O Anticristo 15
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 59
Todo o trabalho do mundo antigo, em vão: não tenho palavra que exprima o que sinto diante de algo tão monstruoso. — E levando em conta que esse trabalho era um trabalho preparatório, que mal se havia assentado, com granítica autoconsciência, o alicerce de uma obra de milênios, o sentido inteiro do mundo antigo, em vão!… Para que serviram os gregos? para que serviram os romanos? — Todas as condições para uma cultura erudita, todos os métodos científicos já existiam, já se havia estabelecido a grande, a incomparável arte de ler bem, essa condição da tradição da cultura, da unidade da ciência; a ciência da natureza, aliada à matemática e à mecânica, ia pelo melhor dos caminhos, o sentido dos fatos, o último e mais valioso de todos os sentidos, já tinha suas escolas, sua tradição com séculos de existência! Você entende isso? Tudo o que era essencial já estava encontrado para que se pudesse pôr mãos à obra: os métodos, é preciso dizê-lo dez vezes, são o essencial, e também o mais difícil, e também aquilo contra o que mais tempo conspiram os hábitos e as preguiças. O que hoje reconquistamos, com indizível domínio de nós mesmos (porque todos nós ainda carregamos no corpo, de algum modo, os maus instintos, os cristãos): o olhar livre diante da realidade, a mão cautelosa, a paciência e a seriedade na menor das coisas, toda a honestidade do conhecimento, isso já existia! já há mais de dois milênios! E, somado a isso, o bom, o fino tato e gosto! Não como adestramento de cérebro! Não como cultura "alemã" de modos grosseiros! Mas como corpo, como gesto, como instinto, como realidade, numa palavra… Tudo em vão! De uma noite para a outra, nada mais que uma lembrança! — Gregos! Romanos! A nobreza do instinto, o gosto, a investigação metódica, o gênio da organização e da administração, a fé, a vontade de futuro para o homem, o grande sim a todas as coisas tornado visível como imperium Romanum, visível a todos os sentidos, o grande estilo já não mais como mera arte, mas tornado realidade, verdade, vida… — E não soterrado de uma noite para a outra por algum acontecimento natural! Não pisoteado por germanos e outros pés pesados! Mas arruinado por vampiros astutos, furtivos, invisíveis, anêmicos! Não vencido, apenas sugado!… A sede de vingança escondida, a pequena inveja, agora senhores! Tudo o que é miserável, o que sofre de si mesmo, o que é assaltado por maus sentimentos, todo o mundo de gueto da alma, de um só golpe por cima de tudo! — — Basta ler qualquer agitador cristão, santo Agostinho por exemplo, para compreender, para sentir o cheiro, que sujeitos imundos subiram com isso ao topo. Você se enganaria por completo se supusesse qualquer falta de inteligência nos líderes do movimento cristão: oh, eles são espertos, espertos até a santidade, esses senhores Pais da Igreja! O que lhes falta é algo bem diferente. A natureza os negligenciou, esqueceu de lhes dar um modesto dote de instintos respeitáveis, decentes, limpos… Cá entre nós, eles nem sequer são homens… Quando o Islã despreza o Cristianismo, tem mil vezes razão para isso: o Islã pressupõe homens…
§ 60
O Cristianismo nos roubou a colheita da cultura antiga, e mais tarde nos roubou de novo a colheita da cultura islâmica. O maravilhoso mundo cultural mouro da Espanha, no fundo mais aparentado a nós, mais afim ao nosso sentido e gosto do que Roma e a Grécia, foi pisoteado, não digo por que tipo de pés, por quê? porque devia sua origem a instintos nobres, a instintos de homens, porque dizia sim à vida ainda com os raros e refinados luxos da vida mourisca!