A Guerra dos Judeus - Livro V 7
Livro V: Tito e o cerco de Jerusalém
Como uma das torres erguidas pelos romanos desabou por conta própria, e como os romanos, depois de grande matança, tomaram posse do primeiro muro. Como também Tito desferiu seus ataques contra o segundo muro. E ainda a respeito de Longino, o romano, e de Castor, o judeu.
Na noite seguinte, uma perturbação surpreendente caiu sobre os romanos. Tito tinha ordenado a construção de três torres de cinquenta côvados de altura, para que, colocando homens sobre elas em cada terraço, pudesse dali expulsar os que estavam no muro. Aconteceu que uma dessas torres desabou por volta da meia-noite. Como a queda fez um barulho enorme, o medo tomou conta do exército. Imaginando que o inimigo vinha atacá-los, todos correram para pegar as armas. Daí surgiu uma confusão e um tumulto entre as legiões. Como ninguém sabia o que tinha acontecido, andavam de um lado para o outro desanimados. Não vendo nenhum inimigo aparecer, ficaram com medo uns dos outros, e cada um pedia ao vizinho a senha do dia, com grande insistência, como se os judeus tivessem invadido o acampamento. Estavam todos tomados de pânico, até que Tito foi informado do ocorrido e mandou avisar a todos. Então, embora com alguma dificuldade, se livraram da perturbação em que estavam.
Essas torres davam muito trabalho aos judeus, que de resto enfrentavam os romanos com grande coragem. Dali os romanos os atingiam com suas máquinas mais leves, e também com os lançadores de dardos, os arqueiros e os que atiravam pedras. Os judeus não conseguiam alcançar os que estavam acima deles, por causa da altura, e não havia como tomar as torres nem derrubá-las, de tão pesadas que eram, nem incendiá-las, pois estavam revestidas de placas de ferro. Por isso recuaram para fora do alcance dos dardos e deixaram de tentar impedir o avanço dos aríetes. Estes, batendo continuamente contra o muro, aos poucos prevaleceram contra ele. O muro já cedia ao Nico, pois era esse o nome que os próprios judeus davam à maior de suas máquinas, porque ela vencia tudo. Fazia muito tempo que estavam cansados de lutar e de montar guarda, e tinham se retirado para dormir à noite longe do muro. Por outras razões também achavam que vigiar o muro era desnecessário, já que ainda restavam duas outras fortificações, e eles estavam preguiçosos, com decisões mal tomadas em todas as ocasiões. Assim, muitos se acomodaram e se retiraram. Então os romanos subiram pela brecha que o Nico tinha aberto. Todos os judeus abandonaram a guarda daquele muro e recuaram para o segundo muro. Os que tinham passado por cima abriram os portões e receberam todo o exército lá dentro. Foi assim que os romanos tomaram posse desse primeiro muro, no décimo quinto dia do cerco, que era o sétimo dia do mês de Artemísio [Jiar]. Demoliram boa parte dele, assim como das partes ao norte da cidade, que já tinham sido demolidas antes por Cestio.
Tito então armou o acampamento dentro da cidade, no lugar chamado Acampamento dos Assírios, depois de tomar tudo que se estendia até o Cedron, mas teve o cuidado de ficar fora do alcance dos dardos dos judeus. Logo iniciou seus ataques. Diante disso, os judeus se dividiram em vários grupos e defenderam aquele muro com coragem. João e sua facção lutavam a partir da torre Antônia e do pórtico norte do Templo, e enfrentavam os romanos diante dos monumentos do rei Alexandre. O exército de Simão tomou para si o terreno próximo ao monumento de João, e o fortificou até o portão por onde a água era levada para a torre Hípico. Os judeus faziam investidas violentas, e com frequência, em grupos compactos, saindo pelos portões, e ali enfrentavam os romanos. Quando eram perseguidos todos juntos até o muro, levavam a pior nesses combates, por não terem a habilidade dos romanos. Mas quando lutavam a partir dos muros, eram superiores a eles. Os romanos eram encorajados pela força aliada à habilidade, e os judeus pela ousadia, alimentada pelo medo que sentiam e por aquela tenacidade que é natural à nossa nação nas desgraças. Também os animava a esperança de libertação, assim como aos romanos a esperança de subjugá-los em pouco tempo. Nenhum dos lados se cansava. Havia ataques e combates no muro, e contínuas investidas em grupo, o dia inteiro. Não houve nenhum tipo de ação de guerra que não fosse posta em prática. A própria noite mal conseguia separá-los, e de manhã recomeçavam a lutar. A noite passava sem sono dos dois lados, e era mais penosa que o dia para eles. Um lado temia que o muro fosse tomado, o outro que os judeus investissem contra os acampamentos. Ambos os lados dormiam armados durante a noite, e assim ficavam prontos para a batalha ao primeiro sinal de luz. Entre os judeus, a ambição era ver quem enfrentaria primeiro os perigos, para agradar seus comandantes. Acima de tudo, tinham grande reverência e temor por Simão. A tal ponto cada um dos que estavam sob suas ordens o respeitava que, a um comando seu, estavam prontos a se matar com as próprias mãos. O que tornava os romanos tão corajosos era o hábito constante de vencer e a falta de costume de ser derrotados, suas guerras incessantes e exercícios militares perpétuos, e a grandeza