O Anticristo 11

A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo

§ 46

O que se segue daí? Que você faz bem em calçar luvas quando o Novo Testamento. A proximidade de tanta sujeira quase obriga a isso. Não escolheríamos os "primeiros cristãos" para nossa companhia, tão pouco quanto judeus poloneses: não que fosse preciso ter contra eles um único argumento… Ambos não cheiram bem. Procurei em vão no Novo Testamento, ao menos por um único traço simpático; não nada nele que seja livre, bondoso, franco, honesto. A humanidade ainda não deu aqui seu primeiro passo, faltam os instintos de limpeza… No Novo Testamento maus instintos, não sequer coragem para esses maus instintos. Tudo nele é covardia, tudo é fechar os olhos e enganar a si mesmo. Qualquer livro fica limpo depois que se acaba de ler o Novo Testamento: eu li, para dar um exemplo, com encanto, logo depois de Paulo, aquele zombeteiro graciosíssimo e atrevidíssimo, Petrônio, de quem se poderia dizer o que Domenico Boccaccio escreveu sobre César Bórgia ao duque de Parma: tutto festo", imortalmente são, imortalmente alegre e bem-constituído… Esses pequenos beatos calculam mal justamente no essencial. Eles atacam, mas tudo o que é atacado por eles fica por isso mesmo distinguido. Aquele a quem um "primeiro cristão" ataca não fica por isso maculado… Ao contrário: é uma honra ter "primeiros cristãos" contra si. Não se o Novo Testamento sem uma predileção por aquilo que nele é maltratado, sem falar da "sabedoria deste mundo", que um insolente fanfarrão tenta em vão envergonhar "por meio da pregação tola"… Mas até os fariseus e os escribas tiram vantagem de uma tal hostilidade: alguma coisa deviam valer, para serem odiados de modo tão indecente. Hipocrisia, eis uma acusação que os "primeiros cristãos" poderiam fazer! No fim das contas, eram eles os privilegiados: isso basta, o ódio de Chandala não precisa de mais razões. O "primeiro cristão", e temo que também o "último cristão", que talvez eu ainda venha a conhecer, é rebelde contra tudo o que é privilegiado, por instinto baixíssimo, ele vive, ele luta sempre por "direitos iguais"… Olhando mais de perto, ele não tem escolha. Se você quer, para si próprio, ser um "eleito de Deus", ou um "templo de Deus", ou um "juiz dos anjos", então qualquer outro princípio de seleção, por exemplo segundo a honestidade, segundo o espírito, segundo a virilidade e o orgulho, segundo a beleza e a liberdade do coração, é simplesmente "o mundo", o mal em si… Moral: cada palavra na boca de um "primeiro cristão" é uma mentira, cada ação que ele pratica, uma falsidade instintiva, todos os seus valores, todas as suas metas são nocivos, mas aquele a quem ele odeia, aquilo que ele odeia, isso tem valor… O cristão, o cristão-sacerdote em especial, é um critério de valores Preciso ainda dizer que em todo o Novo Testamento aparece uma única figura que se deve respeitar? Pilatos, o governador romano. Levar a sério um caso de judeus, a isso ele não se deixa persuadir. Um judeu a mais ou a menos, que importa?… O escárnio nobre de um romano, diante de quem se faz um abuso descarado da palavra "verdade", enriqueceu o Novo Testamento com a única palavra que tem valor, que é sua crítica, sua própria aniquilação: "o que é a verdade!"…

§ 47

Não é isso que nos separa, o fato de não reencontrarmos um Deus, nem na história, nem na natureza, nem por trás da natureza, mas o fato de sentirmos aquilo que foi venerado como Deus não como "divino", e sim como digno de compaixão, como absurdo, como nocivo, não apenas como um erro, mas como um crime contra a vida… Negamos Deus como Deus… Se nos provassem esse Deus dos cristãos, saberíamos crer nele ainda menos. Em fórmula: deus, qualem Paulus creavit, dei negatio. Uma religião como o cristianismo, que não toca a realidade em ponto algum, que desmorona no instante em que a realidade ganha razão ainda que num único ponto, tem por força de ser inimiga mortal da "sabedoria do mundo", quero dizer, da ciência, ela aprovará todos os meios pelos quais a disciplina do espírito, a integridade e o rigor em questões de consciência do espírito, a frieza nobre e a liberdade do espírito possam ser envenenadas, caluniadas, postas em descrédito. A "fé" como imperativo é o veto contra a ciência, na prática a mentira a qualquer preço… Paulo compreendeu que a mentira, que "a fé", era necessária; mais tarde a Igreja compreendeu de novo Paulo. Aquele "Deus" que Paulo inventou para si, um Deus que "envergonha a sabedoria do mundo" (em sentido mais estrito, as duas grandes adversárias de toda superstição, a filologia e a medicina), é na verdade apenas a decisão resoluta do próprio Paulo de fazê-lo: chamar de "Deus" a própria vontade, thora, isso é arquijudaico. Paulo quer envergonhar "a sabedoria do mundo": seus inimigos são os bons filólogos e médicos de formação alexandrina, é a eles que ele faz a guerra. De fato, ninguém é filólogo e médico sem ser ao mesmo tempo anticristo. Pois como filólogo se enxerga por trás dos "livros sagrados", como médico, por trás da degeneração fisiológica do cristão típico. O médico diz "incurável", o filólogo diz "fraude"…

