O Anticristo 5
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 24
Toco aqui apenas o problema da origem do Cristianismo. A primeira proposição para resolvê-lo diz: o Cristianismo só se compreende a partir do solo em que cresceu, não é um contramovimento contra o instinto judaico, é a sua própria consequência lógica, mais um passo dentro de sua lógica aterradora. Na fórmula do Redentor: "a salvação vem dos judeus". A segunda proposição diz: o tipo psicológico do galileu ainda é reconhecível, mas só em sua completa degeneração (que é ao mesmo tempo mutilação e sobrecarga de traços alheios) é que ele pôde servir àquilo para que foi usado, ao tipo de um Redentor da humanidade. —
Os judeus são o povo mais notável da história universal, porque, postos diante da questão do ser e do não ser, escolheram o ser a qualquer preço, com uma consciência inteiramente sinistra: esse preço foi a falsificação radical de toda natureza, de toda naturalidade, de toda realidade, do mundo interior tanto quanto do exterior. Demarcaram-se contra todas as condições sob as quais até então um povo pôde viver, teve permissão de viver, criaram a partir de si um conceito oposto às condições naturais, inverteram, uma após a outra, a religião, o culto, a moral, a história, a psicologia de modo incurável até a contradição com seus valores naturais. Encontramos o mesmo fenômeno mais uma vez e em proporções imensamente ampliadas, embora apenas como cópia: a Igreja cristã, comparada ao "povo dos santos", carece de qualquer pretensão à originalidade. Os judeus são, justamente por isso, o povo mais fatal da história universal: em seus efeitos posteriores falsificaram a humanidade a tal ponto que ainda hoje o cristão pode sentir-se antijudaico sem se compreender como a última consequência judaica.
Em minha "Genealogia da Moral" apresentei pela primeira vez, psicologicamente, o conceito oposto entre uma moral nobre e uma moral de ressentimento, esta última nascida do não dito contra a primeira: mas essa é, por inteiro, a moral judaico-cristã. Para poder dizer não a tudo o que representa o movimento ascendente da vida, o êxito, o poder, a beleza, a autoafirmação na terra, foi preciso aqui que o instinto do ressentimento, tornado genial, inventasse um outro mundo, a partir do qual aquela afirmação da vida aparecesse como o mal, como o reprovável em si. Calculado psicologicamente, o povo judeu é um povo da mais tenaz força vital, que, posto em condições impossíveis, voluntariamente, pela mais profunda esperteza da autoconservação, toma o partido de todos os instintos de décadence, não por ser dominado por eles, mas porque farejou neles um poder com o qual se pode impor contra "o mundo". São o reverso de todos os décadents: tiveram de representá-los até a ilusão, souberam pôr-se, com um non plus ultra do gênio teatral, à frente de todos os movimentos de décadence (como Cristianismo de Paulo), para fazer deles algo mais forte do que qualquer partido afirmador da vida. A décadence é, para o tipo de homem que no judaísmo e no Cristianismo aspira ao poder, um tipo sacerdotal, apenas um meio: esse tipo de homem tem um interesse vital em tornar a humanidade doente e em inverter os conceitos "bom" e "mau", "verdadeiro" e "falso" num sentido perigoso para a vida e caluniador do mundo. —
§ 25
A história de Israel é inestimável como história típica de toda desnaturalização dos valores naturais: aponto cinco fatos dela. Originalmente, sobretudo no tempo da monarquia, também Israel estava em relação correta, isto é, natural, com todas as coisas. Seu Javé era a expressão da consciência de poder, da alegria consigo mesmo, da esperança em si: dele se esperava vitória e salvação, com ele se confiava na natureza, que dá o que o povo precisa, sobretudo a chuva. Javé é o Deus de Israel e, por conseguinte, Deus da justiça: a lógica de todo povo que está no poder e tem boa consciência disso. No culto das festas exprimem-se esses dois lados da autoafirmação de um povo: ele é grato pelos grandes destinos pelos quais chegou ao topo, é grato em relação ao ciclo do ano e a toda a fortuna na criação de gado e na agricultura. Esse estado de coisas permaneceu por muito tempo o ideal, mesmo depois de ter sido tristemente desfeito: a anarquia interna, o assírio de fora. Mas o povo manteve como suprema aspiração aquela visão de um rei que é um bom soldado e um juiz severo: sobretudo aquele profeta típico (isto é, crítico e satirista do momento), Isaías. Mas toda esperança ficou sem