Épico de Gilgamesh 8

Versão padrão babilônica (acádia), c. séc. XII a.C.

Aos primeiros raios da aurora,
Gilgamesh [pranteava] pelo amigo:
'Enkidu, [a quem] sua mãe, uma gazela,
e seu pai, um asno selvagem, [geraram,]
a quem os [asnos] selvagens criaram com seu leite,
e os animais [da estepe ensinaram] todos os pastos!
Que os caminhos da Floresta dos Cedros, Enkidu,
[chorem] por você, e não [...] se calem dia nem noite!
Que os anciãos da populosa cidade de Uruk-o-Aprisco chorem por você!
Que a multidão que nos dava bênçãos pelas costas [chore por você!]
Que os altos [picos] das colinas e montanhas chorem por você,
[...]... puro.
Que os pastos lamentem como sua mãe!
Que [o buxo,] o cipreste e o cedro chorem por você,
por entre os quais nos esgueiramos em nossa fúria!
Que o urso chore por você, a hiena, a pantera, o guepardo, o veado e o chacal,
o leão, o touro selvagem, o cervo, o íbex, os rebanhos e os animais da estepe!
Que o sagrado rio Ulay chore por você, por cujas margens caminhávamos com tanto vigor!
Que o santo Eufrates chore por você,
cuja água [usávamos] para derramar em libação (das) odres!
Que os jovens de Uruk-o-Aprisco chorem por você,
[que] assistiram à nossa batalha, quando matamos o Touro Celeste!
Que o lavrador no [...] chore por você,
[que] exaltava seu nome em sua doce cantiga de trabalho!
Que o... da espaçosa cidade de Uruk-o-Aprisco chore por você,
[que] exaltava seu nome [com] o primeiro...!
Que o pastor chore por você [...,]
[que]... [leite] e manteiga [em sua boca!]
Que [o jovem pastor] chore por você [...,]
[que] punha manteiga em seus [lábios!]
Que o [cervejeiro] [...] chore por você,
[que] punha cerveja em sua boca!
Que a [meretriz] [...] chore por você,
[que]... ungiu a coroa de sua cabeça com óleo perfumado!
Que [...] a [casa] da cerimônia de casamento chore [por você,]
que... você uma esposa... [...!]
[Que] [...] chore por você!
Que [...] chorem por você [como se fossem] seus irmãos!
Que [...] soltem [seus cabelos sobre as costas] como se fossem suas irmãs!
[Que chorem] por Enkidu sua mãe e seu pai, [como se...!]
[Naquele mesmíssimo] dia [eu mesmo] chorarei por você!
Ouçam-me, ó jovens, ouçam[-me!]
Ouçam-me, ó anciãos [da populosa cidade de Uruk,] ouçam-me!
Chorarei por Enkidu, meu amigo,
como uma carpideira profissional lamentarei amargamente.
O machado a meu lado, no qual meu braço confiava,
a espada de meu cinto, o escudo diante de mim,
minha veste festiva, o cinturão de meu deleite:
um vento maligno se ergueu contra mim e me roubou.
Meu amigo, uma mula em disparada, asno selvagem das terras altas, pantera da estepe,
meu amigo Enkidu, uma mula em disparada, asno selvagem das terras altas, pantera da estepe!
Nós (que fomos) os que juntamos forças e escalamos as [terras altas,]
agarramos o Touro Celeste e [o matamos,]
destruímos Humbaba, que [habitava na] Floresta dos Cedros.
Agora, que sono é este que se apoderou [de você?]
Você ficou inconsciente e não pode ouvir[-me!]'
Mas ele não erguia [a cabeça;]
tocou-lhe o coração, mas ele não batia.
Cobriu (o rosto do) amigo, (velando) seu rosto como o de uma noiva,
rondando ao redor dele como uma águia.
Como uma leoa privada de seus filhotes,
ficava indo e vindo, para um lado e para outro.
Arrancava seus [cabelos] encaracolados e os deixava cair num monte,
rasgando suas joias e atirando-as fora, [como] algo proibido.
Aos primeiros raios da aurora,
Gilgamesh lançou um chamado ao país:
'Mestre-forjador! [Lapidário!] Caldeireiro! Ourives! Joalheiro!
Façam (uma estátua de) meu amigo, [...!]'
[...] ele modelou uma estátua de seu amigo:
'Os membros de meu amigo são de [...,]
suas sobrancelhas são de lápis-lazúli, seu peito de ouro,
seu corpo de...]'

