mesma e, além disso, uma sala de jantar que domina um amplíssimo mar, uma longuíssima praia e as mais aprazíveis casas.
Há também outra torre; nesta, um quarto onde o sol nasce e se põe; atrás, uma ampla despensa e um celeiro; sob ele, um triclínio que, do mar agitado, só sofre o estrondo e o ruído, e esse já lânguido e a se extinguir. Vê o jardim e a alameda de passeio que cerca o jardim.
A alameda é bordejada por buxo, ou por alecrim onde falta o buxo; pois o buxo, na parte protegida pelos prédios, verdeja em abundância, mas a céu aberto, exposto ao vento e ainda que a respingos distantes do mar, resseca.
Junto à alameda, em seu anel interno, há uma vinha tenra e sombreada, macia e que cede mesmo aos pés nus. O jardim é revestido de muitas amoreiras e figueiras, árvores para as quais aquele solo é em especial fértil, sendo mais avaro com as outras. Dessa vista, não inferior à do mar, desfruta uma sala de jantar afastada do mar, cercada pelos fundos por dois aposentos, de cujas janelas se avistam o vestíbulo da casa e outro jardim, viçoso e rústico.
Daqui se estende uma galeria coberta, quase do tamanho de uma obra pública. De ambos os lados há janelas, mais voltadas para o mar, e uma de cada vez para o jardim, mas em número menor, alternadas. Quando o dia está sereno e calmo, todas se abrem; quando há vento de um lado ou de outro, abrem-se sem prejuízo as do lado onde os ventos se aquietam.
Diante da galeria há um terraço perfumado de violetas. A galeria aumenta, por reflexo, o calor do sol que recebe; e, assim como retém o sol, também detém e afasta o vento norte; tanto calor há na frente quanto frio atrás. Do mesmo modo barra o vento sul e, assim, quebra e detém os ventos mais opostos, cada um num lado diferente. Esse é o seu encanto no inverno, maior no verão.
Pois antes do meio-dia ela ameniza com sua sombra o terraço, e depois do meio-dia a parte mais próxima da alameda e do jardim; sombra que, conforme o dia cresce ou diminui, cai ora mais curta ora mais longa, de um lado ou de outro.
A própria galeria fica sem sol justamente quando ele, ardentíssimo, bate em seu topo. Além disso, pelas janelas abertas, recebe e deixa passar os ventos do oeste, e nunca fica abafada com o ar parado e estagnado.
Na ponta do terraço, depois da galeria do jardim, fica um conjunto de aposentos, meu amor, na verdade meu amor: eu mesmo o construí. Nele há um solário, que de um lado dá para o terraço, de outro para o mar, e de ambos para o sol; e um quarto que, pelas portas duplas, olha para a galeria, e pela janela para o mar.
Diante da parede do meio recua, com muita elegância, um nicho que, por vidraças e cortinas corridas ou recolhidas, ora se acrescenta ao quarto, ora se separa dele. Comporta um leito e duas cadeiras; aos pés o mar, atrás as casas, à cabeceira os bosques: tantas paisagens distintas, que outras tantas janelas ora separam ora misturam.
Junto a ele há um quarto de noite e de sono. Nele não se ouvem as vozes dos escravos, nem o murmúrio do mar, nem o agitar das tempestades, nem o clarão dos raios, e nem mesmo se percebe o dia, a não ser com as janelas abertas. A razão desse silêncio tão profundo e recolhido é que um corredor interposto separa a parede do quarto da do jardim, e assim todo o som se dissipa no vazio do meio.
Anexa-se ao quarto um pequeníssimo hipocausto que, por uma janela estreita, conforme se precise, ou difunde ou retém o calor que recebe. Daí se prolongam uma antecâmara e um quarto voltado para o sol, que ele capta logo ao nascer e conserva além do meio-dia, ainda que de viés.
Quando me recolho a esse conjunto de aposentos, sinto-me afastado até da minha própria casa, e tenho dele grande prazer, sobretudo nas Saturnais, quando o resto da casa ressoa com a liberdade dos dias e os gritos da festa; pois nem eu atrapalho os folguedos dos meus, nem eles os meus estudos.
A essa comodidade e a esse encanto falta água corrente, mas há poços, ou melhor, fontes, pois ficam à superfície. E, em geral, é admirável a natureza daquela praia: em qualquer lugar que você revolva o solo, surge logo a água à mão, e essa pura e nem sequer levemente salobra, apesar de tamanha vizinhança do mar.
Os bosques próximos fornecem lenha à vontade; os demais suprimentos vêm da colônia de Óstia. Para um homem frugal basta até o povoado, que dista da casa apenas uma propriedade. Nele há três banhos públicos de aluguel, grande comodidade quando, por uma chegada inesperada ou uma demora muito curta, não vale a pena aquecer o banho em casa.
A praia é embelezada por uma variedade muito agradável de casas de campo, ora contínuas, ora separadas, que oferecem a aparência de muitas cidades, quer você esteja no mar, quer na própria praia; e essa praia, às vezes uma longa calmaria a amolece, mais frequentemente o bater constante das ondas a endurece.
O mar não é abundante em peixes valiosos, mas oferece linguados e camarões excelentes. Nossa casa, contudo, fornece também produtos do interior, leite em primeiro lugar; pois para lá vêm os rebanhos das pastagens, sempre que buscam água ou sombra.
Por motivos justos já lhe pareço, então, habitar, morar e amar este retiro? Você é cidadão urbano demais se não o deseja. E quem dera o desejasse! Para que, a tantas e tão grandes qualidades da nossa casinha, se acrescente a maior recomendação: a sua companhia. Passe bem.