Capítulos
Antiguidades Judaicas - Livro XVII
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.
O Livro XVII na Obra
O Livro XVII cobre os últimos anos de Herodes, o Grande, sua morte por volta de 4 a.C. e a disputa pela sucessão que se seguiu. Acompanha as intrigas do filho Antípater, a execução dele dias antes da morte do pai, a revolta da águia de ouro no Templo, o testamento que reparte o reino entre Arquelau, Antipas e Filipe, as sedições reprimidas por Arquelau e pelo governador Varo, a confirmação parcial do testamento por Augusto e o banimento final de Arquelau. É o ponto da obra em que a Judeia caminha para a administração romana direta. Não há paralelo na Bíblia hebraica para este período, mas a cronologia toca de perto o relato dos primeiros capítulos de Lucas e de Mateus.
Conteúdo do Livro
- Antípater, filho mais velho de Herodes, é odiado pela nação pela morte dos irmãos Alexandre e Aristóbulo e cultiva amigos em Roma com presentes, entre eles o governador da Síria Saturnino; as esposas e os filhos de Herodes — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 1)
- Zamaris, o judeu da Babilônia, instalado na Bataneia; as tramas de Antípater contra o pai; e a recusa dos fariseus de jurar fidelidade a César e a Herodes, com a multa que lhes foi imposta — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 2)
- A inimizade entre Herodes e o irmão Feroras, o envio de Antípater a César em Roma, e a morte de Feroras — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 3)
- Os libertos acusam a esposa de Feroras de envenenamento; sob tortura Herodes descobre o veneno e que ele fora preparado contra o próprio rei por seu filho Antípater — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 4)
- Antípater volta de Roma ao pai, é acusado por Nicolau de Damasco, condenado à morte por Herodes e por Quintílio Varo, governador da Síria, e mantido preso à espera da decisão de César — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 5)
- A doença de Herodes e a revolta que os judeus levantam quando os mestres Judas e Matias incitam jovens a derrubar a águia de ouro do Templo; o castigo dos sediciosos, queimados vivos, na mesma noite de um eclipse da lua — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 6)
- Herodes, em agonia, tenta tirar a própria vida e logo ordena a execução de Antípater — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 7)
- A morte de Herodes, o testamento que divide o reino entre os filhos e o funeral suntuoso preparado por Arquelau — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 8)
- O povo provoca uma sedição contra Arquelau, que reprime a multidão no Templo com derramamento de sangue, e em seguida navega para Roma para reivindicar o reino — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 9)
- Nova sedição contra o procurador Sabino e a revolta generalizada na Judeia; o governador Varo intervém com as legiões e pune os autores da revolta — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 10)
- Uma embaixada de judeus a César pedindo o fim da monarquia herodiana; César ouve as partes e confirma em essência o testamento de Herodes, dividindo o território entre os filhos — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 11)
- O caso de um falso Alexandre, impostor que se passa pelo filho executado de Herodes, é desmascarado por César e enviado às galés — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 12)
- Arquelau, após uma segunda acusação dos judeus e dos samaritanos, é deposto por César e banido para Viena, na Gália — (Antiguidades Judaicas - Livro XVII 13)
As intrigas de Antípater
A doença e a morte de Herodes
A disputa pela sucessão
Fontes e Método
Aqui Josefo já não recontou a Bíblia, mas escreveu história contemporânea. Sua fonte principal para o reinado de Herodes foi a História Universal de Nicolau de Damasco, secretário e conselheiro do próprio rei, que relatava os fatos de modo favorável ao patrono. Josefo usa esse material e por vezes o corrige, reconhecendo que Nicolau adulava Herodes. Cruza esses dados com tradições judaicas e com a versão paralela que ele mesmo dera antes na Guerra dos Judeus. Comparar os dois relatos mostra divergências de ênfase e de número que revelam o trabalho de redação.
A Morte de Herodes e a Cronologia do Nascimento de Jesus
O eclipse da lua que Josefo associa à execução dos sediciosos da águia de ouro é o principal ponto de apoio para datar a morte de Herodes. A maioria dos estudiosos identifica esse eclipse com o de março de 4 a.C. e situa a morte do rei nesse ano, embora uma minoria defenda datas posteriores a partir de outros eclipses. Como o Evangelho de Mateus situa o nascimento de Jesus ainda em vida de Herodes, essa datação é central para a cronologia cristã. Josefo não menciona a matança dos inocentes de Belém narrada em Mateus 2, nem ela aparece em Nicolau de Damasco. Há quem veja nesse silêncio um argumento contra a historicidade do episódio e quem responda que um massacre local de poucas crianças passaria despercebido numa obra centrada na corte. A questão segue em aberto.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
Para os últimos anos de Herodes e a crise sucessória, Josefo é a fonte antiga mais completa que sobreviveu, e sem ela quase nada se saberia desse período. Seu valor é alto, mas pede cautela: ele depende de Nicolau de Damasco, autor parcial ao rei, e sua própria narrativa diverge em pontos da versão que dera na Guerra dos Judeus. A leitura exige comparar os dois relatos e descontar tanto a propaganda da corte herodiana quanto o programa apologético do próprio Josefo. Ainda assim, é por meio dele que se reconstrói a moldura histórica em que se situam os relatos da infância de Jesus e a transição da Judeia para o domínio romano direto.