Antiguidades Judaicas - Livro XVII 1

Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino

Como Antípater era odiado por toda a nação [dos judeus] pela matança dos irmãos, e como, por essa razão, ganhou o favor especial dos amigos em Roma ao lhes dar muitos presentes, assim como fez com Saturnino, o presidente da Síria, e com os governadores subordinados a ele. E sobre as esposas e os filhos de Herodes.

Depois que Antípater eliminou os irmãos e levou o pai ao mais alto grau de impiedade, a ponto de Herodes ser atormentado por fúrias pelo que tinha feito, as esperanças de Antípater não se realizaram como ele desejava para o resto da vida. Embora estivesse livre do medo dos irmãos como rivais pelo governo, percebeu que era muito difícil, quase impossível, chegar ao trono, porque o ódio da nação contra ele por causa daquilo se tornara enorme. Além dessa circunstância tão desfavorável, o problema com os soldados o afligia ainda mais, pois eles se afastaram dele. E era justamente desses soldados que esses reis tiravam toda a segurança que tinham sempre que percebiam a nação inclinada a uma revolta. Todo esse perigo recaiu sobre ele por causa da destruição dos irmãos. Mesmo assim, ele governava a nação em conjunto com o pai, sendo na prática um rei. E era por essa mesma razão que recebia confiança e contava com apoio firme, quando na verdade deveria ter sido executado, que parecia ter traído os irmãos por zelo pela preservação de Herodes, e não antes pela vontade contra eles e, mais ainda, contra o próprio pai. Esse era o estado maldito em que se encontrava. Agora, todas as manobras de Antípater visavam abrir caminho para eliminar Herodes, de modo que ninguém pudesse acusá-lo das práticas vis que vinha tramando, e para que Herodes não tivesse refúgio nem ninguém que lhe desse apoio, pois com isso teriam Antípater como inimigo declarado. A tal ponto que até os planos que armou contra os irmãos nasceram do ódio que nutria pelo pai. Mas nesse momento estava mais decidido do que nunca a executar suas tentativas contra Herodes, porque, uma vez morto o pai, o governo ficaria firmemente assegurado para ele. Mas se Herodes vivesse mais tempo, ele correria perigo caso fosse descoberta a maldade que tinha tramado, e o pai necessariamente se tornaria seu inimigo. Por isso Antípater passou a ser muito generoso com os amigos do pai e gastou grandes somas com vários deles, para impressionar as pessoas com suas boas ações e desfazer o ódio contra ele. Enviou também grandes presentes especialmente aos amigos em Roma, para conquistar a boa vontade deles, e acima de tudo a Saturnino, o presidente da Síria. Esperava ganhar também o favor do irmão de Saturnino com os ricos presentes que lhe deu, e usou a mesma artimanha com [Salomé], a irmã do rei, que se casara com um dos principais amigos de Herodes. Quando fingia amizade com aqueles com quem convivia, era muito hábil em ganhar a confiança deles e muito astuto em esconder o ódio contra qualquer um que realmente detestasse. Mas não conseguia enganar a tia, que o conhecia havia muito tempo e era uma mulher difícil de iludir, ainda mais porque tinha tomado todas as precauções possíveis para impedir os planos perniciosos dele. Embora o tio materno de Antípater fosse casado com a filha de Salomé, e isso por conivência e arranjo do próprio Antípater, enquanto ela antes fora casada com Aristóbulo, e a outra filha de Salomé com esse marido estivesse casada com o filho de Caleas. Mas esse parentesco não foi obstáculo para ela, que sabia como ele era perverso, ao descobrir seus planos, assim como o vínculo familiar anterior não pôde impedir o ódio dela por ele. Ora, Herodes obrigara Salomé, que estava apaixonada por Sileu, o árabe, e se afeiçoara a ele, a se casar com Alexas. Ela aceitou esse casamento