O Anticristo 7

A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo

§ 32

Insisto, mais uma vez, em rejeitar que se introduza o fanático no tipo do Redentor: a própria palavra impérieux, que Renan emprega, anula esse tipo. A “boa nova” é justamente que não mais oposições; o Reino dos céus pertence às crianças; a que aqui se manifesta não é uma conquistada à força, ela está aí, está desde o começo, é por assim dizer uma infantilidade que recuou para o espiritual. O caso da puberdade retardada e não desenvolvida no organismo, como consequência da degenerescência, é pelo menos familiar aos fisiólogos. Uma desse tipo não se ira, não censura, não se defende: ela não traz “a espada”, não suspeita sequer até que ponto poderia um dia separar. Ela não se prova, nem por milagres, nem por recompensa e promessa, nem mesmo “pelas Escrituras”: ela própria é, a cada instante, o seu milagre, a sua recompensa, a sua prova, o seu “Reino de Deus”. Essa também não se formula, ela vive, ela se defende contra as fórmulas. É claro que o acaso do ambiente, da língua, da formação prévia determina um certo círculo de conceitos: o cristianismo primitivo maneja conceitos judaico-semíticos (o comer e o beber na Ceia pertencem a isso, esse conceito tão maltratado pela Igreja, como tudo o que é judaico). Mas é preciso cuidar de não ver nisso mais do que uma linguagem de sinais, uma semiótica, uma ocasião para parábolas. Justamente por nenhuma palavra ser tomada ao da letra é que esse anti-realista pode falar. Entre indianos ele teria se servido dos conceitos do Sankhya, entre chineses dos de Lao-Tsé, e sem sentir nisso nenhuma diferença. Poder-se-ia, com alguma tolerância na expressão, chamar Jesus de um “espírito livre”: ele não importância a nada de fixo: a palavra mata, tudo o que é fixo mata. O conceito, a experiência “vida”, tal como ele a conhece, repugna-lhe em toda forma de palavra, fórmula, lei, fé, dogma. Ele fala do que de mais íntimo: “vida” ou “verdade” ou “luz” é a sua palavra para o que de mais íntimo, todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria língua, tem para ele apenas o valor de um sinal, de uma parábola. Não se deve, neste ponto, cometer engano algum, por maior que seja a sedução contida no preconceito cristão, isto é, eclesiástico: uma tal simbólica par excellence está fora de toda religião, de todos os conceitos de culto, de toda história, de toda ciência natural, de toda experiência de mundo, de todo conhecimento, de toda política, de toda psicologia, de todos os livros, de toda arte: o seu “saber” é justamente a pura tolice de que algo assim exista. A cultura nem sequer lhe é conhecida de ouvir falar, ele não precisa lutar contra ela, ele não a nega… O mesmo vale para o Estado, para toda a ordem e a sociedade civis, para o trabalho, para a guerra: ele nunca teve motivo para negar “o mundo”, nunca suspeitou do conceito eclesiástico de “mundo”… Negar é justamente o que lhe é totalmente impossível. Falta-lhe igualmente a dialética, falta a noção de que uma fé, uma “verdade”, pudesse ser provada por razões (suas provas são “luzes” interiores, sentimentos interiores de prazer e autoafirmações, puras “provas da força”). Uma doutrina assim tampouco pode contradizer, ela nem compreende que existam, que possam existir outras doutrinas, ela é incapaz de imaginar um juízo contrário… Onde o encontra, ela de lamentar, do fundo da compaixão, sobre a “cegueira”, pois a “luz”, mas não de fazer objeção alguma…

