O Anticristo 9
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 40
— O destino do Evangelho decidiu-se com a morte, — pendia da "cruz"… Só a morte, essa morte inesperada e infame, só a cruz, em geral reservada apenas para a canalha, — só esse paradoxo mais horripilante de todos colocou os discípulos diante do verdadeiro enigma: "quem foi este? o que foi isto?" — O sentimento abalado e ferido no mais fundo, a suspeita de que tal morte pudesse ser a refutação da causa deles, o terrível ponto de interrogação "por que justo assim?" — esse estado se compreende muito bem. Aqui tudo tinha de ser necessário, tinha de ter sentido, razão, suprema razão; o amor de um discípulo não conhece o acaso. Só agora se abriu o abismo: "quem o matou? quem era o seu inimigo natural?" — essa pergunta saltou como um raio. Resposta: o judaísmo dominante, sua classe mais alta. A partir desse instante sentiram-se em revolta contra a ordem, e depois passaram a entender Jesus como em revolta contra a ordem. Até então faltava à imagem dele esse traço belicoso, esse traço de dizer não, de agir contra; mais ainda, ele era a contradição disso. É evidente que a pequena comunidade não entendeu justamente o essencial, o caráter exemplar dessa maneira de morrer, a liberdade, a superioridade sobre todo sentimento de ressentimento: — sinal de quão pouco ela o entendia, no geral! Em si mesmo, Jesus nada podia querer com sua morte senão dar publicamente a mais forte prova, a demonstração de sua doutrina… Mas seus discípulos estavam longe de perdoar essa morte, — o que teria sido evangélico no mais alto sentido; ou até de se oferecer a uma morte igual em suave e amorosa paz de coração… Justo o sentimento mais antievangélico de todos, a vingança, voltou à tona. Era impossível que a causa terminasse com essa morte: precisava-se de "retribuição", de "juízo" (— e no entanto o que pode ser mais antievangélico do que "retribuição", "castigo", "fazer juízo"!). Mais uma vez veio ao primeiro plano a expectativa popular de um Messias; pôs-se diante dos olhos um momento histórico: o "Reino de Deus" vem julgar seus inimigos… Mas com isso tudo está mal entendido: o "Reino de Deus" como ato final, como promessa! O Evangelho havia sido justamente a existência, a plenitude, a realidade desse "Reino". Uma morte assim era exatamente esse "Reino de Deus"… Só agora se transferiu para o tipo do Mestre todo o desprezo e a amargura contra fariseus e teólogos, — e com isso se fez dele um fariseu e um teólogo! Por outro lado, a veneração enlouquecida dessas almas inteiramente desconjuntadas já não suportava aquela igualdade evangélica do direito de cada um a ser filho de Deus, que Jesus havia ensinado: a vingança delas foi elevar Jesus de modo desmedido, separá-lo de si mesmas: exatamente como antes os judeus, por vingança contra seus inimigos, desligaram de si o seu Deus e o ergueram às alturas. O Deus Único e o Filho Único de Deus: ambos produtos do ressentimento…
§ 41
— E a partir daí surgiu um problema absurdo: "como pôde Deus permitir isto!" A isso a razão perturbada da pequena comunidade encontrou uma resposta francamente absurda e terrível: Deus deu seu Filho para o perdão dos pecados, como sacrifício. Como de uma só vez se acabou o Evangelho! O sacrifício pela culpa, e ainda em sua forma mais repugnante e bárbara, o sacrifício do inocente pelos pecados dos culpados! Que paganismo arrepiante! — Pois Jesus havia abolido o próprio conceito de "culpa", — negara todo abismo entre Deus e homem, vivia essa unidade de Deus e homem como sua "boa-nova"… E não como privilégio! — A partir de então entra passo a passo no tipo do Redentor: a doutrina do juízo e do retorno, a doutrina da morte como morte sacrifical, a doutrina da ressurreição, com a qual todo o conceito de "bem-aventurança", a única e inteira realidade do Evangelho, é escamoteado — em favor de um estado depois da morte!… Paulo logicizou essa concepção, essa devassidão de concepção, com aquela insolência rabínica que o caracteriza em tudo: "se Cristo não ressuscitou dos mortos, então é vã a nossa fé". — E de uma só vez o Evangelho virou a mais desprezível de todas as promessas irrealizáveis, a doutrina descarada da imortalidade pessoal… Paulo mesmo ainda a ensinava como recompensa!…
§ 42
