Capítulos
A Guerra dos Judeus - Livro V
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as forças judaicas na Galileia quando a revolta contra Roma começou em 66. Foi capturado pelo general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
A Guerra dos Judeusé a primeira e mais famosa das obras de Josefo. São sete livros que narram o conflito entre os judeus e Roma, desde os antecedentes do levante até a queda das últimas fortalezas rebeldes. Josefo afirma que escreveu primeiro numa língua materna, aramaico ou hebraico, versão que não sobreviveu, e depois preparou a versão grega, provavelmente sob sua própria supervisão e com a ajuda de assistentes contratados "por causa do grego". A obra foi composta e publicada por volta de 75 a 79 d.C., sob Vespasiano, que recebeu uma cópia, o que ajuda a fixar o limite da datação antes da morte do imperador em 79.
O Livro V na Obra
O Livro V cobre cerca de seis meses do ano 70 d.C., da chegada de Tito diante de Jerusalém até o ponto extremo de fome e desespero a que a cidade foi reduzida. Esse período não tem paralelo na Bíblia hebraica, que se encerra séculos antes. A narrativa entrelaça três planos: a guerra civil entre as facções judaicas dentro das muralhas, que se destruíam mutuamente enquanto o inimigo se aproximava, o avanço metódico do exército romano contra as três linhas de muralha da cidade, e as longas descrições da topografia de Jerusalém e do Templo de Herodes, registro de um conjunto urbano que seria arrasado nos meses seguintes. O desfecho da guerra, a tomada do Templo e o incêndio do santuário, fica para o Livro VI.
Conteúdo do Livro
- As facções rivais dentro de Jerusalém e a destruição que infligem à própria cidade, com queima de reservas de alimento e matanças entre os defensores antes mesmo da chegada dos romanos — (A Guerra dos Judeus - Livro V 1)
- O reacender da revolta interna, as ciladas armadas contra os romanos e a advertência de Tito aos seus soldados contra a imprudência indisciplinada — (A Guerra dos Judeus - Livro V 3)
- Os chefes Simão e João à frente das facções, o ferimento de Nicanor por um dardo enquanto Tito inspecionava a muralha e a decisão de acelerar o cerco — (A Guerra dos Judeus - Livro V 6)
- A marcha de Tito sobre Jerusalém, o perigo que correu ao observar a cidade de perto e a escolha do terreno onde montou o acampamento romano — (A Guerra dos Judeus - Livro V 2)
- A retomada do cerco depois de uma pausa e o envio de Josefo, agora a serviço dos romanos, para tentar convencer os compatriotas a se renderem — (A Guerra dos Judeus - Livro V 9)
- A descrição topográfica de Jerusalém, com suas colinas, vales e sucessivas linhas de muralha que faziam da cidade uma das praças mais fortificadas do oriente — (A Guerra dos Judeus - Livro V 4)
- A descrição do Templo de Herodes, com seus átrios, pórticos e o santuário interno, registro detalhado de um edifício que seria destruído logo depois — (A Guerra dos Judeus - Livro V 5)
- O desabamento de uma torre romana, a tomada do primeiro muro após grande matança, o ataque ao segundo muro e os episódios de Longino, o romano, e Castor, o judeu — (A Guerra dos Judeus - Livro V 7)
- A conquista do segundo muro pelos romanos, perdido e retomado, e os preparativos para o assalto ao terceiro muro — (A Guerra dos Judeus - Livro V 8)
- A crucificação de prisioneiros judeus diante das muralhas, a digressão sobre Antíoco Epifânio e a destruição dos aterros romanos pelos sitiados — (A Guerra dos Judeus - Livro V 11)
- A decisão de Tito de cercar toda a cidade com uma muralha de contravalação, que isolou Jerusalém e entregou a população à fome — (A Guerra dos Judeus - Livro V 12)
- A multidão que tentava desertar para os romanos e os sofrimentos extremos dos que ficaram, consumidos pela fome dentro das muralhas — (A Guerra dos Judeus - Livro V 10)
- As grandes matanças e os atos de profanação cometidos dentro de Jerusalém à medida que a ordem interna se desfazia sob o cerco — (A Guerra dos Judeus - Livro V 13)
A guerra civil dentro da cidade
Tito chega e cerca Jerusalém
Descrição de Jerusalém e do Templo
O assalto às muralhas
A fome e o horror do cerco
A Descrição de Jerusalém e do Templo
Dois capítulos interrompem a narrativa militar para descrever a cidade e seu santuário. Josefo detalha as colinas de Jerusalém, os vales que a cercavam e as três muralhas sucessivas que faziam dela uma das praças mais fortificadas do oriente, e em seguida o Templo de Herodes, com seus átrios, pórticos e o santuário interno. Esses capítulos têm valor especial porque registram um conjunto que estava prestes a desaparecer. A arqueologia confirma a escala da plataforma do Templo, cujos muros de contenção ainda são visíveis em Jerusalém, embora as medidas exatas dadas por Josefo nem sempre coincidam com o que se pode verificar no terreno. Convém ler as descrições como testemunho próximo, mas não como planta técnica.
O Cerco e a Fortaleza Antônia
A ação militar do Livro V gira em torno do assalto às muralhas e da posição da fortaleza Antônia, erguida por Herodes na esquina noroeste da esplanada do Templo. Josefo descreve como Tito tomou o primeiro e o segundo muro, ergueu aterros de assalto, cercou toda a cidade com uma muralha de contravalação que cortou qualquer saída e crucificou prisioneiros diante das muralhas para quebrar a resistência. A Antônia dominava o recinto sagrado, e os romanos a tinham como chave para alcançar o Templo. O livro termina com a cidade reduzida à fome, mas a queda da Antônia e do santuário pertence já ao Livro VI.
Fontes e Método
Josefo é testemunha ocular de boa parte do que narra. Foi comandante na Galileia no início da guerra e, depois da captura, acompanhou o estado-maior romano durante o cerco de Jerusalém, atuando como intérprete e negociador junto aos sitiados. Para os movimentos do lado romano, declara ter usado os comentários, hoje perdidos, de Vespasiano e Tito. Essa proximidade dá ao relato detalhe raro, mas também produz um viés claramente pró-romano: Josefo escreve como cliente dos Flávios, tende a inocentar Tito da destruição do Templo e a concentrar a culpa da catástrofe nos líderes das facções judaicas. O leitor deve descontar esse interesse sem descartar a informação.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego da Guerra dos Judeus sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese, do fim do século XIX, base das edições modernas. No Ocidente latino circulou ainda uma reelaboração cristã conhecida como pseudo-Hegésipo, que adaptou e abreviou a narrativa e moldou parte da recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737, cujos sumários de capítulo foram traduzidos para o português neste índice.
Valor Histórico e Cautelas
Para a guerra de 66 a 73 d.C., Josefo é a fonte primária insubstituível: nenhum outro relato antigo do conflito sobreviveu com esse alcance. O Livro V exige, ainda assim, duas cautelas. A primeira são os números, que Josefo infla com frequência, sobretudo as cifras de mortos e de população sitiada, hoje tratadas com desconfiança pelos historiadores. A segunda é o programa apologético, que distribui culpas de modo a poupar Roma e os Flávios. Mesmo assim, a arqueologia ancora o núcleo do relato: a destruição do Templo está confirmada pelas escavações ao redor do Monte do Templo, e episódios narrados em outros livros da mesma obra, como o cerco de Jotapata e a queda de Massada, encontram correspondência material, ainda que a leitura de alguns desses sítios continue debatida.