Antiguidades Judaicas - Livro XVII 12

Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino

Sobre um falso Alexandre.

Depois que César resolveu esses assuntos, um jovem judeu de nascimento, criado por um liberto romano na cidade de Sidom, se infiltrou na parentela de Herodes graças à semelhança do rosto. Quem o via afirmava que era o rosto de Alexandre, o filho de Herodes que ele havia mandado matar. Isso o incentivou a tentar conquistar o governo. Então tomou como auxiliar um homem do seu próprio país, alguém que conhecia bem os assuntos do palácio, mas que no resto era um homem perverso, com uma natureza capaz de causar grandes distúrbios ao público, e que se tornou o instrutor desse plano malicioso. O jovem se declarou Alexandre, filho de Herodes, dizendo que fora salvo por um daqueles enviados para matá-lo: este, na verdade, teria matado outros homens para enganar os espectadores, mas salvou a ele e a seu irmão Aristóbulo. Assim esse homem se encheu de orgulho e conseguiu enganar os que vinham até ele. Quando chegou a Creta, fez todos os judeus que vinham conversar com ele acreditarem que era Alexandre. E, depois de receber ali muito dinheiro que lhe foi oferecido, passou para Melos. conseguiu ainda mais dinheiro do que tinha antes, por causa da crença de que pertencia à família real e da esperança de que recuperaria o principado de seu pai e recompensaria seus benfeitores. Então correu para Roma, conduzido por aqueles estrangeiros que o hospedavam. Teve também a sorte de, ao desembarcar em Diceárquia, lançar na mesma ilusão os judeus que ali estavam. E não outras pessoas, mas também todos os que tinham sido íntimos de Herodes ou tinham afeição por ele se juntaram a esse homem como ao seu rei. A causa disso foi que as pessoas ficavam contentes com suas pretensões, reforçadas pela semelhança do rosto, o que levava os que tinham conhecido Alexandre a acreditar firmemente que ele não era outro senão a mesma pessoa. E confirmavam isso aos demais sob juramento. Por isso, quando se espalhou a notícia de que ele vinha a Roma, toda a multidão de judeus que ali estava saiu ao seu encontro, atribuindo à providência divina o fato de ter escapado de modo tão inesperado, e cheia de alegria por causa da família de sua mãe. Quando ele chegou, foi levado pelas ruas numa liteira real, e todos os ornamentos ao seu redor eram como os que adornam os reis, tudo às custas dos que o hospedavam. A multidão também se aglomerava em volta dele e o aclamava com força, e nada se omitiu do que parecesse adequado a alguém preservado de forma tão inesperada.
Quando isso foi contado a César, ele não acreditou, porque Herodes não era homem que se deixasse enganar facilmente em assuntos de grande importância para ele. Ainda assim, com alguma suspeita de que pudesse ser verdade, enviou um liberto seu chamado Celado, que tinha convivido com os próprios jovens, e ordenou que trouxesse Alexandre à sua presença. Celado o trouxe, não sendo mais perspicaz em julgá-lo do que o resto da multidão. Mas ele não enganou César. Pois, embora houvesse semelhança entre ele e Alexandre, ela não era tão exata a ponto de iludir os que tinham juízo para discernir. Esse falso Alexandre tinha as mãos ásperas, por causa dos trabalhos a que fora submetido, e, em vez da delicadeza física que o outro tinha, derivada de sua educação refinada e nobre, este, pela razão contrária, tinha um corpo rude. Quando, então, César viu como o mestre e o discípulo concordavam nessa história mentirosa e num modo ousado de falar, perguntou sobre Aristóbulo e quis saber o que tinha sido feito dele, que (ao que parecia) teria sido salvo junto com ele, e por que motivo não tinha vindo com ele para tentar recuperar o domínio que também era devido ao seu alto nascimento. Ele respondeu que Aristóbulo fora deixado na ilha de Creta, por medo dos perigos do mar, para que, caso algum acidente lhe acontecesse, a descendência de Mariane não perecesse por completo, e Aristóbulo sobrevivesse e punisse os que tramavam tais planos traiçoeiros contra eles. Como ele persistia em suas afirmações, e o autor da fraude concordava em sustentá-las, César tomou o jovem à parte e lhe disse: "Se você não me enganar, terá como recompensa escapar com vida. Diga-me, então: quem é você? E quem teve a ousadia de arquitetar uma trapaça como esta? Pois esse plano é uma vilania séria demais para ser empreendida por alguém da sua idade." Assim, como não tinha outro caminho a tomar, ele contou a César o plano, de que maneira e por quem fora armado. Então César, ao observar que o falso Alexandre era um homem forte e ativo, apto para o trabalho braçal, e para não quebrar a promessa que lhe fizera, colocou-o entre os que deviam remar com os marinheiros, mas matou aquele que o induzira a fazer o que fez. Quanto ao povo de Melos, considerou que estavam suficientemente punidos por terem desperdiçado tanto dinheiro com esse falso Alexandre. E esse foi o desfecho vergonhoso desse plano ousado a respeito do falso Alexandre.