Capítulos

O Anticristo

Autoria e Data de Composição

O Anticristo (em alemão Der Antichrist) foi escrito por Friedrich Nietzsche em setembro de 1888, nos últimos meses de lucidez antes do colapso de janeiro de 1889, e só foi publicado em 1895. O subtítulo original, Maldição contra o Cristianismo, anuncia o tom. A obra foi concebida como a primeira parte de um projeto maior, a Transvaloração de todos os valores, que Nietzsche não chegou a completar. O título joga com o duplo sentido do alemão Antichrist, que significa tanto o Anticristo quanto o anticristão.

O texto que se lê aqui segue a edição crítica de Giorgio Colli e Mazzino Montinari, hoje o padrão acadêmico, disponível em domínio público. O alemão original acompanha a tradução, lado a lado. A obra é numerada em 62 seções curtas, mais um prefácio, e está organizada nesta edição em dezesseis capítulos temáticos para facilitar a leitura; a numeração das seções de Nietzsche é preservada nos subtítulos, de modo que a citação acadêmica usual, por exemplo §45, continua localizável.

Conteúdo da Obra

O Argumento Central

A tese que organiza o livro é a de que o cristianismo inverteu os valores da vida. Para Nietzsche, a moral cristã nasce do ressentimento, o rancor dos fracos, dos doentes e dos fracassados contra os fortes e bem constituídos, e exalta como virtude tudo o que diminui a vida: a compaixão, a humildade, a renúncia, a culpa. Ele chama esse movimento de transvaloração, a inversão pela qual o que serve à vida passa a ser chamado de mau e o que a enfraquece passa a ser chamado de bom. Nessa leitura, o cristianismo é uma forma de niilismo, uma vontade de nada disfarçada de fé.

O movimento mais característico da obra é separar a figura de Jesus do cristianismo histórico. Nietzsche trata o próprio Jesus quase com simpatia, como um tipo psicológico singular, o homem da pura interioridade, incapaz de ódio e de resistência, cuja boa nova era um modo de viver, não uma doutrina. O culpado, na conta dele, é Paulo, que teria inventado o cristianismo dogmático, com o pecado, o juízo, a ressurreição e a imortalidade pessoal, transformando a prática de Jesus em seu oposto.

“No fundo houve um único cristão, e esse morreu na cruz. O ‘Evangelho’ morreu na cruz.”

Nietzsche, O Anticristo, O Anticristo 8:5

Nietzsche como Leitor da Bíblia

Diferente de quase toda a tradição filosófica anterior, O Anticristo engaja a Bíblia diretamente e de propósito. Nietzsche diz ler o Novo Testamento como filólogo, e recorta, cita e parafraseia os Evangelhos e as cartas de Paulo para atacá-los um a um. A seção 45 é um catálogo de citações evangélicas, cada uma seguida de um comentário sarcástico. Por isso esta edição liga cada passagem que ele cita ao texto bíblico real: o leitor pode clicar e conferir, no próprio site, o versículo que Nietzsche está atacando, e julgar a polêmica contra a fonte. Entre as passagens que ele recorta estão Mateus 5:39, que ele considera a frase-chave dos Evangelhos, o discurso da montanha, e o elogio de Paulo à loucura da cruz em 1Coríntios 1, que Nietzsche lê como o documento maior da moral do ressentimento.

O ataque a Paulo culmina numa fórmula latina que ficou célebre, na qual o Deus paulino é declarado a própria negação de Deus.

“Em fórmula: deus, qualem Paulus creavit, dei negatio.” (Deus, tal como Paulo o criou, é a negação de Deus.)

Nietzsche, O Anticristo, O Anticristo 11:2

A Morte de Deus e a Resposta Cristã

O Anticristo é parte do que Paul Ricoeur chamou de escola da suspeita, ao lado de Marx e Freud: pensadores que trataram a religião não como verdadeira ou falsa, mas como sintoma de algo escondido, no caso de Nietzsche, de uma fraqueza vital. O pensamento cristão do século 20 levou esse desafio a sério em vez de ignorá-lo. O teólogo jesuíta Henri de Lubac dedicou a Nietzsche parte central de O Drama do Humanismo Ateu (1944), lendo-o como o mais sério dos críticos modernos da fé, justamente porque não negava Deus por preguiça, mas em nome de uma afirmação da vida. Nos anos 1960, a chamada teologia da morte de Deus, com Thomas Altizer, respondeu diretamente ao anúncio nietzschiano. A reação mais comum entre teólogos não foi refutar Nietzsche ponto a ponto, mas reconhecer no seu ataque um alerta contra uma religiosidade de fato ressentida, que nega a vida em nome do além, e perguntar se o cristianismo é necessariamente isso que ele descreve.

A apologia evidencial e a crítica histórica do texto, com suas respostas concretas às teses de Nietzsche sobre o Jesus histórico e sobre Paulo, ficam para um tema à parte; o índice apenas registra que o debate existe e é levado a sério dos dois lados.

Tensões Honestas

O livro foi escrito em poucas semanas, no auge da potência criativa de Nietzsche e às vésperas de seu colapso mental. Alguns leitores atribuem a essa proximidade a virulência do tom; a maioria dos estudiosos adverte que reduzir a obra a um sintoma da doença é um equívoco, pois suas teses continuam as dos livros anteriores. É preciso ler o que está escrito, e o que está escrito é cru: Nietzsche admira a ordem de castas das Leis de Manu, despreza a compaixão pelos fracos e fecha o livro com uma Lei contra o Cristianismo que declara o padre um criminoso. Essas passagens são dele, e o site as apresenta sem suavizar.

Há também a questão da recepção. Após o colapso de Nietzsche, sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, antissemita e nacionalista, assumiu o controle dos manuscritos e moldou a imagem do irmão, o que facilitou a posterior apropriação de Nietzsche pelo nazismo. A erudição hoje trata essa apropriação como uma falsificação, porque Nietzsche atacou de modo explícito o antissemitismo, o nacionalismo alemão e o culto do Estado. Reconhecer isso não dissolve a dureza do texto: o desprezo pela moral dos fracos é genuinamente seu, mesmo que o uso político que dele se fez não fosse.

A própria Lei contra o Cristianismo, que fecha o livro nesta edição, tem estatuto debatido. Ela foi encontrada numa folha avulsa do manuscrito, identificada como parte da obra por Erich Podach apenas em 1961, e incluída ao final por Montinari na edição crítica, em corpo menor, justamente para sinalizar a incerteza sobre sua colocação. Algumas edições comerciais a omitem.

“Eu condeno o cristianismo, eu levanto contra a Igreja cristã a mais terrível de todas as acusações que um acusador jamais teve na boca.”

Nietzsche, O Anticristo, O Anticristo 16:1

Recepção e Influência

O Anticristo tornou-se um dos textos mais lidos e mais citados da crítica moderna à religião, e uma referência obrigatória para o existencialismo, a genealogia da moral e boa parte do pensamento do século 20. Para o leitor cristão, seu valor está menos em qualquer conclusão e mais no desafio: a obra obriga a distinguir a fé daquilo que Nietzsche acusa, a religiosidade do ressentimento e da negação da vida, e força a perguntar até que ponto a crítica acerta o alvo e até que ponto ataca uma caricatura. É nessa fricção, e não num veredito fácil, que está a utilidade de lê-lo.