O Anticristo 2

A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo

§ 8

É preciso dizer quem sentimos como nosso oposto: os teólogos e tudo o que tem sangue de teólogo no corpo, toda a nossa filosofia… É preciso ter visto a fatalidade de perto, ou melhor ainda, é preciso tê-la vivido em si mesmo, é preciso quase ter perecido por causa dela para não levar mais nada disso na brincadeira (a libertinagem intelectual dos nossos senhores cientistas e fisiólogos é, a meus olhos, uma brincadeira, falta-lhes a paixão nessas coisas, falta-lhes o sofrimento delas). Aquele envenenamento vai muito mais longe do que se imagina: reencontrei o instinto teológico do orgulho em toda parte onde hoje alguém se sente um “idealista”, onde alguém, em virtude de uma origem mais elevada, reivindica o direito de olhar para a realidade de cima e de fora, como algo estranho… O idealista, tal qual o sacerdote, tem todos os grandes conceitos na mão (e não na mão!), joga-os com um desprezo benevolente contra o “entendimento”, os “sentidos”, as “honras”, a “vida boa”, a “ciência”, tudo isso abaixo de si, como forças nocivas e sedutoras sobre as quais paira “o espírito” numa pura existência para-si: como se a humildade, a castidade, a pobreza, a santidade, numa palavra, não tivessem feito ao longo da vida um dano indizivelmente maior do que quaisquer horrores e vícios… O espírito puro é a pura mentira… Enquanto o sacerdote ainda valer como uma espécie superior de homem, esse negador, esse caluniador, esse envenenador da vida de profissão, não resposta para a pergunta: o que é a verdade? se virou a verdade de cabeça para baixo quando o advogado consciente do nada e da negação vale como representante da “verdade”…

§ 9

A esse instinto teológico declaro guerra: encontrei seu rastro em toda parte. Quem tem sangue de teólogo no corpo posiciona-se desde o início de modo torto e desonesto diante de todas as coisas. O pathos que daí se desenvolve chama a si mesmo de fé: fechar o olho de uma vez por todas diante de si mesmo, para não sofrer com a visão de uma falsidade incurável. Faz-se de si uma moral, uma virtude, uma santidade dessa óptica defeituosa diante de todas as coisas, atrela-se a boa consciência ao ver-falso, exige-se que nenhuma outra espécie de óptica possa mais ter valor, depois de se ter tornado a própria sacrossanta com os nomes “Deus”, “Redenção”, “Eternidade”. Desenterrei o instinto teológico em toda parte: ele é a forma mais difundida, a forma propriamente subterrânea da falsidade que existe sobre a terra. O que um teólogo sente como verdadeiro, isso tem de ser falso: tem-se nisso quase um critério da verdade. É seu mais profundo instinto de autoconservação que proíbe que a realidade venha a ter honra ou sequer voz em qualquer ponto. Até onde alcança a influência do teólogo, o juízo de valor está de cabeça para baixo, os conceitos “verdadeiro” e “falso” estão necessariamente invertidos: o que é mais nocivo à vida, isso aqui se chama “verdadeiro”; o que a eleva, a intensifica, a afirma, a justifica e a faz triunfar, isso se chama “falso”… Quando acontece de teólogos esticarem a mão para o poder através da “consciência” dos príncipes (ou dos povos), não tenhamos dúvida do que sempre se passa no fundo: a vontade de fim, a vontade niilista quer chegar ao poder…