Lacuna. Quando o texto retorna, Gilgamesh ainda está falando

'[Eu o deitarei sobre um grande leito,]
num leito [de honra eu o deitarei.]
Eu o porei [num assento tranquilo, o assento à minha esquerda,]
os príncipes da terra [beijarão seus pés.]
Farei prantear por você o povo [de Uruk, eu os farei chorar por você,]
o povo tão alegre [eu encherei de pesar por você.]
E eu, depois que você partir, [eu mesmo] deixarei [crescer os cabelos emaranhados do luto,]
vestirei a pele de um [leão] e [vagarei pela estepe.]'
Aos primeiros raios da aurora,
[Gilgamesh se levantou e entrou em seu tesouro.]
Desfez seus selos, inspecionou as joias:
obsidiana, cornalina, [...,] alabastro,
[...]... [...] trabalhado,
[...] ele providenciou para o amigo.
[...] ele providenciou para o amigo.
[... de x] + 10 minas de ouro ele providenciou para o amigo.
[... de x] minas de ouro ele providenciou para o amigo.
[... de x] minas de ouro ele providenciou para o amigo.
[... de x] minas de ouro ele providenciou para o amigo.
[...] grande.
[...] entre eles, montados em trinta minas de ouro,
[...] era seu [...,] ele providenciou para o amigo.
[... era] sua [...,] ele providenciou para o amigo.
[...] era sua espessura.
[... era] seu [...,] ele providenciou para o amigo.
[...] grande.
[...] ele providenciou para o amigo.
[...] de sua cintura.
[...] ele providenciou para o amigo.
[...] ele providenciou para o amigo.
[...] ele providenciou para o amigo.
[...] ele providenciou para o] amigo.

