Antiguidades Judaicas - Livro XVII 2
Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino
Sobre Zamaris, o judeu babilônio. Sobre as tramas que Antípater armou contra o pai. E algo sobre os fariseus.
Por essa época, Herodes, querendo proteger-se do lado dos traconitas, resolveu construir uma aldeia tão grande quanto uma cidade, para os judeus, no meio daquela região. Isso tornaria difícil atacar seu próprio território, e dali ele estaria pronto para fazer investidas contra eles e prejudicá-los. Quando soube que havia um homem judeu que tinha saído da Babilônia com quinhentos cavaleiros, todos capazes de atirar suas flechas montados a cavalo, e que, com cem de seus parentes, tinha atravessado o Eufrates e morava agora em Antioquia, junto a Dafne, na Síria, onde Saturnino, então governador, lhe tinha dado um lugar para habitar chamado Valata, mandou chamar esse homem com a multidão que o seguia. Prometeu dar-lhe terras na toparquia chamada Bataneia, região que faz fronteira com a Traconítide, porque queria fazer daquela habitação uma guarda para si mesmo. Comprometeu-se também a deixá-lo ocupar a região isenta de tributo, de modo que vivessem inteiramente livres de pagar os impostos costumeiros, e lhe entregou a terra livre de taxas.
O babilônio aceitou essas ofertas e foi para lá. Tomou posse da terra, construiu nela fortalezas e uma aldeia, e a chamou de Batira. Assim, esse homem tornou-se uma proteção para os habitantes contra os traconitas e preservou de qualquer dano, frente aos saques traconitas, os judeus que saíam da Babilônia para oferecer seus sacrifícios em Jerusalém. Por isso um grande número de pessoas veio até ele de todas aquelas regiões onde as antigas leis judaicas eram observadas, e a região ficou cheia de gente, por causa da isenção total de impostos. Isso durou enquanto Herodes viveu. Mas quando Filipe, que foi [tetrarca] depois dele, assumiu o governo, fez com que pagassem alguns pequenos impostos, e isso apenas por pouco tempo. Já Agripa, o Grande, e seu filho de mesmo nome, embora os tenham oprimido bastante, não chegaram a tirar-lhes a liberdade. E agora que os romanos tomaram o governo em suas próprias mãos, ainda lhes concedem o privilégio da liberdade, mas os oprimem inteiramente com a imposição de impostos. Tratarei desse assunto com mais detalhe no decorrer desta história.
Por fim Zamaris, o babilônio, a quem Herodes tinha dado aquela região como posse, morreu, depois de ter vivido de forma virtuosa e ter deixado filhos de bom caráter. Um deles era Jacim, famoso por sua coragem, que ensinou seus babilônios a montar a cavalo. Uma tropa deles servia de guarda aos reis já mencionados. E quando Jacim morreu, já velho, deixou um filho chamado Filipe, homem de grande força nas mãos e, em outros aspectos também, mais notável por sua coragem do que qualquer de seus contemporâneos. Por isso havia confiança e firme amizade entre ele e o rei Agripa. Ele tinha também um exército, que mantinha tão grande quanto o de um rei, que treinava e conduzia para onde quer que precisasse marchar.
