A Guerra dos Judeus - Livro V 4
Livro V: Tito e o cerco de Jerusalém
A descrição de Jerusalém.
A cidade de Jerusalém era fortificada por três muralhas, nas partes que não eram cercadas por vales intransponíveis. Onde havia esses vales, ela tinha apenas uma muralha. A cidade foi construída sobre duas colinas opostas uma à outra, separadas por um vale. Nesse vale terminavam as fileiras de casas correspondentes das duas colinas. Dessas colinas, a que abriga a cidade alta é bem mais elevada e mais alongada. Por isso o rei Davi a chamou de cidadela. Ele foi o pai de Salomão, que ergueu este templo pela primeira vez. Mas nós a chamamos de mercado superior. A outra colina, chamada Acra, que sustenta a cidade baixa, tem o formato de uma lua crescente. Diante dela havia uma terceira colina, naturalmente mais baixa que Acra e, antes, separada da outra por um vale largo. No tempo em que os asmoneus reinaram, no entanto, eles aterraram esse vale com terra, com a intenção de ligar a cidade ao templo. Rebaixaram parte da altura de Acra, deixando-a menos elevada do que era antes, para que o templo a dominasse. O vale dos vendedores de queijo, como era chamado, separava a colina da cidade alta da colina da cidade baixa, como já dissemos, e se estendia até Siloé. Esse é o nome de uma fonte de água doce e muito abundante. Por fora, essas colinas eram cercadas por vales profundos. Por causa dos precipícios que tinham dos dois lados, eram intransponíveis em toda a sua extensão.
Dessas três muralhas, a mais antiga era difícil de tomar, por causa dos vales e da colina sobre a qual fora construída, acima deles. Mas, além dessa grande vantagem da posição, ela também era muito sólida, porque Davi, Salomão e os reis seguintes se empenharam muito nessa obra. Essa muralha começava ao norte, na torre chamada Hípico, e se estendia até o Xisto, um lugar assim chamado. Depois, ligando-se à casa do conselho, terminava no pórtico ocidental do templo. Indo para o lado oeste, começava no mesmo ponto e se estendia por um lugar chamado Betso até a porta dos essênios. Dali seguia para o sul, fazendo uma curva acima da fonte de Siloé, onde dobrava de novo para o leste, junto ao tanque de Salomão, e alcançava um lugar que eles chamavam de Ofla, onde se ligava ao pórtico oriental do templo. A segunda muralha tinha início na porta chamada Genat, que pertencia à primeira muralha. Ela cercava apenas o bairro norte da cidade e ia até a torre Antônia. A terceira muralha começava na torre Hípico. Dali alcançava o bairro norte da cidade e a torre Psefino, e seguia adiante até ficar de frente para os monumentos de Helena. Essa Helena era rainha de Adiabene, filha de Izates. A muralha então se estendia por grande distância, passava pelas cavernas sepulcrais dos reis, dobrava de novo na torre da esquina, junto ao monumento chamado monumento do pisoeiro, e se ligava à muralha antiga no vale chamado de Cedrom. Foi Agripa quem cercou com essa muralha as áreas acrescentadas à cidade antiga, que antes estavam todas desprotegidas. À medida que a cidade ficava mais populosa, ela aos poucos avançou para além de seus antigos limites. As partes que ficavam ao norte do templo, ligando aquela colina à cidade, a tornaram bem maior e levaram a que aquela colina, a quarta em número e chamada Bezeta, também fosse habitada. Ela fica diante da torre Antônia, mas é separada dela por um vale profundo, cavado de propósito. Isso para impedir que os alicerces da torre Antônia se ligassem a essa colina, o que daria acesso fácil a ela e tiraria a segurança vinda de sua maior elevação. Por essa razão, a profundidade da vala tornava ainda mais notável a altura das torres. Essa parte recém-construída da cidade era chamada de Bezeta em nossa língua, o que, traduzido para o grego, pode ser dito Cidade Nova. Como, então, seus moradores precisavam de proteção, o pai do atual rei, de mesmo nome, Agripa, começou a muralha de que falamos. Mas ele a interrompeu depois de lançar apenas os alicerces, por medo do imperador Cláudio, temendo que ele suspeitasse de que uma muralha tão forte estava sendo construída para promover alguma rebelião. A cidade não poderia de modo algum ter sido tomada se aquela muralha tivesse sido terminada como foi começada. Suas partes eram unidas por pedras de vinte côvados de comprimento e dez de largura, que jamais poderiam ser facilmente solapadas por ferramentas de ferro nem abaladas por máquinas. A muralha tinha dez côvados de largura, e provavelmente teria sido mais alta, se o empenho de quem a iniciou não tivesse sido impedido de se realizar. Depois disso, os judeus a ergueram com grande diligência até a altura de vinte côvados. Acima dela havia ameias de dois côvados e torreões de três côvados de altura, de modo que a altura total chegava a vinte e cinco côvados.
