Antiguidades Judaicas - Livro XVII 8

Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino

A respeito da morte, do testamento e do funeral de Herodes.

E então Herodes alterou seu testamento, ao mudar de ideia. Nomeou Antipas, a quem antes deixara o reino, como tetrarca da Galileia e da Pereia, e concedeu o reino a Arquelau. Deu também a Gaulonítida, a Traconítida e Paneias a Filipe, que era seu filho e irmão de pai e mãe de Arquelau, com o título de tetrarquia. Legou Jâmnia, Asdode e Faselis a Salomé, sua irmã, junto com quinhentas mil [dracmas] de prata cunhada. Também providenciou por todos os demais parentes, dando-lhes quantias em dinheiro e rendas anuais, e assim deixou todos em condição próspera. Legou ainda a César dez milhões [de dracmas] de moeda cunhada, além de vasos de ouro e de prata e vestes caríssimas. A Júlia, esposa de César, e a alguns outros deixou cinco milhões. Depois de fazer essas coisas, morreu, no quinto dia após ter mandado matar Antípater, tendo reinado trinta e quatro anos desde que conseguira a execução de Antígono, e trinta e sete anos desde que fora declarado rei pelos romanos. Foi um homem de grande crueldade para com todos por igual, escravo de suas paixões, mas indiferente à consideração do que era justo. Ainda assim, foi favorecido pela fortuna como poucos homens foram, pois de cidadão comum tornou-se rei. E embora estivesse cercado por dez mil perigos, escapou de todos eles e prolongou sua vida até idade bem avançada. No que toca, no entanto, aos assuntos de sua família e de seus filhos, nos quais, segundo a própria opinião dele, também foi muito afortunado por ter sido capaz de vencer seus inimigos, na minha opinião ele foi nisso muito infeliz.
Mas então Salomé e Alexas, antes que a morte do rei fosse divulgada, libertaram os que estavam trancados no hipódromo e lhes disseram que o rei ordenava que fossem embora para suas terras e cuidassem de seus próprios assuntos, o que foi considerado pela nação um grande benefício. E então a morte do rei foi tornada pública, quando Salomé e Alexas reuniram os soldados no anfiteatro de Jericó. A primeira coisa que fizeram foi ler a carta de Herodes, escrita aos soldados, agradecendo-lhes pela lealdade e pela boa vontade para com ele, e exortando-os a oferecer a seu filho Arquelau, a quem nomeara como rei deles, a mesma lealdade e boa vontade. Depois disso, Ptolomeu, a quem fora confiado o selo do rei, leu o testamento real, que teria validade tal como ficasse depois que César o tivesse examinado. Houve então imediatamente uma aclamação a Arquelau como rei. E os soldados vieram em grupos, com seus comandantes, e prometeram a ele a mesma boa vontade e prontidão para servi-lo que haviam demonstrado a Herodes, e oraram a Deus para que o assistisse.
Terminado isso, prepararam o funeral, sendo cuidado de Arquelau que o cortejo até o sepulcro de seu pai fosse muito suntuoso. Por isso ele trouxe todos os seus ornamentos para enfeitar a pompa do funeral. O corpo foi levado sobre um esquife de ouro, bordado com pedras preciosíssimas de grande variedade, e estava coberto de púrpura, assim como o próprio corpo. Tinha um diadema na cabeça e, acima dele, uma coroa de ouro. Tinha também um cetro na mão direita. Em torno do esquife estavam seus filhos e seus numerosos parentes. Em seguida vinham os soldados, distribuídos conforme seus diversos países e denominações, e dispostos na seguinte ordem. Primeiro iam seus guardas, depois o destacamento dos trácios, e atrás deles os germanos, e a seguir o destacamento dos gálatas, cada um em seus trajes de guerra. Atrás desses marchava todo o exército, da mesma maneira como costumava sair para a guerra, e como costumava ser organizado por seus oficiais de revista e centuriões. Estes eram seguidos por quinhentos de seus servos, carregando especiarias. Assim percorreram oito estádios até o Herodion, pois era ali, por ordem do próprio Herodes, que ele seria sepultado. E foi assim que Herodes terminou sua vida.
Arquelau lhe prestou tanto respeito que prolongou o luto até o sétimo dia, pois esse é o número de dias estabelecido para isso pela lei de nossos pais. E depois de oferecer um banquete à multidão e encerrar o luto, subiu ao templo. Recebia aclamações e louvores por onde quer que fosse, cada um disputando com os demais quem faria as aclamações mais ruidosas. Então ele subiu a uma plataforma elevada feita para ele e tomou assento em um trono de ouro, e falou com bondade à multidão. Declarou com que alegria recebia as aclamações deles e os sinais de boa vontade que lhe mostravam. Agradeceu-lhes por não guardarem em desfavor dele as ofensas que seu pai lhes fizera, e prometeu que se esforçaria para não ficar atrás deles em recompensar de maneira adequada o entusiasmo no serviço a ele. Mas disse que, por ora, se absteria do título de rei, e que teria a honra dessa dignidade se César confirmasse e ratificasse o testamento que seu pai fizera, e que era por essa razão que, quando o exército quisera pôr-lhe o diadema em Jericó, ele não aceitara aquela honra, que costuma ser tão desejada, porque ainda não estava claro que aquele que tinha o papel principal em concedê-la a daria a ele. Ainda assim, com a aceitação do governo, não lhe faltaria a capacidade de recompensar a bondade deles, e seria seu empenho, em tudo o que lhes dissesse respeito, mostrar-se em todos os aspectos melhor que seu pai. Diante disso, a multidão, como é seu costume, supôs que os primeiros dias dos que assumem tais governos revelam as intenções dos que os aceitam, e assim, quanto mais Arquelau lhes falava com brandura e cortesia, tanto mais o elogiavam e lhe faziam pedidos para que concedesse o que desejavam. Alguns clamavam que ele os aliviasse de parte de seus pagamentos anuais, mas outros pediam que ele soltasse os que tinham sido postos na prisão por Herodes, que eram muitos e haviam sido encarcerados em diversas ocasiões. Outros exigiam que ele suprimisse os impostos que tinham sido pesadamente lançados sobre o que era vendido e comprado em público. Arquelau não os contrariou em nada, pois pretendia fazer tudo de modo a conquistar a boa vontade da multidão para si, vendo nessa boa vontade um grande passo rumo à preservação do governo. Em seguida, foi oferecer sacrifício a Deus e depois se entregou a um banquete com seus amigos.