Pequena lacuna

[...] ele providenciou [para o amigo.]
[...] de seus pés, ele providenciou [para o amigo.]
[... de x] talentos de marfim...,
[...] seu cabo [era de x minas] de ouro, ele providenciou para o amigo.
[...] enorme... de marfim em seu braço, ele providenciou para o amigo.
[...] em sua aljava [era...,] seu cabo (era) um talento de ouro, ele providenciou para o amigo.
[...] a maça em sua mão era de marfim.
[...] seu cabo era de quarenta minas de cornalina, ele providenciou para o amigo.
[...] seus... três côvados era seu comprimento,
[...]... sua espessura, ele providenciou para o amigo.
[...]... de ouro fino.
[...]... de cornalina, vermelho de ferro,
[...]... a bainha era de touro selvagem,
[...]... para o amigo.
[Bois gordos] e ovelhas cevadas foram abatidos, ele os empilhou para o amigo.
'[...]... de meu amigo!'
[...]... carregaram toda a carne aos príncipes da terra.
[Um] vara de [arremesso] de..., madeira pura,
[para] Ishtar, a grande rainha, [ele exibiu a Shamash:]
'[Que] Ishtar, a grande rainha, [...] receba isto,
que [ela] acolha [meu amigo] e [assim caminhe a seu lado!]'
[...]... [...]
[...]... [...]
para Namra-sit,..., ele exibiu a Shamash:
'Que Namra-sit,..., receba isto,
que [ele] acolha [meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'
Um frasco de lápis-lazúli, [...]
... [...]
para Ereshkigal, [a rainha do Mundo Inferior, ele exibiu a Shamash:]
'Que Ereshkigal, [a rainha do populoso Mundo Inferior,] receba isto,
que [ela] acolha [meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'
Uma flauta de cornalina [...,]
para Dumuzi, o pastor amado de [Ishtar, ele exibiu a Shamash:]
'Que Dumuzi, o pastor amado de [Ishtar (...),] receba isto,
que ele acolha meu amigo e [assim caminhe a seu lado!]'
Um trono de lápis-lazúli, um cetro [...,]
um bastão de lápis-lazúli [...,]
para Namtar, o vizir do Mundo Inferior, ele exibiu a Shamash:
'Que Namtar, o vizir do populoso Mundo Inferior, receba isto,
que [ele] acolha meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'
para [Hushbisha, a despenseira do Mundo Inferior, ele exibiu a Shamash:]
'Que [Hushbisha, a despenseira do populoso Mundo Inferior, receba isto,]
[que ela acolha meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'
Ele teve (eles) feitos [...,]
um fecho de prata, braceletes de cobre [...,]
para Qassa-tabat, a varredora de [Ereshkigal, ele exibiu a Shamash:]
'[Que] Qassa-tabat, a varredora [de Ereshkigal (...),] receba isto,
que ela acolha meu amigo e [assim caminhe a seu lado!]'
[...] de alabastro, não se torne mau de novo!
[...] de alabastro, cujo interior estava incrustado de lápis-lazúli e cornalina,
[representando uma imagem] da Floresta dos Cedros,
[...] incrustado de cornalina,
para Ninshuluhhatumma, a faxineira da casa, ele exibiu a Shamash:
'Que Ninshuluhhatumma, a faxineira da casa, receba isto,
que ela acolha meu amigo e assim caminhe a seu lado!'
que [meu amigo] não [...,] nem adoeça no coração!'
Um punhal de dois gumes com cabo de lápis-lazúli,
... do santo Eufrates,
para Bibbu, o açougueiro do Mundo Inferior, ele exibiu a Shamash:
'[Que Bibbu, o açougueiro] do populoso Mundo Inferior, [receba isto,]
que [ele] acolha [meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'
[...] um [frasco] de alabastro,
[para Dumuzi-abzu, o] bode expiatório do Mundo Inferior, ele exibiu a Shamash:
'[Que Dumuzi-abzu, o] bode expiatório do populoso Mundo Inferior, [receba isto,]
que ele acolha [meu amigo] e assim caminhe a seu lado!'
[...] o topo do qual era de lápis-lazúli,
[...] incrustado de cornalina,
[para...] ele exibiu a Shamash:
'[Que... receba isto,]
que [ele (ou ela)] acolha meu amigo e assim caminhe a seu lado!]'

Lacuna

'[Que ele (ou ela)] acolha meu amigo e [assim caminhe a seu lado!]'
[...] de cedro
[para..., o grande...,] ele [exibiu a Shamash:]
'[Que...,] o grande [..., receba isto,]
[que ele acolha meu amigo e] caminhe [a seu lado!]'

Lacuna de duas linhas

[...] de cedro

Lacuna. Quando o texto retorna, parece que alguém está falando com Gilgamesh

'[...]... que nós... [...,]
[...] seu [...,] seus nomes [...,]
[...] juiz dos Anunnaki [...,]'
Quando Gilgamesh ouviu isto,
concebeu [no coração] o represamento do rio.
Aos primeiros raios da aurora,
Gilgamesh abriu [seu portão.]
Trouxe para fora uma grande mesa de madeira de elammaku,
encheu de calda um prato de cornalina.
Encheu de manteiga um prato de lápis-lazúli,
decorou [...] e exibiu a Shamash.
[...] ele [exibiu ao sol.]

Lacuna

um disco de ouro [...,]
ele mesmo [...]
[...]
[Que ele...]... antes de meu amigo,