cumprimento. O velho Deus não conseguia mais nada do que antes conseguia. Deveriam tê-lo abandonado. O que aconteceu? Alteraram o seu conceito, desnaturalizaram o seu conceito: a esse preço o mantiveram. Javé, o Deus da "justiça", não mais uma unidade com Israel, uma expressão do sentimento que o povo tem de si: apenas um Deus sob condições… Seu conceito torna-se um instrumento nas mãos de agitadores sacerdotais, que interpretam toda fortuna como recompensa, toda desgraça como castigo pela desobediência a Deus, pelo "pecado": aquela mais mentirosa maneira de interpretar, a de uma suposta "ordem moral do mundo", com a qual, de uma vez por todas, o conceito natural de "causa" e "efeito" foi posto de cabeça para baixo. Quando se eliminou do mundo a causalidade natural por meio da recompensa e do castigo, passa-se a precisar de uma causalidade antinatural: todo o resto da antinatureza segue daí em diante. Um Deus que exige, em lugar de um Deus que ajuda, que dá conselho, que no fundo é a palavra para toda inspiração feliz da coragem e da autoconfiança… A moral, não mais a expressão das condições de vida e de crescimento de um povo, não mais seu instinto mais fundo de vida, mas tornada abstrata, tornada oposto da vida, a moral como deterioração radical da fantasia, como "mau olhado" para todas as coisas. O que é a moral judaica, o que é a moral cristã? O acaso despojado de sua inocência; a desgraça suja com o conceito de "pecado"; o bem-estar como perigo, como "tentação"; o mal-estar fisiológico envenenado com o verme da consciência…
§ 26
O conceito de Deus falsificado; o conceito de moral falsificado: o sacerdócio judaico não parou aí. Não havia como aproveitar toda a história de Israel: fora com ela! Esses sacerdotes realizaram aquela obra-prima de falsificação, da qual nos resta como documento boa parte da Bíblia: traduziram para o religioso, com um escárnio sem igual contra toda tradição, contra toda realidade histórica, o seu próprio passado nacional, isto é, fizeram dele um estúpido mecanismo de salvação feito de culpa diante de Javé e castigo, de piedade diante de Javé e recompensa. Sentiríamos esse ato vergonhosíssimo de falsificação da história de modo muito mais doloroso, se a interpretação eclesiástica da história, ao longo de milênios, não nos tivesse tornado quase insensíveis às exigências da retidão in historicis. E à Igreja secundaram os filósofos: a mentira da "ordem moral do mundo" atravessa todo o desenvolvimento, mesmo o da filosofia mais recente. O que significa "ordem moral do mundo"? Que há, de uma vez por todas, uma vontade de Deus quanto ao que o homem deve fazer e ao que deve deixar de fazer; que o valor de um povo, de um indivíduo, se mede pelo quanto, muito ou pouco, se obedece à vontade de Deus; que nos destinos de um povo, de um indivíduo, a vontade de Deus se prova como dominante, isto é, como punidora e recompensadora, conforme o grau de obediência. A realidade, em lugar dessa lamentável mentira, diz o seguinte: uma espécie parasitária de homem, que só prospera às custas de todas as formações sadias da vida, o sacerdote, abusa do nome de Deus: ele chama de "Reino de Deus" um estado de coisas em que o sacerdote determina o valor das coisas; chama de "vontade de Deus" os meios pelos quais tal estado é alcançado ou mantido; ele mede, com um cinismo de sangue-frio, os povos, as épocas, os indivíduos, conforme tenham servido ou resistido à supremacia sacerdotal. Vejam-nos em ação: sob as mãos dos sacerdotes judaicos a grande época da história de Israel tornou-se uma época de decadência; o exílio, a longa desgraça, transformou-se num castigo eterno pela grande época, uma época em que o sacerdote ainda não era nada… Fizeram das figuras poderosas e muito livres da história de Israel, conforme a necessidade, miseráveis covardes e beatos ou "ímpios", simplificaram a psicologia de todo grande acontecimento à fórmula idiota "obediência ou desobediência a Deus". Mais um passo: a "vontade de Deus", isto é, as condições de conservação do poder do sacerdote, tem de ser conhecida, e para esse fim é preciso uma "revelação". Em bom português: uma grande falsificação literária se faz necessária, descobre-se uma "escritura sagrada", e ela é tornada pública sob toda a pompa hierática, com dias de penitência e gemidos de lamento sobre o longo "pecado". A "vontade de Deus" há muito estava fixada: toda a desventura está em que se distanciaram da "escritura sagrada"… A Moisés já fora revelada a "vontade de Deus"… O que