por insistência de Júlia, que a convenceu a não recusá-lo, para não se tornar inimiga declarada deles, que Herodes jurara que nunca mais seria amigo de Salomé se ela não aceitasse Alexas como marido. Então ela se submeteu a Júlia, por ser esta a esposa de César, e além disso porque o conselho que recebia em nada ia contra os próprios interesses. Foi também nessa época que Herodes devolveu ao pai a filha do rei Arquelau, que tinha sido esposa de Alexandre, restituindo o dote que recebera com ela a partir dos próprios bens, para que não houvesse disputa entre eles a esse respeito.
Herodes criava os netos com muito cuidado, pois Alexandre teve dois filhos com Glafira, e Aristóbulo teve três filhos com Berenice, filha de Salomé, além de duas filhas. Certa vez, estando com os amigos, apresentou as crianças diante deles e, lamentando a triste sorte dos próprios filhos, orou para que nenhuma desgraça igual recaísse sobre esses que eram filhos deles, mas que crescessem em virtude, alcançassem o que de fato mereciam e lhe retribuíssem o cuidado que tivera com a educação deles. Também providenciou que ficassem noivos para quando chegassem à idade própria de casar: o mais velho dos filhos de Alexandre com a filha de Feroras, e a filha de Antípater com o filho mais velho de Aristóbulo. Destinou ainda uma das filhas de Aristóbulo ao filho de Antípater, e a outra filha de Aristóbulo a Herodes, um filho seu nascido da filha do sumo sacerdote, pois é antigo costume entre nós ter várias esposas ao mesmo tempo. O rei arranjou esses noivados para as crianças por compaixão, agora que eram órfãs, tentando tornar Antípater bondoso com elas por meio desses casamentos. Mas Antípater não deixou de nutrir pelos filhos dos irmãos o mesmo sentimento que nutrira pelos próprios irmãos. E a preocupação do pai com elas provocava a indignação dele, supondo que se tornariam mais poderosas do que jamais tinham sido os irmãos, que Arquelau, um rei, apoiaria os filhos da própria filha, e Feroras, um tetrarca, aceitaria uma das filhas como esposa para o filho dele. O que também o irritava era isto: que toda a multidão teria tanta compaixão dessas crianças órfãs e o odiaria tanto [por tê-las deixado órfãs] que tudo viria à tona, pois não ignoravam a disposição vil que ele tinha contra os irmãos. Por isso tramou desfazer os arranjos do pai, achando terrível que elas tivessem laços tão próximos com Herodes e fossem ao mesmo tempo tão poderosas. Então Herodes cedeu a ele e mudou de decisão a seu pedido, ficando agora resolvido que o próprio Antípater se casaria com a filha de Aristóbulo, e o filho de Antípater se casaria com a filha de Feroras. Assim os noivados para os casamentos foram trocados dessa maneira, mesmo sem a real aprovação do rei.
Nessa época, o rei Herodes tinha nove esposas. A mãe de Antípater e a filha do sumo sacerdote, com quem teve um filho de mesmo nome que ele. Tinha também uma esposa que era filha do irmão dele, e outra que era filha da irmã dele, e essas duas não tiveram filhos. Uma de suas esposas era da nação samaritana, cujos filhos eram Antipas e Arquelau, e cuja filha era Olímpia, a qual mais tarde se casou com José, filho do irmão do rei. Mas Arquelau e Antipas foram criados em Roma na casa de um homem comum. Herodes tinha ainda como esposa Cleópatra de Jerusalém, e com ela teve os filhos Herodes e Filipe, sendo que este último também foi criado em Roma. Palas igualmente era uma de suas esposas, e lhe deu o filho Fasael. Além dessas, tinha como esposas Fedra e Élpis, com quem teve as filhas Roxana e Salomé. Quanto às filhas mais velhas, da mesma mãe que Alexandre e Aristóbulo, que Feroras deixou de desposar, deu uma em casamento a Antípater, filho da irmã do rei, e a outra a Fasael, filho do irmão dele. E essa era a descendência de Herodes.