As torres sobre essa muralha tinham vinte côvados de largura e vinte côvados de altura. Eram quadradas e maciças, como a própria muralha. Nelas, a precisão das junções e a beleza das pedras não eram em nada inferiores às do próprio templo. Acima dessa altura maciça das torres, de vinte côvados, havia salas de grande magnificência. Sobre elas, salas superiores e cisternas para recolher água da chuva. Eram muitas, e as escadas pelas quais se subia a elas eram todas largas. Dessas torres, a terceira muralha tinha noventa, e os espaços entre elas eram de duzentos côvados cada um. A muralha do meio tinha quarenta torres, e a muralha antiga estava dividida em sessenta. O perímetro total da cidade era de trinta e três estádios. A terceira muralha era inteira admirável. Ainda assim, a torre Psefino se erguia acima dela, no canto noroeste, e ali Tito armou sua própria tenda. Com setenta côvados de altura, ela oferecia, ao nascer do sol, uma vista da Arábia, bem como dos limites mais distantes das possessões hebraicas no mar, a oeste. Além disso, era octogonal. Diante dela ficava a torre Hípico, e bem perto havia outras duas, erguidas pelo rei Herodes na muralha antiga. Em grandeza, beleza e força, superavam tudo o que existia na terra habitada. Pois, além da magnanimidade de sua natureza e de sua magnificência para com a cidade em outras ocasiões, ele as construiu de maneira tão extraordinária para satisfazer seus próprios afetos pessoais. Dedicou essas torres à memória das três pessoas que lhe foram mais caras, e delas lhes deu os nomes. Eram seu irmão, seu amigo e sua esposa. Essa esposa ele mandou matar, por amor [e ciúme], como já relatamos. Os outros dois ele perdeu na guerra, enquanto lutavam com coragem. A torre Hípico, assim chamada por causa de seu amigo, era quadrada. Seu comprimento e sua largura eram de vinte e cinco côvados cada, e sua altura, de trinta. Não havia nenhum vão em seu interior. Sobre essa construção maciça, feita de grandes pedras unidas entre si, havia um reservatório de vinte côvados de profundidade. Acima dele, uma casa de dois andares, com vinte e cinco côvados de altura, dividida em várias partes. Acima havia ameias de dois côvados e torreões em volta de três côvados de altura, de modo que a altura total somava oitenta côvados. A segunda torre, que ele nomeou em homenagem ao irmão Fasael, tinha largura e altura iguais, de quarenta côvados cada. Acima ficava sua parte maciça, de quarenta côvados. Sobre ela corria um pórtico em volta, de dez côvados de altura, protegido contra inimigos por parapeitos e baluartes. Sobre esse pórtico foi erguida outra torre, dividida em salas magníficas e em um local para banhos. Essa torre não carecia de nada que a fizesse parecer um palácio real. Era também adornada com ameias e torreões, mais do que a anterior. A altura total era de cerca de noventa côvados. Sua aparência lembrava a torre de Faros, que mostrava um fogo aos que navegavam para Alexandria, mas era bem maior em perímetro. Essa torre fora agora convertida em residência, onde Simão exercia sua autoridade tirânica. A terceira torre era a Mariane, pois esse era o nome de sua rainha. Era maciça até a altura de vinte côvados. Sua largura e seu comprimento eram de vinte côvados, iguais entre si. Suas construções superiores eram mais magníficas e tinham maior variedade do que as outras torres. Pois o rei achou mais conveniente adornar aquela que levava o nome de sua esposa melhor do que as que levavam nomes de homens, assim como estas eram construídas mais fortes do que a que tinha o nome da esposa. A altura total dessa torre era de cinquenta côvados.
Como essas torres eram tão altas, pareciam ainda mais altas pelo lugar onde estavam. Pois a muralha antiga em que se erguiam fora construída sobre uma colina alta, e essa colina era, ela mesma, uma elevação ainda trinta côvados mais alta. Sobre ela ficavam as torres, o que as tornava muito mais altas na aparência. O tamanho das pedras também era admirável. Pois não eram feitas de pedras pequenas comuns, nem apenas de pedras maiores que os homens pudessem carregar, mas de mármore branco, cortado da rocha. Cada pedra tinha vinte côvados de comprimento, dez de largura e cinco de espessura. Estavam tão perfeitamente unidas entre si que cada torre parecia uma única rocha inteira, crescida assim naturalmente, e depois cortada pelas mãos dos artesãos em sua forma e cantos atuais, de tão pouco ou nada que apareciam as junções e ligações. Como essas torres ficavam no lado norte da muralha, o rei tinha, ligado a elas por dentro, um palácio que excede toda a minha capacidade de descrever. Era tão primoroso que não lhe faltou despesa nem habilidade na construção. Tinha muros em toda a volta, com trinta côvados de altura, e era adornado por torres a distâncias iguais, e por grandes quartos de dormir, cada um capaz de conter camas para cem hóspedes. Neles, a variedade das pedras é indescritível. Pois reuniu-se uma grande quantidade das que eram raras desse tipo. Os tetos também eram admiráveis, tanto pelo comprimento das vigas quanto pelo esplendor dos ornamentos. O número de salas também era muito grande, e a variedade de figuras ao redor delas era prodigiosa. A mobília era completa, e a maior parte dos vasos colocados ali era de prata e ouro. Havia, além disso, muitos pórticos, um após o outro, em volta, e em cada um deles colunas primorosas. Todos os pátios expostos ao ar eram verdes por toda parte. Havia ainda vários bosques de árvores, com longos caminhos entre eles, com canais profundos e cisternas que, em várias partes, estavam cheias de estátuas de bronze, pelas quais a água escorria. Havia também muitos pombais de pombos domésticos junto aos canais. Mas não é possível dar uma descrição completa desses palácios, e a simples lembrança deles é um tormento, pois traz à mente que prédios tão imensamente ricos foram consumidos pelo fogo ateado pelos bandidos. Pois eles não foram queimados pelos romanos, mas por esses conspiradores internos, como já relatamos no início de sua rebelião. Esse fogo começou na torre Antônia, avançou até os palácios e consumiu as partes superiores das três torres.