Capítulos

Épico de Gilgamesh

Versão padrão babilônica (acádia), c. séc. XII a.C.

Autoria e Data de Composição

O Épico de Gilgamesh é um poema babilônico anônimo na origem. A versão padrão, conhecida como Standard Babylonian, é tradicionalmente atribuída ao escriba Sîn-lēqi-unninni, que teria vivido entre os séculos XIII e XI a.C. Essa versão em doze tabletes não foi criada do nada. Ela retrabalhou versões paleobabilônicas anteriores (por volta de 1800 a.C.) e, antes delas, poemas sumérios independentes sobre o herói Bilgames. A cópia mais completa que chegou até nós vem da biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, do século VII a.C.

Eventos do Livro

Enkidu e a Amizade

A Floresta dos Cedros

Ishtar e o Touro Celeste

A Morte de Enkidu

A Busca da Imortalidade

O Dilúvio e o Apêndice

Manuscritos

O texto sobrevive em tabuinhas de argila escritas em acádio cuneiforme. O lote mais importante saiu da biblioteca de Assurbanípal, escavada por Hormuzd Rassam em Nínive. Em 1872, George Smith identificou nessas tabuinhas o relato do Dilúvio, episódio que tornou o épico célebre fora dos círculos especializados. O texto continua sendo completado: em 2014, a chamada Tabuinha Sulaymaniyah, estudada por Farouk Al-Rawi e Andrew George, acrescentou cerca de vinte linhas ao Tablete V, que descreve a Floresta dos Cedros. A edição crítica de referência é a de Andrew George (Oxford, 2003). Apenas cerca de dois terços da versão padrão foram recuperados até hoje.

Paralelos Bíblicos

Vários episódios do épico ecoam textos bíblicos, e a comparação é tema clássico de literatura comparada. O caso mais discutido é o Dilúvio do Tablete 11, que se aproxima de Gênesis 6 a 9 em detalhes específicos: a construção de uma embarcação, o uso de betume para vedá-la, o envio sucessivo de aves para verificar se as águas baixaram, o sacrifício após o desembarque e a divindade atraída pelo "cheiro agradável" da oferta.

A direção da dependência é debatida, e convém ser preciso. A maioria dos assiriólogos não afirma que a Bíblia copiou diretamente o Épico de Gilgamesh. O entendimento mais comum é que ambos os relatos bebem de uma matriz mesopotâmica anterior, com destaque para o épico de Atrahasis, do qual o próprio relato do Dilúvio em Gilgamesh parece ter sido extraído e inserido no Tablete 11. Gênesis teria adaptado essa tradição comum dentro de sua própria moldura teológica. A semelhança literária é real e amplamente reconhecida. A relação causal exata permanece em discussão.

Outros paralelos são propostos com menos consenso. A criação de Enkidu do barro pela deusa Aruru é comparada à formação do homem em Gênesis 2:7. A planta da juventude roubada por uma serpente, no Tablete 11, é aproximada de Gênesis 3. A "Casa do Pó" do Mundo Inferior, vista por Enkidu, é colocada ao lado da noção de Sheol em Jó e Isaías 14. E a busca frustrada da imortalidade, que termina na aceitação da mortalidade humana, dialoga com as reflexões de Eclesiastes e de Jó 14 sobre os limites da vida. Em todos esses casos, trata-se de afinidade temática numa cultura compartilhada, não de prova de cópia em qualquer direção.

Comparativo com a Bíblia

A tabela abaixo reúne os paralelos mais discutidos entre o épico e a Bíblia, do relato do Dilúvio no Tablete 11 às afinidades de sabedoria sobre a mortalidade e às imagens do jardim divino. Cada linha aponta a passagem do épico ao lado do texto bíblico correspondente.

ParaleloÉpico de GilgameshBíblia
Ser humano formado a partir do barroTablete I:102-103Gn 2:7
Ato que desperta a consciência e o conhecimentoTablete I:188Gn 3:6
Promessa de tornar o homem igual a um deusTablete I:206Gn 3:5
Os dias do homem estão contadosTablete II:234Jó 14:5
Tudo o que o homem faz é ventoTablete II:235Ec 1:14
O cedro como árvore suprema cuja sombra abriga as naçõesTablete V:8Ez 31:3
Uma corda de três fios não se rompe facilmenteTablete V:76Ec 4:12
Cedro cósmico cuja copa toca os céusTablete V:293-294Ez 31:3
Mulher poderosa propõe-se ao homem e é recusadaTablete VI:6-7Gn 39:7
Sete anos de fartura estocados contra a fome vindouraTablete VI:104Gn 41:29-30
Armazenamento de grãos para os anos de fomeTablete VI:110-111Gn 41:35-36
O além é a morada de onde quem entra nunca saiTablete VII:185Jó 7:9-10
Os mortos comem pó e voltam ao barroTablete VII:188Gn 3:19
Reis poderosos nivelados aos demais entre os mortosTablete VII:195Is 14:9-11
Homem e animal têm o mesmo destino e voltam ao póTablete IX:3Ec 3:19-20
Jardim divino adornado de pedras preciosasTablete IX:172Ez 28:13
Aviso divino sobre a destruição que vemTablete XI:14Gn 6:13
Ordem divina para construir o barcoTablete XI:24Gn 6:14
A semente de toda criatura viva levada a bordoTablete XI:27Gn 6:19-20
Casco vedado com betumeTablete XI:55Gn 6:14
A família embarca antes do dilúvioTablete XI:81Gn 7:7
A porta do barco é seladaTablete XI:90Gn 7:16
O dilúvio começa com tempestade e o abrir dos céusTablete XI:100Gn 7:11-12
A humanidade é aniquilada pelas águasTablete XI:136Gn 7:21-23
O barco encalha numa montanha do norteTablete XI:143Gn 8:4
Aves enviadas para testar se as águas baixaramTablete XI:149Gn 8:8
O corvo enviado após o dilúvioTablete XI:155Gn 8:7
Sacrifício no altar após o desembarqueTablete XI:158Gn 8:20
A divindade atraída pelo cheiro agradável da ofertaTablete XI:162Gn 8:21
Tornar-se como os deusesTablete XI:205Gn 3:22
A serpente toma a planta da vida e renova a peleTablete XI:305Gn 3:1-7
Acesso à fonte de vida sem fim bloqueado ao homemTablete XI:283Gn 3:22-24
Necromancia faz o morto subir da terraTablete XII:871Sm 28:13-15
O corpo devorado por vermes no alémTablete XII:97Is 14:11
O insepulto cujo destino é maldiçãoTablete XII:151Jr 22:19