O Anticristo 16
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 62
— Com isto chego ao fim e profiro minha sentença. Eu condeno o cristianismo, eu levanto contra a Igreja cristã a mais terrível de todas as acusações que um acusador já pôs na boca. Ela é para mim a mais alta de todas as corrupções imagináveis, ela teve a vontade da última corrupção sequer possível. A Igreja cristã não deixou nada intocado por sua perversão, ela fez de cada valor um desvalor, de cada verdade uma mentira, de cada retidão uma baixeza da alma. Que ainda ousem me falar de seus benefícios “humanitários”! Abolir qualquer estado de miséria contrariava sua utilidade mais profunda, ela vivia de estados de miséria, ela criava estados de miséria para se eternizar… O verme do pecado, por exemplo: foi com esse estado de miséria que a Igreja primeiro enriqueceu a humanidade! — A “igualdade das almas diante de Deus”, essa falsidade, esse pretexto para as rancunes de todos os de índole baixa, esse conceito-explosivo, que por fim se tornou revolução, ideia moderna e princípio de decadência de toda a ordem social — é dinamite cristã… Benefícios “humanitários” do cristianismo! Cultivar a partir da humanitas uma autocontradição, uma arte da autoprofanação, uma vontade de mentir a qualquer preço, uma aversão e um desprezo por todos os instintos bons e retos! — Isso é que seriam para mim benefícios do cristianismo! — O parasitismo como única prática da Igreja; com seu ideal de clorose, seu ideal de “santidade”, sugando até a última gota todo sangue, todo amor, toda esperança de vida; o além como vontade de negação de toda realidade; a cruz como sinal de reconhecimento da mais subterrânea conspiração que já existiu — contra a saúde, a beleza, a boa constituição, a coragem, o espírito, a bondade da alma, contra a própria vida…