Vê-se o que terminou com a morte na cruz: um começo novo, inteiramente original, rumo a um movimento budista de paz, rumo a uma felicidade efetiva, não apenas prometida, sobre a terra. Pois é isto que permanece — já o destaquei — a diferença fundamental entre as duas religiões da décadence: o budismo não promete, mas cumpre; o cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada. — À "boa-nova" seguiu-se de imediato a pior de todas: a de Paulo. Em Paulo encarna-se o tipo oposto ao do "bom mensageiro", o gênio no ódio, na visão do ódio, na lógica implacável do ódio. Quanta coisa esse desangelista sacrificou ao ódio! Antes de tudo o Redentor: pregou-o em sua cruz. A vida, o exemplo, a doutrina, a morte, o sentido e o direito de todo o Evangelho — nada mais existia depois que esse falsário movido pelo ódio compreendeu o que era a única coisa que podia aproveitar. Não a realidade, não a verdade histórica!… E mais uma vez o instinto sacerdotal do judeu cometeu o mesmo grande crime contra a história, — riscou simplesmente o ontem e o anteontem do cristianismo, inventou para si uma história do cristianismo primitivo. Mais ainda: falsificou de novo a história de Israel para que aparecesse como pré-história de sua obra: todos os profetas teriam falado de seu "Redentor"… Mais tarde a Igreja chegou a falsificar a história da humanidade para fazê-la pré-história do cristianismo… O tipo do Redentor, a doutrina, a prática, a morte, o sentido da morte, até o depois da morte — nada ficou intocado, nada ficou sequer parecido com a realidade. Paulo simplesmente deslocou o peso central daquela existência inteira para trás desta existência, — para a mentira do Jesus "ressuscitado". No fundo ele não conseguia aproveitar a vida do Redentor de jeito nenhum, — precisava da morte na cruz e de mais alguma coisa… Ter Paulo, que tinha sua pátria na principal sede do iluminismo estoico, por honesto, quando arma para si, a partir de uma alucinação, a prova de que o Redentor ainda vive, ou mesmo dar crédito ao seu relato de que teve essa alucinação, seria uma verdadeira niaiserie da parte de um psicólogo: Paulo queria o fim, portanto queria também os meios… O que ele mesmo não cria, os idiotas entre os quais lançou sua doutrina creram. — Sua necessidade era o poder; com Paulo o sacerdote quis mais uma vez o poder, — só podia aproveitar conceitos, doutrinas, símbolos com que se tiranizam massas e se formam rebanhos. — O que foi a única coisa que Maomé tomou emprestada depois do cristianismo? A invenção de Paulo, seu meio para a tirania sacerdotal, para a formação de rebanhos, a crença na imortalidade — isto é, a doutrina do "juízo"…
§ 43
Quando se transfere o peso central da vida não para a vida, mas para o "além" — para o nada —, retira-se da vida o peso central por inteiro. A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda razão, toda natureza no instinto, — tudo o que é benéfico, o que promove a vida, o que garante o futuro nos instintos passa agora a despertar desconfiança. Viver de tal modo que já não tenha sentido viver, isso vira agora o "sentido" da vida… Para que ainda senso comunitário, para que ainda gratidão pela origem e pelos antepassados, para que colaborar, confiar, promover e ter em vista algum bem-estar coletivo?… Outras tantas "tentações", outros tantos desvios do "reto caminho" — "uma só coisa é necessária"… Que cada um, como "alma imortal", tenha o mesmo posto que qualquer outro, que na totalidade de todos os seres a "salvação" de cada indivíduo possa reclamar uma importância eterna, que pequenos beatos e meio-loucos possam imaginar que por causa deles as leis da natureza sejam continuamente quebradas — tal exaltação de toda espécie de egoísmo ao infinito, ao descaramento, não se pode marcar a ferro com desprezo bastante. E no entanto é a essa lisonja lamentável da vaidade pessoal que o cristianismo deve sua vitória, — foi com isso que atraiu para si justamente tudo o que é malogrado, de índole rebelde, mal-aquinhoado, toda a escória e todo o refugo da humanidade. A "salvação da alma" — em bom português: "o mundo gira em torno de mim"… O veneno da doutrina "direitos iguais para todos" — foi o cristianismo que o semeou do modo mais radical; o cristianismo fez de todo sentimento de reverência e de distância entre homem e homem, isto é, do pressuposto de toda elevação, de todo crescimento da cultura, uma guerra de morte travada dos recantos mais secretos dos maus instintos, — forjou do ressentimento das massas sua arma principal contra nós, contra tudo o que é nobre, alegre, magnânimo sobre a terra, contra nossa felicidade na terra… A "imortalidade" concedida a todo Pedro e Paulo foi até hoje o maior, o mais maligno atentado contra a humanidade nobre. — E não subestimemos o destino que, a partir do cristianismo, se infiltrou até dentro da política! Ninguém hoje tem mais a coragem de reivindicar direitos especiais, direitos de domínio, um sentimento de reverência diante de si e dos seus iguais, — um pathos da distância… Nossa política está doente dessa falta de coragem! — O aristocratismo da mentalidade foi solapado do modo mais subterrâneo pela mentira da igualdade das almas; e se a crença no "privilégio da maioria" faz e fará revoluções, é o cristianismo, não se duvide disso, são juízos de valor cristãos que traduzem toda revolução em mero sangue e crime! O cristianismo é uma sublevação de tudo o que rasteja pelo chão contra aquilo que tem altura: o evangelho dos "humildes" rebaixa…