Antiguidades Judaicas - Livro XVII 3
Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino
Sobre a inimizade entre Herodes e Feroras; como Herodes enviou Antípater a César; e sobre a morte de Feroras.
Depois de punir os fariseus condenados pelos crimes já mencionados, Herodes reuniu seus amigos em assembleia e acusou a mulher de Feroras. Atribuindo a ela os abusos contra as virgens, por causa de sua falta de pudor, apresentou contra ela a acusação de tê-las desonrado. Disse que ela provocara de propósito uma briga entre ele e o irmão e que, com seu mau gênio, os levara a um estado de guerra, tanto por suas palavras quanto por suas ações. Disse ainda que as multas que ele aplicara não tinham sido pagas e que os culpados haviam escapado da punição por causa dela, e que nada do que se fizera ultimamente fora feito sem a participação dela. "Por isso", afirmou, "Feroras agiria bem se, por vontade própria e por decisão sua, e não a meu pedido nem seguindo minha opinião, mandasse embora esta mulher, que continuará a ser motivo de guerra entre você e mim. Agora, Feroras, se você dá valor ao seu vínculo comigo, mande embora esta sua mulher. Assim você continuará sendo meu irmão e permanecerá no seu amor por mim." Feroras, então, embora pressionado por aquelas palavras, respondeu que não cometeria a injustiça de renunciar ao vínculo fraterno com Herodes, mas também não abandonaria o amor pela mulher. Preferia morrer a viver privado de uma esposa tão querida. Diante disso, Herodes pôs de lado a raiva que tinha de Feroras por causa de tudo isso, embora ele próprio passasse com isso por um sofrimento muito penoso. Mesmo assim, proibiu Antípater e a mãe dele de manterem qualquer convívio com Feroras e mandou que tomassem cuidado para evitar as reuniões das mulheres. Eles prometeram obedecer, mas mesmo assim se juntavam quando havia oportunidade, e tanto Feroras quanto Antípater tinham suas próprias festas. Corria também o boato de que Antípater mantinha relações ilícitas com a mulher de Feroras e que eram aproximados pela mãe de Antípater.
Mas Antípater agora desconfiava do pai e temia que os efeitos do ódio dele aumentassem. Por isso escreveu a seus amigos em Roma e pediu que enviassem uma mensagem a Herodes, para que este mandasse Antípater imediatamente a César. Feito isso, Herodes enviou Antípater para lá e mandou com ele presentes valiosíssimos, junto com seu testamento, no qual Antípater era designado seu sucessor. E, caso Antípater morresse primeiro, o sucessor seria o filho de Herodes com a filha do sumo sacerdote. Junto com Antípater foi a Roma Sileu, o árabe, embora não tivesse feito nada do que César lhe ordenara. Antípater também o acusou dos mesmos crimes de que ele já fora acusado por Herodes. Sileu foi acusado ainda por Aretas de ter matado, sem o consentimento dele, muitos dos principais árabes em Petra, em especial Soemo, homem que merecia ser honrado por todos, e de ter matado Fabato, servo de César. Foram essas as acusações feitas contra Sileu, e na seguinte circunstância: havia um certo Corinto, ligado a Herodes, da guarda pessoal do rei, e em quem ele depositava grande confiança. Sileu convencera esse homem, com a oferta de uma grande soma em dinheiro, a matar Herodes, e ele havia prometido fazê-lo. Quando Fabato ficou sabendo disso, pois o próprio Sileu lhe contara, informou o rei. Este capturou Corinto e o submeteu à tortura, e assim arrancou dele toda a conspiração. Capturou também dois outros árabes, denunciados por Corinto: um, chefe de uma tribo, e o outro, amigo de Sileu. Ambos foram submetidos à tortura pelo rei e confessaram que tinham vindo encorajar Corinto a não falhar no que havia se comprometido a fazer e a ajudá-lo com as próprias mãos no assassinato, caso fosse necessária a ajuda deles. Assim, Saturnino, depois que Herodes lhe revelou tudo, enviou-os a Roma.
Nessa época Herodes ordenou a Feroras que, já que estava tão obstinado no amor por sua mulher, se retirasse para a própria tetrarquia. Ele obedeceu de muito bom grado e jurou várias vezes que não voltaria enquanto não soubesse que Herodes estava morto. E de fato, quando o rei adoeceu e pediram a Feroras que viesse vê-lo antes que morresse, para lhe confiar algumas de suas determinações, ele teve tamanho respeito pelo juramento que não foi vê-lo. Herodes, no entanto, não manteve assim o ódio por Feroras, mas desistiu do propósito que antes tivera de não vê-lo, e isso pelas grandes razões já mencionadas. Logo que Feroras começou a passar mal, Herodes foi vê-lo, e isso sem ter sido chamado. Quando ele morreu, Herodes cuidou de seu funeral, mandou trazer o corpo para Jerusalém e o sepultou ali, e decretou um luto solene por ele. Essa morte de Feroras tornou-se a origem das desgraças de Antípater, embora ele já tivesse partido por mar para Roma, pois Deus estava prestes a puni-lo pelo assassinato dos irmãos. Vou explicar a história desse caso com muita clareza, para que sirva de advertência à humanidade, a fim de que as pessoas tomem cuidado em conduzir toda a sua vida pelas regras da virtude.