O Anticristo 8
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 39
— Volto atrás, conto a verdadeira história do Cristianismo. — Já a palavra "Cristianismo" é um mal-entendido, no fundo houve um único cristão, e esse morreu na cruz. O "Evangelho" morreu na cruz. O que a partir desse instante se chama "Evangelho" já era o oposto daquilo que ele viveu: uma "má notícia", um disangelho. É falso a ponto do absurdo ver o distintivo do cristão numa "fé", por exemplo na fé na redenção por Cristo: só a prática cristã, uma vida como a daquele que morreu na cruz a viveu, é cristã… Ainda hoje uma vida assim é possível, para certos homens até necessária: o Cristianismo verdadeiro, o originário, será possível em todos os tempos… Não uma fé, mas um fazer, antes de tudo um muito-não-fazer, um outro ser… Estados de consciência, alguma fé, um ter-por-verdadeiro, por exemplo — todo psicólogo sabe disso — são perfeitamente indiferentes e de quinta categoria diante do valor dos instintos: falando com mais rigor, todo o conceito de causalidade espiritual é falso. Reduzir o ser-cristão, a cristandade, a um ter-por-verdadeiro, a uma mera fenomenalidade da consciência, significa negar a cristandade. De fato, não houve cristão algum. O "cristão", aquilo que há dois milênios se chama cristão, é apenas um mal-entendido psicológico de si mesmo. Olhando mais de perto, nele reinavam, apesar de toda "fé", apenas os instintos — e que instintos! A "fé" foi sempre, por exemplo em Lutero, apenas um manto, um pretexto, uma cortina, atrás da qual os instintos jogavam o seu jogo, uma cegueira astuta sobre o domínio de certos instintos… A "fé", já a chamei a verdadeira esperteza cristã, falava-se sempre de "fé", agia-se sempre apenas por instinto… No mundo de representações do cristão não ocorre nada que toque sequer a realidade: ao contrário, reconhecemos no ódio instintivo contra toda realidade o elemento motor, o único elemento motor na raiz do Cristianismo. O que se segue disso? Que também in psychologicis o erro aqui é radical, isto é, determinante da essência, isto é, substância. Tire daqui um conceito, ponha uma única realidade em seu lugar, e todo o Cristianismo rola para o nada! Visto do alto, esse mais singular de todos os fatos, uma religião não só condicionada por erros, mas inventiva e até genial unicamente em erros nocivos, em erros que envenenam a vida e o coração, permanece um espetáculo para deuses, para aquelas divindades que são ao mesmo tempo filósofos e que encontrei, por exemplo, naqueles famosos diálogos em Naxos. No instante em que a náusea os abandona (— e nos abandona!), eles se tornam gratos pelo espetáculo do cristão: o miserável pequeno astro que se chama Terra talvez mereça, só por causa desse caso curioso, um olhar divino, uma divina participação… Não subestimemos, pois, o cristão: o cristão, falso a ponto da inocência, está muito acima do macaco, no que toca aos cristãos, uma conhecida teoria da origem torna-se mera cortesia…