§ 33

Em toda a psicologia do “Evangelho” falta o conceito de culpa e castigo; falta igualmente o conceito de recompensa. O “pecado”, qualquer relação de distância entre Deus e o homem, está abolido: justamente isso é a “boa nova”. A bem-aventurança não é prometida, não é vinculada a condições: ela é a única realidade, o resto é sinal para falar dela…
A consequência de um estado desses projeta-se numa nova prática, a prática propriamente evangélica. Não é uma “fé” que distingue o cristão: o cristão age, ele se distingue por um agir diferente. Pelo fato de não oferecer resistência, nem por palavra nem no coração, a quem é mau contra ele. Pelo fato de não fazer distinção entre estrangeiros e nativos, entre judeus e não judeus (“o próximo” sendo propriamente o correligionário, o judeu). Pelo fato de não se irar contra ninguém, de não desprezar ninguém. Pelo fato de não aparecer diante dos tribunais nem se deixar recorrer a eles (“não jurar”). Pelo fato de, sob nenhuma circunstância, nem mesmo no caso de infidelidade comprovada da mulher, se divorciar de sua mulher. Tudo no fundo uma sentença, tudo consequência de um instinto.
A vida do Redentor não foi nada além dessa prática, e a sua morte tampouco foi outra coisa… Ele não precisava de fórmulas, de rito algum para o trato com Deus, nem sequer da oração. Ele acertou as contas com toda a doutrina judaica de penitência e reconciliação; ele sabe que é unicamente pela prática da vida que a pessoa se sente “divina”, “bem-aventurada”, “evangélica”, em todo momento um “filho de Deus”. Nem “penitência” nem “oração por perdão” são caminhos para Deus: a prática evangélica conduz a Deus, ela própria é “Deus”. O que o Evangelho liquidou foi justamente o judaísmo dos conceitos “pecado”, “perdão do pecado”, “fé”, “salvação pela fé”: toda a doutrina eclesiástica judaica estava negada na “boa nova”.
O instinto profundo de como se deve viver para se sentir “no céu”, para se sentir “eterno”, enquanto em qualquer outro comportamento não se sente de modo algum “no céu”: isso é a realidade psicológica da “salvação”. Uma nova conduta, não uma nova fé…

§ 34

Se entendo alguma coisa desse grande simbolista, é isto: que ele tomava as realidades interiores como realidades, como “verdades”, que entendia o resto, tudo o que é natural, temporal, espacial, histórico, apenas como sinal, como ocasião para parábolas. O conceito “o Filho do homem” não é uma pessoa concreta que pertence à história, algo singular, irrepetível, mas uma factualidade “eterna”, um símbolo psicológico liberto do conceito de tempo. O mesmo vale de novo, e no sentido mais alto, do Deus desse simbolista típico, do “Reino de Deus”, do “Reino dos céus”, da “filiação a Deus”. Nada é menos cristão do que as grosserias eclesiásticas de um Deus como pessoa, de um “Reino de Deus” que vem, de um “Reino dos céus” no além, de um “Filho de Deus”, a segunda pessoa da Trindade. Tudo isso é, perdoem-me a expressão, o soco no olho, e em que olho!, do Evangelho; um cinismo de alcance histórico-mundial no escárnio do símbolo… Mas é evidente o que se toca com os sinais “Pai” e “Filho”, não evidente a qualquer um, admito: com a palavra “Filho” exprime-se a entrada no sentimento global de transfiguração de todas as coisas (a bem-aventurança), com a palavra “Pai”, esse próprio sentimento, o sentimento de eternidade, de plenitude. Tenho vergonha de lembrar o que a Igreja fez desse simbolismo: não pôs ela uma história de Anfitrião no umbral da “fé” cristã? E ainda por cima um dogma da “imaculada conceição”?… Mas com isso ela maculou a conceição.
O “Reino dos céus” é um estado do coração, não algo que vem “acima da terra” ou “depois da morte”. Todo o conceito de morte natural falta no Evangelho: a morte não é ponte, não é passagem, ela falta, porque pertence a um mundo totalmente outro, apenas aparente, útil como sinal. A “hora da morte” não é um conceito cristão: a “hora”, o tempo, a vida física e suas crises simplesmente não existem para o mestre da “boa nova”… O “Reino de Deus” não é algo que se espera; não tem ontem nem depois de amanhã, não vem em “mil anos”: é uma experiência num coração; está em toda parte, não está em parte alguma…

§ 35

Esse “mensageiro da boa nova” morreu como viveu, como ensinou, não para “salvar os homens”, mas para mostrar como se deve viver. O que ele legou à humanidade foi a prática: o seu comportamento diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de toda espécie de calúnia e escárnio, o seu comportamento na cruz. Ele não resiste, não defende o seu direito, não um passo que afaste dele o pior; mais ainda, ele o provoca… E pede, e sofre, e ama com aqueles, naqueles, que lhe fazem o mal… As palavras ao ladrão na cruz contêm todo o Evangelho. “Este foi de fato um homem divino, um filho de Deus”, diz o ladrão. “Se sentes isto”, responde o Redentor, “então estás no paraíso, então também tu és um filho de Deus…” Não se defender, não se irar, não responsabilizar… Mas tampouco resistir ao mal, e sim amá-lo…