… Os cruzados combateram mais tarde algo diante do qual melhor lhes teria ficado prostrar-se no pó, uma cultura ao lado da qual até mesmo o nosso século dezenove deveria parecer muito pobre, muito "tardio". — É claro que queriam fazer butim: o Oriente era rico… Sejamos imparciais! As cruzadas, a pirataria superior, nada mais! — A nobreza alemã, no fundo uma nobreza viking, estava ali em seu elemento: a Igreja sabia muito bem com que se compra a nobreza alemã… A nobreza alemã, sempre os "suíços" da Igreja, sempre a serviço de todos os maus instintos da Igreja, mas bem paga… Que a Igreja tenha levado a cabo justamente com a ajuda de espadas alemãs, de sangue e coragem alemães, sua guerra de morte contra tudo o que é nobre na terra! Há aqui uma porção de perguntas dolorosas. A nobreza alemã quase falta na história da cultura superior: adivinha-se a razão… Cristianismo, álcool: os dois grandes meios da corrupção… Em si não deveria haver escolha alguma, diante do Islã e do Cristianismo, tampouco diante de um árabe e de um judeu. A decisão está dada, ninguém é livre para ainda escolher aqui. Ou se é um Chandala ou não se é… "Guerra a Roma até a faca! Paz, amizade com o Islã": assim sentia, assim fazia aquele grande espírito livre, o gênio entre os imperadores alemães, Frederico II. Como? um alemão precisa primeiro ser gênio, primeiro ser espírito livre, para sentir de modo decente? — Não compreendo como um alemão pôde alguma vez sentir de modo cristão…
§ 61
Aqui é preciso tocar numa lembrança cem vezes mais penosa para os alemães. Os alemães roubaram da Europa a última grande colheita cultural que ainda havia para colher em favor da Europa: a do Renascimento. Compreende-se enfim, quer-se compreender, o que foi o Renascimento? A transmutação dos valores cristãos, a tentativa, empreendida com todos os meios, com todos os instintos, com todo o gênio, de fazer triunfar os contravalores, os valores nobres… Houve até agora apenas esta grande guerra, não houve até agora questão mais decisiva do que a do Renascimento, a minha pergunta é a pergunta dele; tampouco houve jamais uma forma de ataque mais radical, mais reta, conduzida mais rigorosamente em toda a frente e direto ao centro! Atacar no ponto decisivo, na própria sede do Cristianismo, pôr ali os valores nobres no trono, ou seja, levá-los para dentro dos instintos, para dentro das mais ínfimas necessidades e cobiças dos que ali estavam sentados… Vejo diante de mim uma possibilidade de um encanto e de uma riqueza de cores perfeitamente sobrenaturais: parece-me que ela cintila em todos os arrepios de uma beleza refinada, que nela está em ação uma arte tão divina, tão diabolicamente divina, que durante milênios se procuraria em vão uma segunda possibilidade igual; vejo um espetáculo ao mesmo tempo tão engenhoso, tão maravilhosamente paradoxal, que todas as divindades do Olimpo teriam tido motivo para uma gargalhada imortal: Cesare Borgia como papa… Você me entende?… Pois bem, esta teria sido a vitória que hoje sou o único a desejar: com isso o Cristianismo estava abolido! — O que aconteceu? Um monge alemão, Lutero, veio a Roma. Esse monge, com todos os instintos vingativos de um padre fracassado no corpo, revoltou-se em Roma contra o Renascimento… Em vez de compreender com a mais profunda gratidão o monstruoso que havia acontecido, a superação do Cristianismo em sua própria sede, o seu ódio só soube tirar daquele espetáculo o seu alimento. Um homem religioso só pensa em si mesmo. — Lutero viu a corrupção do papado, quando justamente o contrário se podia apalpar com as mãos: a velha corrupção, o peccatum originale, o Cristianismo, já não estava sentado na cadeira do papa! E sim a vida! E sim o triunfo da vida! E sim o grande sim a todas as coisas altas, belas, audaciosas!… E Lutero restaurou a Igreja: ele a atacou… O Renascimento, um acontecimento sem sentido, um grande em vão! — Ah, esses alemães, quanto já nos custaram! Em vão, foi sempre essa a obra dos alemães. — A Reforma; Leibniz; Kant e a chamada filosofia alemã; as guerras de libertação; o Reich: cada vez um em vão por algo que já existia, por algo irrecuperável… São meus inimigos, confesso, esses alemães: desprezo neles toda espécie de imundície de conceito e de valor, de covardia diante de qualquer honesto sim e não. Há quase um milênio que enredam e confundem tudo em que tocam com os dedos, têm na consciência todas as meias-medidas, três oitavos de medida!, de que a Europa adoece, têm na consciência também a mais imunda espécie de Cristianismo que existe, a mais incurável, a mais irrefutável: o Protestantismo… Se um dia não se der conta do Cristianismo, a culpa será dos alemães…