O Anticristo 6

A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo

§ 28

Uma questão completamente diferente é saber se ele tinha sequer consciência de uma oposição dessas, se não foi apenas sentido como essa oposição. E é aqui que toco o problema da psicologia do Redentor. Confesso que poucos livros leio com tantas dificuldades quanto os Evangelhos. Essas dificuldades são outras que aquelas em cuja demonstração a curiosidade erudita do espírito alemão celebrou um de seus triunfos mais inesquecíveis. Está longe o tempo em que também eu, como qualquer jovem erudito, saboreava com a lentidão sagaz de um filólogo refinado a obra do incomparável Strauss. Eu tinha então vinte anos: hoje sou sério demais para isso. Que me importam as contradições da "tradição"? Como se pode chamar lendas de santos de "tradição"! As histórias de santos são a literatura mais ambígua que existe: aplicar a elas o método científico, quando não nenhum outro documento, parece-me condenado de antemão mero ócio erudito…

§ 29

O que me interessa é o tipo psicológico do Redentor. Ele bem poderia estar contido nos Evangelhos apesar dos Evangelhos, por mais mutilado que esteja ou sobrecarregado de traços alheios: como o de Francisco de Assis está conservado em suas lendas apesar de suas lendas. Não a verdade sobre o que ele fez, o que ele disse, como propriamente morreu: mas a questão de saber se seu tipo é sequer ainda imaginável, se foi "transmitido". As tentativas que conheço de extrair dos Evangelhos até mesmo a história de uma "alma" parecem-me prova de uma leviandade psicológica detestável. O senhor Renan, esse palhaço in psychologicis, acrescentou à sua explicação do tipo Jesus os dois conceitos mais inadequados que pode haver para isso: o conceito de gênio e o conceito de herói ("héros"). Mas se algo de não-evangélico, é o conceito de herói. Justamente o oposto de toda luta, de todo sentir-se em combate, tornou-se aqui instinto: a incapacidade de resistir vira aqui moral ("não resistais ao mal", a palavra mais profunda dos Evangelhos, sua chave em certo sentido), a bem-aventurança na paz, na mansidão, no não-poder-ser-inimigo. Que significa "boa nova"? A verdadeira vida, a vida eterna foi encontrada ela não é prometida, ela está aí, ela está em vós: como vida no amor, no amor sem desconto e sem exclusão, sem distância. Cada um é filho de Deus Jesus não reivindica absolutamente nada para si —, como filho de Deus cada um é igual a cada um… Fazer de Jesus um herói! E que mal-entendido é então a palavra "gênio"! Todo o nosso conceito, o nosso conceito cultural de "espírito" não tem sentido algum no mundo em que Jesus vive. Falando com o rigor do fisiologista, uma palavra bem diferente seria aqui mais cabível: a palavra idiota. Conhecemos um estado de irritabilidade doentia do tato que então recua diante de qualquer contato, diante de tocar qualquer objeto sólido. Traduza-se um tal habitus fisiológico em sua última lógica como ódio instintivo contra toda realidade, como fuga para o "inapreensível", para o "incompreensível", como aversão a toda fórmula, a todo conceito de tempo e espaço, a tudo que é firme, costume, instituição, Igreja, como estar-em-casa num mundo que nenhuma espécie de realidade mais toca, num mundo meramente "interior", num mundo "verdadeiro", num mundo "eterno"… "O Reino de Deus está dentro de vós"…

§ 30

O ódio instintivo contra a realidade: consequência de uma extrema capacidade de sofrer e de ser irritado, que de modo algum quer mais ser "tocada", porque sente todo contato profundamente demais.
A exclusão instintiva de toda aversão, de toda hostilidade, de todos os limites e distâncias no sentimento: consequência de uma extrema capacidade de sofrer e de ser irritado, que sente toda resistência, todo ter-de-resistir, como desprazer insuportável (isto é, como nocivo, como desaconselhado pelo instinto de autoconservação) e que conhece a bem-aventurança (o prazer) em não mais oferecer resistência, a ninguém mais, nem ao mal nem ao maligno o amor como única, como última possibilidade de vida…
Estas são as duas realidades fisiológicas sobre as quais, a partir das quais, cresceu a doutrina da redenção. Eu a chamo de um sublime desdobramento do hedonismo sobre uma base inteiramente mórbida. Parentíssimo dela, ainda que com um grande acréscimo de vitalidade e energia nervosa gregas, permanece o epicurismo, a doutrina de redenção do paganismo. Epicuro um décadent típico: reconhecido como tal primeiro por mim. O medo da dor, mesmo do infinitamente pequeno na dor, não pode acabar de outro modo senão numa religião do amor…

§ 31

dei de antemão a minha resposta ao problema. Seu pressuposto é que o tipo do Redentor nos foi conservado em forte deformação. Essa deformação tem em si muita probabilidade: um tipo desses, por várias razões, não podia permanecer puro, inteiro, livre de acréscimos. Tanto o milieu em que essa figura estranha se movia deve ter deixado vestígios nele, quanto, ainda mais, a história, o destino da primeira comunidade cristã: a partir dela o tipo foi, retroativamente, enriquecido com traços que se tornam compreensíveis a partir da guerra e para fins de propaganda. Aquele mundo estranho e doente em que os Evangelhos nos introduzem um mundo como saído de um romance russo, no qual a escória da sociedade, os males nervosos e a "infantil" idiotice parecem dar-se encontro deve em todo caso ter tornado o tipo mais grosseiro: os primeiros discípulos em particular traduziram um ser que nadava inteiramente em símbolos e coisas inapreensíveis para a sua própria crueza, a fim de poderem entender alguma coisa dele para eles o tipo passou a existir depois de moldado em formas mais conhecidas… O profeta, o Messias, o juiz futuro, o mestre de moral, o taumaturgo, João Batista outras tantas ocasiões de desconhecer o tipo… Não subestimemos, enfim, o proprium de toda veneração grande, sobretudo sectária: ela apaga os traços e idiossincrasias originais, muitas vezes penosamente estranhos, do ser venerado ela própria nem os vê. É de lamentar que um Dostoiévski não tenha vivido perto desse décadent o mais interessante de todos, refiro-me a alguém que soubesse sentir justamente o encanto comovente de uma tal mistura de sublime, doente e infantil. Um último ponto de vista: o tipo poderia, como tipo de décadence, ter sido de fato de uma peculiar multiplicidade e contraditoriedade: tal possibilidade não se pode excluir de todo. Apesar disso, tudo desaconselha admiti-la: justamente a tradição teria, nesse caso, de ser notavelmente fiel e objetiva, e temos razões para supor o contrário. Por ora abre-se uma contradição entre o pregador do monte, do lago e dos prados, cuja aparição agrada como um Buda sobre um solo bem pouco indiano, e aquele fanático do ataque, o inimigo mortal de teólogos e sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como "le grand maître en ironie". Eu mesmo não duvido de que a dose generosa de fel (e até de esprit) transbordou sobre o tipo do Mestre a partir do estado excitado da propaganda cristã: conhece-se de sobra a falta de escrúpulo de todos os sectários em ajeitar do seu mestre a sua própria apologia. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo que julgasse, brigasse, se enfurecesse, maldosamente capcioso, contra teólogos, criou para si o seu "Deus" segundo a sua necessidade: assim como pôs em sua boca, sem hesitar, aqueles conceitos inteiramente não-evangélicos de que agora não podia mais prescindir, "segunda vinda", "juízo final", toda espécie de expectativa e promessa temporal.