de seu domínio. E o que mais os animava agora era Tito, que estava presente em toda parte com todos eles. Parecia uma coisa terrível se cansar enquanto César estava ali, e ele lutava com bravura tanto quanto eles, e era ao mesmo tempo testemunha ocular dos que se comportavam com valor e aquele que iria recompensá-los. Além disso, era considerado uma vantagem ter o próprio valor conhecido por César. Por isso, muitos demonstravam mais entusiasmo do que força para corresponder a ele. Por essa época, os judeus estavam dispostos em formação diante do muro, em um corpo compacto. Enquanto os dois lados atiravam dardos um contra o outro, Longino, um homem da ordem equestre, saltou para fora do exército romano e se lançou bem no meio do exército dos judeus. Quando estes se dispersaram diante do ataque, ele matou dois dos seus homens mais corajosos. A um deles golpeou na boca, quando vinha enfrentá-lo. O outro foi morto pelo mesmo dardo que Longino arrancou do corpo do primeiro, com o qual atravessou o flanco deste, que fugia dele. Feito isso, voltou correndo do meio dos inimigos para o seu próprio lado, antes de qualquer outro. Esse homem se destacou pelo valor, e muitos houve que cobiçaram conquistar igual reputação. Os judeus não se importavam com o que eles próprios sofriam dos romanos, e só se preocupavam com o estrago que podiam lhes causar. A própria morte lhes parecia coisa pequena, contanto que pudessem ao mesmo tempo matar algum de seus inimigos. Mas Tito cuidava de proteger seus soldados do perigo, ao mesmo tempo que de fazê-los vencer o inimigo. Dizia também que a violência irrefletida é loucura, e que só era verdadeira coragem aquela aliada a uma boa conduta. Por isso ordenou a seus homens que tivessem cuidado, ao lutar com o inimigo, de não sofrer dano ao mesmo tempo, mostrando assim que eram homens de verdadeiro valor.
Tito então levou uma de suas máquinas até a torre central da parte norte do muro. Ali estava emboscado um judeu astuto chamado Castor, com outros dez homens como ele, pois os demais tinham fugido por causa dos arqueiros. Esses homens ficaram imóveis por um tempo, como que tomados de grande medo, debaixo de suas couraças. Mas quando a torre estremeceu, levantaram-se, e Castor estendeu a mão, como um suplicante, chamou por César e, com a voz, despertou a compaixão dele, suplicando que tivesse misericórdia deles. Tito, na inocência de seu coração, acreditando que ele falava a sério e esperando que os judeus agora se arrependessem, mandou parar o trabalho do aríete, proibiu que atirassem nos suplicantes e pediu a Castor que dissesse o que queria dizer. Castor disse que desceria, se Tito lhe desse a mão direita como garantia. Tito respondeu que estava muito satisfeito com aquela atitude agradável, e que ficaria contente se todos os judeus pensassem como ele, e que estava pronto a dar a mesma garantia à cidade. Cinco dos dez fingiam concordar com ele e simulavam pedir misericórdia, enquanto os outros gritavam bem alto que jamais seriam escravos dos romanos enquanto estivesse em seu poder morrer livres. Enquanto esses homens discutiam por um bom tempo, o ataque ficou suspenso. Castor também mandou avisar Simão de que podiam aproveitar para deliberar sobre o que fazer, porque ele enganaria o poderio dos romanos por um tempo considerável. E, ao mesmo tempo que mandava esse recado, em público parecia exortar os obstinados a aceitar a mão de Tito como garantia. Mas eles aparentavam grande indignação com isso, brandiam as espadas desembainhadas sobre o parapeito, batiam no próprio peito e caíam, como se tivessem sido mortos. Diante disso, Tito e os que estavam com ele ficaram espantados com a coragem daqueles homens. Como não conseguiam ver exatamente o que se passava, admiraram aquela grande firmeza e tiveram pena de sua desgraça. Nesse intervalo, alguém atirou um dardo em Castor e o feriu no nariz. Ele logo arrancou o dardo, mostrou-o a Tito e reclamou que aquilo era um tratamento injusto. César então repreendeu o que atirou o dardo e mandou Josefo, que estava ao seu lado, dar a mão direita a Castor. Mas Josefo disse que não iria até ele, porque aqueles falsos suplicantes não tinham boas intenções. Ele também conteve os amigos que estavam ansiosos para ir. Mesmo assim, havia um certo Eneas, um desertor, que disse que iria. Castor também os chamou, pedindo que alguém viesse receber o dinheiro que tinha consigo. Isso fez Eneas correr até ele com ainda mais pressa, com a túnica aberta. Então Castor pegou uma pedra grande e a atirou nele. A pedra errou o alvo, porque Eneas se protegeu, mas feriu outro soldado que se aproximava. Quando César percebeu que aquilo era um embuste, entendeu que a misericórdia na guerra é coisa perniciosa, porque esses truques astutos têm menos espaço sob o exercício de maior severidade. Então mandou a máquina trabalhar com mais força do que antes, por causa de sua raiva com o engano que sofrera. Mas Castor e seus companheiros incendiaram a torre quando ela começou a ceder, e saltaram através das chamas para um esconderijo subterrâneo que havia embaixo dela. Isso fez os romanos acreditarem ainda mais que eram homens de grande coragem, por terem se lançado ao fogo.