§ 10

Entre alemães, entende-se na hora quando digo que a filosofia está corrompida por sangue de teólogo. O pastor protestante é o avô da filosofia alemã, o protestantismo é o seu peccatum originale. Definição do protestantismo: a paralisia parcial do cristianismo, e da razão… Basta pronunciar a palavra “Seminário de Tübingen” para compreender o que a filosofia alemã é no fundo: uma teologia dissimulada… Os suábios são os melhores mentirosos da Alemanha, mentem com inocência… De onde veio o júbilo que percorreu o mundo erudito alemão quando Kant apareceu, mundo que se compõe em três quartos de filhos de pastores e de professores? De onde veio a convicção alemã, que ainda hoje encontra seu eco, de que com Kant começava uma virada para melhor? O instinto teológico no erudito alemão adivinhou o que voltava a ser possível… Um atalho rumo ao velho ideal estava aberto, o conceito de “mundo verdadeiro”, o conceito da moral como essência do mundo (esses dois erros mais perniciosos que existem!) eram agora de novo, graças a um ceticismo astuto e esperto, se não demonstráveis, ao menos não mais refutáveis… A razão, o direito da razão, não alcança tão longe… Tinha-se feito da realidade uma “aparência”; tinha-se feito de um mundo completamente forjado, o do ser, a realidade… O sucesso de Kant é apenas um sucesso de teólogo: Kant foi, como Lutero, como Leibniz, mais um obstáculo na honestidade alemã, que de si não é firme.

§ 11

Mais uma palavra contra Kant como moralista. Uma virtude tem de ser invenção nossa, nossa defesa e necessidade mais pessoais: em qualquer outro sentido ela é apenas um perigo. O que não é condição da nossa vida prejudica-a: uma virtude que vem apenas de um sentimento de respeito pelo conceito “virtude”, como Kant a queria, é nociva. A “virtude”, o “dever”, o “bem em si”, o bem com o caráter da impessoalidade e da validade universal, fantasias em que se exprime o declínio, o último esgotamento da vida, o chinesismo de Königsberg. O contrário é o que ordenam as leis mais profundas da conservação e do crescimento: que cada um invente sua virtude, seu imperativo categórico. Um povo perece quando confunde seu dever com o conceito de dever em geral. Nada arruína mais a fundo, mais por dentro, do que todo dever “impessoal”, todo sacrifício diante do Moloch da abstração. Pensar que não se sentiu o imperativo categórico de Kant como algo que põe a vida em perigo!… o instinto teológico o tomou sob sua proteção! Uma ação a que o instinto da vida obriga tem no prazer a prova de ser uma ação correta: e aquele niilista de entranhas cristão-dogmáticas entendia o prazer como uma objeção… O que destrói mais depressa do que trabalhar, pensar, sentir sem necessidade interior, sem uma escolha profundamente pessoal, sem prazer? Como autômato do “dever”? É exatamente a receita para a décadence, até mesmo para o idiotismo… Kant tornou-se idiota. E esse era o contemporâneo de Goethe! Esse fatum de aranha valia como o filósofo alemão, e ainda vale!… Guardo-me de dizer o que penso dos alemães… Não viu Kant, na Revolução Francesa, a passagem da forma inorgânica do Estado para a orgânica? Não se perguntou se existe um acontecimento que de modo algum possa ser explicado senão por uma disposição moral da humanidade, de modo que com ele, de uma vez por todas, ficasse provada a “tendência da humanidade para o bem”? Resposta de Kant: “é a Revolução.” O instinto que erra em tudo e em todos, a antinatureza como instinto, a décadence alemã como filosofia: isso é Kant!

§ 12

Ponho de lado uns poucos céticos, o tipo decente na história da filosofia: mas o resto não conhece as primeiras exigências da honestidade intelectual. Todos eles fazem como as mulherzinhas, todos esses grandes sonhadores e bichos prodigiosos: tomam os “belos sentimentos” por argumentos, o “peito arfante” por um fole da divindade, a convicção por um critério da verdade. Por fim, ainda Kant, em inocência “alemã”, tentou dar verniz científico a essa forma de corrupção, a essa falta de consciência intelectual, sob o conceito de “razão prática”: inventou de propósito uma razão para o caso em que não se deve dar atenção à razão, isto é, quando a moral, quando a exigência sublime do “tu deves” se faz ouvir. Quando se considera que em quase todos os povos o filósofo é apenas o desenvolvimento ulterior do tipo sacerdotal, não surpreende essa herança do sacerdote, a falsificação de moeda diante de si mesmo. Quando se têm tarefas sagradas, por exemplo melhorar os homens, salvá-los, redimi-los, quando se carrega a divindade no peito, quando se é boca de imperativos do além, com uma missão dessas se está fora de todas as valorações meramente racionais, se está santificado por uma tarefa dessas, se é o tipo de uma ordem superior!… O que importa a ciência a um sacerdote! Ele está alto demais para isso! E o sacerdote até agora reinou! Foi ele que determinou o conceito de “verdadeiro” e “falso”!…

