Antiguidades Judaicas - Livro XVII 11
Livro XVII: a morte de Herodes e a divisão do reino
Uma embaixada dos judeus a César; e como César confirmou o testamento de Herodes.
Depois que Varo resolveu esses assuntos e instalou em Jerusalém a legião que ali estava antes, voltou para Antioquia. Quanto a Arquelau, novas fontes de problemas caíram sobre ele em Roma, pelos motivos a seguir. Uma embaixada dos judeus tinha chegado a Roma, pois Varo permitiu que a nação a enviasse, para que pudessem pedir a liberdade de viver segundo suas próprias leis. O número de embaixadores enviados com a autoridade da nação era cinquenta, e a eles se juntaram mais de oito mil judeus que já estavam em Roma. Diante disso, César reuniu seus amigos e os principais homens de Roma no templo de Apolo, que ele havia construído a custo altíssimo. Para lá foram os embaixadores, e com eles veio também a multidão de judeus que já estava na cidade, assim como Arquelau e seus amigos. Mas os vários parentes que Arquelau tinha não quiseram se juntar a ele, por ódio que lhe tinham; e ainda assim achavam grosseiro demais auxiliar os embaixadores [contra ele], supondo que seria uma desonra, na opinião de César, agir assim contra um homem de sua própria família. Filipe também tinha vindo da Síria, persuadido por Varo, com a intenção principal de auxiliar seu irmão [Arquelau], pois Varo era grande amigo dele. Mas vinha também para que, caso ocorresse alguma mudança na forma de governo (o que Varo suspeitava que aconteceria), e caso fosse feita alguma divisão por causa do número dos que desejavam a liberdade de viver segundo suas próprias leis, ele não ficasse de fora, mas tivesse sua parte nela.
Quando foi dada aos embaixadores judeus a liberdade de falar, os que esperavam obter a dissolução do governo monárquico passaram a acusar Herodes de suas iniquidades, e declararam o seguinte: que ele era de fato rei só no nome, mas tinha tomado para si aquela autoridade incontrolável que os tiranos exercem sobre os súditos, e tinha usado essa autoridade para a destruição dos judeus, sem se abster de fazer muitas outras inovações entre eles segundo a própria vontade. E que, embora muitíssimos tivessem perecido na destruição que ele provocou, em número que nenhuma outra história relata, os que sobreviveram ficaram bem mais infelizes do que os que morreram nas mãos dele, não só pela angústia que sentiam diante de seu semblante e de sua disposição contra eles, mas também pelo perigo de terem suas propriedades confiscadas por ele. Que ele nunca deixou de embelezar as cidades vizinhas, habitadas por estrangeiros, enquanto as cidades do próprio reino eram arruinadas e completamente destruídas. Que, embora ao assumir o reino ele o tivesse encontrado em condição extraordinariamente próspera, encheu a nação do mais alto grau de pobreza. E que, quando matava algum dos nobres sob pretextos injustos, tomava-lhe os bens; e quando permitia que algum vivesse, condenava-o a perder tudo o que possuía. E que, além dos tributos anuais que lançava sobre cada um deles, eles tinham de fazer presentes generosos a ele mesmo, a seus servos domésticos, a seus amigos e aos escravos a quem se concedia o favor de serem seus cobradores de impostos, porque não havia como obter liberdade da violência injusta sem dar ouro ou prata por isso. Que nada diriam sobre a corrupção da castidade de suas virgens e a desonra lançada sobre suas esposas por incontinência, atos cometidos de modo insolente e desumano, porque para as vítimas não era menos alívio ter tais coisas ocultadas do que teria sido não as ter sofrido. Que Herodes lhes impôs abusos que nem uma fera teria imposto se lhe fosse dado poder para reinar sobre eles. E que, embora a nação tivesse passado por muitas quedas e mudanças de governo, sua história não registrava nenhuma calamidade que pudesse ser comparada a esta que Herodes trouxe sobre a nação. Que era por isso que achavam que podiam, com justiça e alegria, saudar Arquelau como rei, na suposição de que quem quer que fosse posto sobre o reino se mostraria mais brando para com eles do que Herodes tinha sido; e que se juntaram a ele no luto pelo pai para lhe agradar, e estavam dispostos a atendê-lo em outros pontos também, se encontrassem nele algum grau de moderação. Mas que ele parecia ter medo de não ser considerado verdadeiro filho de Herodes, e por isso, sem nenhuma demora e de imediato, deu a entender à nação suas intenções, e isso antes mesmo de seu domínio estar bem estabelecido, já que o poder de dispor dele pertencia a César, que podia dá-lo a Arquelau ou não, como bem quisesse. Que ele dera aos súditos uma amostra de sua virtude futura, e do tipo de moderação e boa administração com que iria governá-los, por aquela sua primeira ação que dizia respeito a eles, a seus próprios cidadãos e ao próprio Deus, quando promoveu o massacre de três mil de seus compatriotas no templo. Como, então, poderiam evitar o ódio justo contra ele, que, ao resto de sua barbárie, ainda acrescentou isto como um de nossos crimes: que nos opusemos e o contradissemos no exercício de sua autoridade? Ora, o que eles principalmente desejavam era isto: que fossem libertados do governo monárquico e de formas semelhantes de governo, e fossem anexados à Síria, e postos sob a autoridade dos governadores que lhes fossem enviados. Pois assim ficaria evidente se eram de fato um povo sedicioso e em geral inclinado a inovações, ou se viveriam de modo ordeiro caso tivessem governantes de algum grau de moderação postos sobre eles.