§ 48

Será que de fato se compreendeu a célebre história que está no começo da Bíblia, sobre o medo infernal de Deus diante da ciência?… Não se compreendeu. Este livro de sacerdotes por excelência começa, como convém, com a grande dificuldade interior do sacerdote: ele tem apenas um grande perigo, por consequência "Deus" tem apenas um grande perigo.
O velho Deus, todo "espírito", todo sumo sacerdote, toda perfeição, passeia por seu jardim: que ele se entedia. Contra o tédio até os deuses lutam em vão. O que ele faz? Inventa o homem, o homem é divertido… Mas eis que também o homem se entedia. A compaixão de Deus pela única penúria que todos os paraísos trazem em si não conhece limites: ele criou então outros animais. Primeiro erro de Deus: o homem não achou os animais divertidos, dominava sobre eles, nem sequer queria ser "animal". Por consequência, Deus criou a mulher. E de fato, com isso o tédio chegou ao fim, mas também muito mais coisa! A mulher foi o segundo erro de Deus. "A mulher é em sua essência serpente, Eva", isso todo sacerdote sabe; "da mulher vem toda desgraça no mundo", isso também todo sacerdote sabe. "Por consequência, dela vem também a ciência"… Foi através da mulher que o homem aprendeu a provar da árvore do conhecimento. O que tinha acontecido? Um medo infernal se apoderou do velho Deus. O próprio homem havia se tornado seu maior erro, ele tinha criado para si um rival, a ciência torna igual a Deus, está acabado com sacerdotes e deuses quando o homem se torna científico! Moral: a ciência é o proibido em si, ela é proibida. A ciência é o primeiro pecado, o germe de todo pecado, o pecado original. isso é moral. "Não conhecerás": o resto se segue daí. O medo infernal de Deus não o impediu de ser esperto. Como se defender da ciência? Esse foi por muito tempo seu principal problema. Resposta: fora com o homem do paraíso! A felicidade, o ócio dão margem a pensamentos, todos os pensamentos são maus pensamentos… O homem não deve pensar. E o "sacerdote em si" inventa a penúria, a morte, o perigo de vida da gravidez, toda espécie de miséria, a velhice, a labuta, sobretudo a doença, puros meios na luta contra a ciência! A penúria não permite ao homem pensar… E apesar disso! horrível! A obra do conhecimento se ergue, escalando os céus, fazendo anoitecer os deuses, o que fazer! O velho Deus inventa a guerra, ele separa os povos, ele faz com que os homens se aniquilem uns aos outros (os sacerdotes sempre precisaram da guerra…). A guerra, entre outras coisas, um grande perturbador da ciência! Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do sacerdote, cresce apesar das guerras. E uma última decisão ocorre ao velho Deus: "o homem se tornou científico, não remédio, é preciso afogá-lo!"…

§ 49

Vocês me entenderam. O começo da Bíblia contém toda a psicologia do sacerdote. O sacerdote conhece apenas um grande perigo: é a ciência, o conceito saudável de causa e efeito. Mas a ciência prospera, no conjunto, sob condições favoráveis, é preciso ter tempo, é preciso ter espírito em abundância para "conhecer"… "Por consequência, é preciso tornar o homem infeliz", essa foi em todos os tempos a lógica do sacerdote. se adivinha o que, conforme essa lógica, com ela veio ao mundo: o "pecado"… O conceito de culpa e castigo, toda a "ordem moral do mundo", foi inventado contra a ciência, contra a libertação do homem em relação ao sacerdote… O homem não deve olhar para fora, deve olhar para dentro de si; não deve olhar as coisas com esperteza e cautela, como quem aprende, não deve absolutamente olhar: ele deve sofrer… E deve sofrer de tal modo que precise do sacerdote a todo instante. Fora com os médicos! O que se precisa é de um salvador. O conceito de culpa e castigo, incluída a doutrina da "graça", da "redenção", do "perdão", mentiras de ponta a ponta e sem nenhuma realidade psicológica, foi inventado para destruir no homem o sentido das causas: são o atentado contra o conceito de causa e efeito! E não um atentado com o punho, com a faca, com a franqueza no ódio e no amor! Mas a partir dos instintos mais covardes, mais astutos, mais baixos! Um atentado de sacerdote! Um atentado de parasita! Um vampirismo de pálidos sugadores de sangue subterrâneos!… Quando as consequências naturais de uma ação deixam de ser "naturais" e passam a ser pensadas como provocadas por fantasmas conceituais da superstição, por "Deus", por "espíritos", por "almas", como meras consequências "morais", como recompensa, castigo, aviso, meio de educação, então o pressuposto do conhecimento está destruído, então cometeu-se o maior crime contra a humanidade. O pecado, repito, essa forma de aviltamento de si próprio do homem por excelência, foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda elevação e nobreza do homem; o sacerdote domina por meio da invenção do pecado.