Quando os assuntos de Herodes estavam na situação que descrevi, todos os negócios públicos dependiam de Antípater. Seu poder era tamanho que ele podia fazer favores a quantos quisesse, e isso por concessão de seu pai, que esperava boa vontade e fidelidade dele. E foi assim até que Antípater se atreveu a usar seu poder ainda mais longe, porque seus planos perversos ficavam escondidos do pai, e ele o fazia acreditar em tudo o que dizia. Era também temido por todos, não tanto pelo poder e pela autoridade que tinha, mas pela astúcia com que tramava de antemão suas tentativas vis. Quem mais cultivava amizade com ele era Feroras, que recebia os mesmos sinais de amizade, enquanto Antípater o tinha astutamente cercado por um grupo de mulheres, que colocou como guardas ao redor dele. Pois Feroras era totalmente dominado pela esposa, pela mãe dela e pela irmã dela, e isso apesar do ódio que lhes tinha pelas ofensas que haviam feito às suas filhas virgens. Mesmo assim ele as suportava, e nada se fazia sem as mulheres, que tinham atraído esse homem para o seu círculo e continuavam a ajudar-se mutuamente em tudo. Tanto que Antípater era inteiramente devotado a elas, tanto por si mesmo quanto por meio de sua mãe, pois essas quatro mulheres diziam todas a mesma coisa. As opiniões de Feroras e Antípater divergiam em alguns pontos sem importância. Mas a irmã do rei [Salomé] era a adversária deles. Fazia tempo que ela observava todos os negócios deles e percebeu que essa amizade tinha sido feita para causar algum dano a Herodes, e estava disposta a informar o rei sobre isso. E como essa gente sabia que sua amizade era muito desagradável a Herodes, por tender a prejudicá-lo, tramaram que seus encontros não fossem descobertos. Por isso fingiam odiar-se e ofender-se uns aos outros quando convinha, especialmente quando Herodes estava presente, ou quando havia ali alguém que pudesse contar a ele. Mas a intimidade entre eles era mais firme do que nunca quando estavam a sós. E esse era o procedimento que adotavam. Ainda assim, não conseguiram esconder de Salomé nem o primeiro plano, quando começaram a pôr em prática suas intenções, nem o progresso que fizeram nelas. Ela investigou tudo e, agravando os relatos diante de seu irmão, declarou-lhe tanto as reuniões e os banquetes secretos deles quanto os conselhos tomados de forma clandestina: "Se não fossem para destruí-lo, bem poderiam ser abertos e públicos. Mas agora, na aparência, eles estão em desacordo e falam uns dos outros como se pretendessem causar dano mútuo, e no entanto se entendem tão bem quando estão fora da vista da multidão. Pois quando estão sozinhos, agem de comum acordo e juram que nunca abandonarão sua amizade, mas lutarão contra aqueles de quem escondem seus planos." Foi assim que ela investigou essas coisas e obteve conhecimento perfeito delas, e então contou ao irmão. Ele próprio também entendia boa parte do que ela dizia, mas ainda assim não ousava confiar nisso, por causa das suspeitas que tinha das calúnias da irmã. Pois havia uma certa seita de homens judeus que se prezavam muito pela exatidão com que dominavam a lei de seus pais e faziam as pessoas acreditar que eram muito favorecidos por Deus, e foi por esses homens que esse grupo de mulheres se deixou seduzir. São os que se chamam a seita dos fariseus, que tinham condições de se opor fortemente aos reis. Eram uma seita astuta e logo se inflamavam até o ponto de luta aberta e de causar danos. Por isso, quando todo o povo dos judeus deu garantia de sua boa vontade para com César e para com o governo do rei, justamente esses homens não juraram, e eram mais de seis mil. E quando o rei lhes impôs uma multa, a esposa de Feroras pagou a multa por eles. Para retribuir essa gentileza dela, como acreditavam que tinham o conhecimento prévio das coisas futuras por inspiração divina, predisseram que Deus tinha decretado que o governo de Herodes cessaria e que sua descendência seria privada dele, mas que o reino passaria a ela e a Feroras, e aos filhos deles. Essas previsões não ficaram escondidas de Salomé, mas foram contadas ao rei, assim como o fato de que tinham corrompido algumas pessoas no próprio palácio. Então o rei mandou matar os fariseus que eram os principais acusados, e Bagoas, o eunuco, e um certo Caro, que superava todos os homens daquele tempo em beleza, e que era seu favorito. Mandou matar também todos os de sua própria família que tinham concordado com o que os fariseus previam. Quanto a Bagoas, ele tinha sido lisonjeado por eles, como se viesse a ser chamado de pai e benfeitor daquele que, segundo a previsão, foi anunciado como o rei designado por eles. Pois esse rei teria todas as coisas em seu poder e tornaria Bagoas capaz de se casar e de ter filhos gerados de seu próprio corpo.