Capítulos
Épico de Gilgamesh
Autoria e Data de Composição
O Épico de Gilgamesh é um poema babilônico anônimo na origem. A versão padrão, conhecida como Standard Babylonian, é tradicionalmente atribuída ao escriba Sîn-lēqi-unninni, que teria vivido entre os séculos XIII e XI a.C. Essa versão em doze tabletes não foi criada do nada. Ela retrabalhou versões paleobabilônicas anteriores (por volta de 1800 a.C.) e, antes delas, poemas sumérios independentes sobre o herói Bilgames. A cópia mais completa que chegou até nós vem da biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, do século VII a.C.
Eventos do Livro
- A deusa Aruru cria Enkidu do barro e a prostituta Shamhat o civiliza — (Épico de Gilgamesh 1)
- Enkidu chega a Uruk e firma amizade com Gilgamesh — (Épico de Gilgamesh 2)
- Jornada rumo à Floresta dos Cedros — (Épico de Gilgamesh 4)
- Combate contra Humbaba, o guardião da floresta — (Épico de Gilgamesh 5)
- Gilgamesh recusa a deusa Ishtar e enfrenta o Touro Celeste — (Épico de Gilgamesh 6)
- Morte de Enkidu e sua visão do Mundo Inferior — (Épico de Gilgamesh 7)
- Lamento fúnebre de Gilgamesh pelo amigo — (Épico de Gilgamesh 8)
- Travessia das montanhas, os homens-escorpião e o caminho do Sol — (Épico de Gilgamesh 9)
- Siduri, o barqueiro Ur-shanabi e a travessia das Águas da Morte — (Épico de Gilgamesh 10)
- Uta-napishti narra o Dilúvio e Gilgamesh perde a planta da juventude — (Épico de Gilgamesh 11)
- Apêndice sumério: Enkidu e o Mundo Inferior — (Épico de Gilgamesh 12)
Enkidu e a Amizade
A Floresta dos Cedros
Ishtar e o Touro Celeste
A Morte de Enkidu
A Busca da Imortalidade
O Dilúvio e o Apêndice
Manuscritos
O texto sobrevive em tabuinhas de argila escritas em acádio cuneiforme. O lote mais importante saiu da biblioteca de Assurbanípal, escavada por Hormuzd Rassam em Nínive. Em 1872, George Smith identificou nessas tabuinhas o relato do Dilúvio, episódio que tornou o épico célebre fora dos círculos especializados. O texto continua sendo completado: em 2014, a chamada Tabuinha Sulaymaniyah, estudada por Farouk Al-Rawi e Andrew George, acrescentou cerca de vinte linhas ao Tablete V, que descreve a Floresta dos Cedros. A edição crítica de referência é a de Andrew George (Oxford, 2003). Apenas cerca de dois terços da versão padrão foram recuperados até hoje.
Paralelos Bíblicos
Vários episódios do épico ecoam textos bíblicos, e a comparação é tema clássico de literatura comparada. O caso mais discutido é o Dilúvio do Tablete 11, que se aproxima de Gênesis 6 a 9 em detalhes específicos: a construção de uma embarcação, o uso de betume para vedá-la, o envio sucessivo de aves para verificar se as águas baixaram, o sacrifício após o desembarque e a divindade atraída pelo "cheiro agradável" da oferta.
A direção da dependência é debatida, e convém ser preciso. A maioria dos assiriólogos não afirma que a Bíblia copiou diretamente o Épico de Gilgamesh. O entendimento mais comum é que ambos os relatos bebem de uma matriz mesopotâmica anterior, com destaque para o épico de Atrahasis, do qual o próprio relato do Dilúvio em Gilgamesh parece ter sido extraído e inserido no Tablete 11. Gênesis teria adaptado essa tradição comum dentro de sua própria moldura teológica. A semelhança literária é real e amplamente reconhecida. A relação causal exata permanece em discussão.
Outros paralelos são propostos com menos consenso. A criação de Enkidu do barro pela deusa Aruru é comparada à formação do homem em Gênesis 2:7. A planta da juventude roubada por uma serpente, no Tablete 11, é aproximada de Gênesis 3. A "Casa do Pó" do Mundo Inferior, vista por Enkidu, é colocada ao lado da noção de Sheol em Jó e Isaías 14. E a busca frustrada da imortalidade, que termina na aceitação da mortalidade humana, dialoga com as reflexões de Eclesiastes e de Jó 14 sobre os limites da vida. Em todos esses casos, trata-se de afinidade temática numa cultura compartilhada, não de prova de cópia em qualquer direção.
Comparativo com a Bíblia
A tabela abaixo reúne os paralelos mais discutidos entre o épico e a Bíblia, do relato do Dilúvio no Tablete 11 às afinidades de sabedoria sobre a mortalidade e às imagens do jardim divino. Cada linha aponta a passagem do épico ao lado do texto bíblico correspondente.
| Descrição | Épico de Gilgamesh | Bíblia |
|---|---|---|
Ser humano formado a partir do barro | ||
Ato que desperta a consciência e o conhecimento | ||
Promessa de tornar o homem igual a um deus | ||
Os dias do homem estão contados | ||
Tudo o que o homem faz é vento | ||
O cedro como árvore suprema cuja sombra abriga as nações | ||
Uma corda de três fios não se rompe facilmente | ||
Cedro cósmico cuja copa toca os céus | ||
Mulher poderosa propõe-se ao homem e é recusada | ||
Sete anos de fartura estocados contra a fome vindoura | ||
Armazenamento de grãos para os anos de fome | ||
O além é a morada de onde quem entra nunca sai | ||
Os mortos comem pó e voltam ao barro | ||
Reis poderosos nivelados aos demais entre os mortos | ||
Homem e animal têm o mesmo destino e voltam ao pó | ||
Jardim divino adornado de pedras preciosas | ||
Aviso divino sobre a destruição que vem | ||
Ordem divina para construir o barco | ||
A semente de toda criatura viva levada a bordo | ||
Casco vedado com betume | ||
A família embarca antes do dilúvio | ||
A porta do barco é selada | ||
O dilúvio começa com tempestade e o abrir dos céus | ||
A humanidade é aniquilada pelas águas | ||
O barco encalha numa montanha do norte | ||
Aves enviadas para testar se as águas baixaram | ||
O corvo enviado após o dilúvio | ||
Sacrifício no altar após o desembarque | ||
A divindade atraída pelo cheiro agradável da oferta | ||
Tornar-se como os deuses | ||
A serpente toma a planta da vida e renova a pele | ||
Acesso à fonte de vida sem fim bloqueado ao homem | ||
Necromancia faz o morto subir da terra | ||
O corpo devorado por vermes no além | ||
O insepulto cujo destino é maldição |