Quando os judeus disseram isso, Nicolau defendeu os reis dessas acusações e disse: que, quanto a Herodes, já que ele nunca tinha sido acusado assim durante toda a vida, não era justo que aqueles que poderiam tê-lo acusado de crimes menores do que os agora mencionados, e poderiam ter conseguido que fosse punido enquanto vivia, viessem agora apresentar acusação contra ele depois de morto. Ele também atribuiu as ações de Arquelau às ofensas que os próprios judeus lhe fizeram, pois eles, querendo governar contrariando as leis e procurando matar os que tentavam impedi-los de agir injustamente, ao serem punidos por ele pelo que fizeram, apresentaram queixas contra ele. Por isso os acusou de suas tentativas de inovação e do prazer que tinham na sedição, por não terem aprendido a se submeter à justiça e às leis, mas continuarem desejando ser superiores em tudo. Foi este o teor do que Nicolau disse.
Quando César ouviu esses argumentos, dissolveu a assembleia. Mas poucos dias depois nomeou Arquelau, não de fato como rei de todo o país, mas como etnarca de metade do que tinha estado sujeito a Herodes, e prometeu lhe dar a dignidade real mais tarde, se governasse sua parte com virtude. Quanto à outra metade, dividiu-a em duas partes e a deu a outros dois filhos de Herodes, a Filipe e a Antipas, aquele Antipas que disputava com Arquelau o reino inteiro. A ele pagavam tributo a Pereia e a Galileia, o que somava anualmente duzentos talentos, enquanto Bataneia, com Traconítis e Auranítis, junto com certa parte do que se chamava a casa de Zenodoro, pagava o tributo de cem talentos a Filipe. Já a Idumeia, a Judeia e a região de Samaria pagavam tributo a Arquelau, mas tiveram agora uma quarta parte desse tributo abatida por ordem de César, que lhes decretou esse alívio porque não tinham aderido à revolta com o resto da multidão. Havia também certas cidades que pagavam tributo a Arquelau: a torre de Estratão e Sebaste, com Jope e Jerusalém. Quanto a Gaza, Gadara e Hipos, eram cidades gregas, que César separou de seu governo e anexou à província da Síria. O dinheiro do tributo que chegava a Arquelau a cada ano de seus domínios somava seiscentos talentos.
E isso foi o que coube aos filhos de Herodes da herança do pai. Mas Salomé, além do que o irmão lhe deixou em testamento, que eram Jâmnia, Asdode e Faselis, e quinhentos mil [dracmas] de prata cunhada, recebeu de César o presente de uma residência real em Ascalom. Ao todo, suas rendas chegavam a sessenta talentos por ano, e sua casa de moradia ficava dentro do governo de Arquelau. Os demais parentes do rei também receberam o que o testamento dele lhes destinava. Além disso, César deu de presente a cada uma das duas filhas virgens de Herodes, fora o que o pai lhes deixou, duzentos e cinquenta mil [dracmas] de prata, e casou-as com os filhos de Feroras. Concedeu também tudo o que lhe fora legado aos filhos do rei, o que somava mil e quinhentos talentos, exceto alguns dos vasos, que reservou para si; e estes lhe eram caros não tanto pelo grande valor que tinham, mas porque eram para ele lembranças do rei.