§ 13

Não subestimemos isto: nós mesmos, nós espíritos livres, somos uma “transvaloração de todos os valores”, uma declaração de guerra e de vitória em carne e osso contra todos os velhos conceitos de “verdadeiro” e “falso”. As intuições mais valiosas são as últimas a serem encontradas; mas as intuições mais valiosas são os métodos. Todos os métodos, todos os pressupostos da nossa cientificidade atual tiveram contra si, durante milênios, o mais profundo desprezo; por causa deles a pessoa era excluída do convívio com gente “honesta”, valia como “inimigo de Deus”, como desprezador da verdade, como “possesso”. Como caráter científico, a pessoa era um Chandala… Tivemos contra nós todo o pathos da humanidade, sua noção do que a verdade deve ser, do que o serviço da verdade deve ser: todo “tu deves” esteve até agora dirigido contra nós… Nossos objetos, nossas práticas, nosso modo quieto, cauteloso e desconfiado: tudo lhe parecia totalmente indigno e desprezível. No fim, com alguma justiça, poderíamos perguntar se não foi propriamente um gosto estético o que manteve a humanidade em cegueira por tanto tempo: ela exigia da verdade um efeito pitoresco, exigia igualmente daquele que conhece que ele agisse fortemente sobre os sentidos. Nossa modéstia foi o que por mais tempo lhe contrariou o gosto… Oh, como adivinharam isso, esses perus de Deus!

§ 14

Reaprendemos. Tornamo-nos mais modestos em tudo. não derivamos o homem do “espírito”, da “divindade”, recolocamo-lo entre os animais. Ele vale para nós como o animal mais forte, porque é o mais astuto: uma consequência disso é a sua espiritualidade. Defendemo-nos, por outro lado, contra uma vaidade que também aqui gostaria de tornar a se fazer ouvir: como se o homem tivesse sido a grande intenção oculta por trás da evolução animal. Ele não é de modo algum a coroa da criação; toda criatura está, ao lado dele, num mesmo grau de perfeição… E ao afirmar isso ainda afirmamos demais: o homem é, relativamente falando, o animal mais malogrado, o mais doentio, o que mais perigosamente se desviou dos seus instintos, mas, com tudo isso, também o mais interessante! No que toca aos animais, foi Descartes o primeiro a ousar, com uma audácia digna de respeito, o pensamento de entender o animal como machina: toda a nossa fisiologia se esforça por provar essa tese. E logicamente não pomos o homem de lado, como ainda fazia Descartes: tudo o que hoje se compreende do homem vai exatamente até onde ele é compreendido de modo maquinal. Antigamente dava-se ao homem, como seu dote vindo de uma ordem superior, o “livre-arbítrio”: hoje tiramos dele até a própria vontade, no sentido de que sob essa palavra não se deve entender nenhuma faculdade. A velha palavra “vontade” serve para designar uma resultante, uma espécie de reação individual que segue necessariamente a uma multidão de estímulos em parte contraditórios, em parte concordantes: a vontade não “atua”, não “move”… Antes se via na consciência do homem, no “espírito”, a prova de sua origem mais elevada, de sua divindade; para aperfeiçoar o homem, aconselhava-se a ele que, à maneira da tartaruga, recolhesse os sentidos para dentro de si, suspendesse o trato com o terreno, despisse o invólucro mortal: então restaria dele o essencial, o “espírito puro”. Também quanto a isto refletimos melhor: o tornar-se consciente, o “espírito”, vale para nós justamente como sintoma de uma relativa imperfeição do organismo, como um ensaiar, tatear, errar, como uma fadiga em que se gasta inutilmente força nervosa demais; negamos que algo possa ser feito de modo perfeito enquanto ainda for feito de modo consciente. O “espírito puro” é a pura burrice: se descontarmos o sistema nervoso e os sentidos, o “invólucro mortal”, então fazemos a conta errada, nada mais!…