O Anticristo 13
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 54
Não se deixe enganar: os grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético. A força, a liberdade que nasce do vigor e do excesso de vigor do espírito se prova pela dúvida. Os homens de convicção não entram em conta para nada que diga respeito ao fundamento do valor e do não valor. Convicções são prisões. Quem as tem não enxerga longe o bastante, não enxerga abaixo de si: mas, para ter o direito de opinar sobre valor e não valor, é preciso ver quinhentas convicções abaixo de si, atrás de si… Um espírito que quer grandes coisas, que quer também os meios para tanto, é por necessidade um cético. A liberdade em relação a toda espécie de convicção faz parte da força, o poder de olhar livremente… A grande paixão, fundamento e potência do seu ser, mais lúcida e mais despótica do que ele próprio, toma a serviço todo o seu intelecto; ela o torna desprovido de escrúpulos; chega a lhe dar coragem para meios profanos; em certas circunstâncias ela lhe concede convicções. A convicção como meio: muita coisa só se alcança por meio de uma convicção. A grande paixão usa e gasta convicções, não se submete a elas, ela se sabe soberana. Ao contrário: a necessidade de fé, de algo incondicional no sim e no não, o carlylismo, se me permitem a palavra, é uma necessidade da fraqueza. O homem de fé, o "crente" de toda espécie é por necessidade um homem dependente, alguém que não pode pôr a si mesmo como fim, que de si próprio não consegue estabelecer fim algum. O "crente" não pertence a si mesmo, ele só pode ser meio, ele precisa ser consumido, ele precisa de alguém que o consuma. Seu instinto presta a mais alta honra a uma moral da renúncia de si: tudo o persuade a ela, sua prudência, sua experiência, sua vaidade. Toda espécie de fé é ela mesma uma expressão de renúncia de si, de autoalienação… Quando se considera o quanto a imensa maioria precisa de um regulativo que a prenda e a fixe a partir de fora, o quanto a coação, num sentido mais alto a escravidão, é a única e última condição sob a qual prospera o homem de vontade fraca, sobretudo a mulher, então se compreende também a convicção, a "fé". O homem de convicção tem nela a sua espinha dorsal. Não ver muitas coisas, em nenhum ponto ser imparcial, ser de um partido por inteiro, ter uma óptica rígida e necessária em todos os valores: só isso é o que faz com que esse tipo de homem chegue a existir. Mas com isso ele é o oposto, o antagonista do homem veraz, da verdade… Ao crente não é dado ter sequer uma consciência para a questão do "verdadeiro" e do "falso": ser honesto neste ponto seria de imediato a sua ruína. O condicionamento patológico da sua óptica faz do convicto um fanático (Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon), o tipo oposto ao espírito forte, ao espírito que se tornou livre. Mas a grande atitude desses espíritos doentes, desses epiléticos do conceito, atua sobre a grande massa: os fanáticos são pitorescos, e a humanidade prefere ver gestos a ouvir razões…
§ 55
— Um passo a mais na psicologia da convicção, da "fé". Já faz muito tempo que propus à reflexão se as convicções não seriam inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras (Humano, demasiado humano, p. 331). Desta vez quero fazer a pergunta decisiva: existe afinal uma oposição entre mentira e convicção? Todo mundo acredita que sim; mas no que é que todo mundo não acredita! Toda convicção tem a sua história, suas formas prévias, suas tentativas e seus erros: ela se torna convicção depois de por muito tempo não o ser, depois de por mais tempo ainda mal o ser. Como? não poderia a mentira estar também entre essas formas embrionárias da convicção? Às vezes basta uma troca de pessoa: no filho torna-se convicção o que no pai ainda era mentira. Eu chamo de mentira não querer ver algo que se vê, não querer ver algo como se vê: que a mentira aconteça diante de testemunhas ou sem testemunhas não vem ao caso. A mentira mais comum é aquela com que a pessoa engana a si mesma; enganar os outros é, relativamente, o caso de exceção. Ora, esse não querer ver o que se vê, esse não querer ver como se vê, é quase a primeira condição de todos os que são de um partido em qualquer sentido: o homem de partido torna-se por necessidade um mentiroso. A historiografia alemã, por exemplo, está convicta de que Roma era o despotismo, de que os germanos trouxeram ao mundo o espírito da liberdade: que diferença há entre essa convicção e uma mentira? Ainda há de que se espantar quando, por instinto, todos os partidos, inclusive os historiadores alemães, trazem na boca as grandes palavras da moral, quando a moral quase só subsiste por isto, por o homem de partido de toda espécie precisar dela a cada instante? "Esta é a nossa convicção: nós a confessamos diante do mundo inteiro, vivemos e morremos por ela, respeito por tudo o que tem convicções!" coisas assim eu ouvi até da boca de antissemitas. Pelo contrário, meus senhores! Um antissemita não se torna nem um pouco mais honesto por mentir por princípio… Os sacerdotes, que nessas coisas são mais finos e entendem muito bem a objeção contida no conceito de uma convicção, isto é, de uma falsidade que mente por princípio porque serve a um fim, herdaram dos judeus a esperteza de inserir neste ponto o conceito de "Deus", "vontade de Deus", "revelação de Deus". Também Kant, com seu imperativo categórico, estava no mesmo caminho: sua razão tornou-se aqui prática. Há questões em que a decisão sobre verdade e inverdade não cabe ao homem; todas as questões supremas, todos os supremos problemas de valor estão para além da razão humana… Compreender os limites da razão: só isso é verdadeiramente filosofia… Para que deu Deus ao homem a revelação? Teria Deus feito algo supérfluo? O homem não pode saber por si mesmo o que é bom e mau, por isso Deus lhe ensinou a sua vontade… Moral: o sacerdote não mente, a questão do "verdadeiro" ou "falso" nas coisas de que os sacerdotes falam nem sequer permite mentir. Pois, para mentir, seria preciso poder decidir o que aqui é verdadeiro. Mas é justamente isso que o homem não pode; o sacerdote é, com isso, apenas o porta-voz de Deus. Um tal silogismo sacerdotal não é de modo algum apenas judaico e cristão: o direito de mentir e a esperteza da "revelação" pertencem ao tipo do sacerdote, tanto aos sacerdotes da décadence quanto aos sacerdotes do paganismo (pagãos são todos os que dizem sim à vida, para os quais "Deus" é a palavra para o grande sim a todas as coisas). A "Lei", a "vontade de Deus", o "livro sagrado", a "inspiração": tudo são apenas palavras para as condições sob as quais o sacerdote chega ao poder, com as quais mantém o seu poder, esses conceitos se encontram no fundo de todas as organizações sacerdotais, de todas as estruturas de domínio sacerdotais ou filosófico-sacerdotais. A "mentira santa", comum a Confúcio, ao código de Manu, a Maomé, à Igreja cristã, não falta em Platão. "A verdade está aqui": isto significa, onde quer que se ouça, o sacerdote mente…