tinha acontecido? O sacerdote havia formulado de uma vez por todas, com rigor, com pedantismo, até os impostos grandes e pequenos que se deviam pagar a ele (sem esquecer os pedaços mais saborosos da carne: pois o sacerdote é um devorador de bifes), o que ele quer ter, "o que é a vontade de Deus"… A partir daí todas as coisas da vida estão ordenadas de modo que o sacerdote é indispensável em toda parte; em todos os acontecimentos naturais da vida, no nascimento, no casamento, na doença, na morte, sem falar no sacrifício ("a refeição"), surge o parasita sagrado para desnaturalizá-los: para "santificá-los", em sua linguagem… Pois isto é preciso compreender: todo costume natural, toda instituição natural (Estado, ordem judicial, casamento, cuidado dos doentes e dos pobres), toda exigência inspirada pelo instinto da vida, em suma, tudo o que tem seu valor em si mesmo, torna-se por princípio sem valor, contrário ao valor, pelo parasitismo do sacerdote (ou da "ordem moral do mundo"): depois disso precisa de uma sanção, faz-se necessário um poder que confere valor, que nega a natureza nessas coisas e que justamente assim cria pela primeira vez um valor… O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a natureza: a esse preço é que ele existe. A desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à "lei", recebe agora o nome de "pecado"; os meios de "reconciliar-se com Deus" são, como é justo, meios pelos quais a submissão ao sacerdote fica ainda mais profundamente garantida: só o sacerdote "redime"… Calculado psicologicamente, em toda sociedade organizada sacerdotalmente os "pecados" tornam-se indispensáveis: são as verdadeiras alavancas do poder, o sacerdote vive dos pecados, ele precisa que se "peque"… Proposição suprema: "Deus perdoa a quem faz penitência", em bom português: a quem se submete ao sacerdote. —
§ 27
Sobre um solo de tal modo falso, onde toda natureza, todo valor natural, toda realidade tinha contra si os mais profundos instintos da classe dominante, cresceu o Cristianismo, uma forma de inimizade mortal contra a realidade que até hoje não foi superada. O "povo santo", que para todas as coisas só guardara valores de sacerdote, só palavras de sacerdote, e que, com uma lógica conclusiva capaz de infundir medo, separara de si como "profano", como "mundo", como "pecado" tudo o que ainda existia de poder na terra, esse povo produziu para o seu instinto uma fórmula final, lógica até a autonegação: negou, como Cristianismo, ainda a última forma da realidade, o "povo santo", o "povo dos eleitos", a própria realidade judaica. O caso é de primeira ordem: o pequeno movimento insurrecional que é batizado com o nome de Jesus de Nazaré é o instinto judaico mais uma vez, dito de outro modo, o instinto sacerdotal que não suporta mais o sacerdote como realidade, a invenção de uma forma de existência ainda mais abstrata, de uma visão de mundo ainda mais irreal do que a que condiciona a organização de uma Igreja. O Cristianismo nega a Igreja…
Não vejo contra o que se dirigia a revolta de que Jesus foi compreendido, ou mal compreendido, como autor, se não foi a revolta contra a Igreja judaica, Igreja tomada exatamente no sentido em que hoje tomamos a palavra. Foi uma revolta contra "os bons e os justos", contra "os santos de Israel", contra a hierarquia da sociedade, não contra sua corrupção, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula; foi a descrença nos "homens superiores", o não dito contra tudo o que era sacerdote e teólogo. Mas a hierarquia que com isso, ainda que só por um instante, foi posta em questão era a palafita sobre a qual o povo judeu, em meio à "água", ainda subsistia, a última possibilidade arduamente conquistada de continuar a existir, o resíduo de sua existência política particular: um ataque a ela era um ataque ao mais profundo instinto do povo, à mais tenaz vontade de vida de um povo que já existiu na terra. Esse santo anarquista, que convocou o povo baixo, os excluídos e "pecadores", os Chandala dentro do judaísmo, à contestação contra a ordem dominante, com uma linguagem que, se fosse possível confiar nos Evangelhos, ainda hoje levaria à Sibéria, era um criminoso político, na medida em que criminosos políticos eram possíveis numa comunidade absurdamente apolítica. Foi isso que o levou à cruz: a prova disso é a inscrição da cruz. Ele morreu por sua própria culpa, falta qualquer fundamento, por mais vezes que se tenha afirmado, para a ideia de que tenha morrido pela culpa de outros. —