A Guerra dos Judeus - Livro V 8
Livro V: Tito e o cerco de Jerusalém
Como os romanos tomaram o segundo muro duas vezes, e prepararam tudo para tomar o terceiro muro.
César tomou esse muro no quinto dia depois de ter tomado o primeiro. Quando os judeus fugiram dele, Tito entrou ali com mil homens armados e suas tropas de elite. Isso aconteceu no ponto em que ficavam os comerciantes de lã, os caldeireiros e o mercado de tecidos, onde as ruas estreitas levavam em diagonal até o muro. Por isso, se Tito tivesse demolido de imediato uma parte maior do muro, ou se tivesse entrado e, conforme a lei da guerra, arrasado o que restava, a vitória dele, eu suponho, não teria envolvido nenhuma perda para si mesmo. Mas, levado pela esperança de fazer os judeus se envergonharem da própria obstinação ao não querer afligi-los mais do que o necessário, mesmo podendo fazê-lo, ele não alargou a brecha do muro para garantir uma retirada mais segura caso fosse preciso. Tito não acreditava que armariam ciladas contra quem lhes fazia tamanha bondade. Por isso, ao entrar, não permitiu que seus soldados matassem nenhum dos que capturavam, nem que ateassem fogo às casas. Mais ainda, deu permissão aos sediciosos, se quisessem, para lutar sem causar dano ao povo, e prometeu devolver os bens à população. Ele desejava muito preservar a cidade por causa de si mesmo, e o templo por causa da cidade. Quanto ao povo, fazia tempo que estavam dispostos a aceitar suas propostas. Mas, quanto aos combatentes, essa humanidade pareceu a eles um sinal de fraqueza, e imaginaram que ele fazia tais propostas por não ser capaz de tomar o resto da cidade. Eles ameaçaram de morte qualquer um do povo que dissesse uma palavra sobre rendição. Além disso, degolaram os que falavam em paz e atacaram os romanos que tinham entrado dentro do muro. Encontraram alguns nas ruas estreitas e combateram outros a partir de suas casas, enquanto faziam uma investida repentina pelos portões superiores e assaltavam os romanos que estavam além do muro. Os que guardavam o muro ficaram tão apavorados que saltaram de suas torres e se retiraram para seus respectivos acampamentos. Com isso, houve grande alarido entre os romanos que estavam dentro, porque se viam cercados por inimigos de todos os lados, e também entre os que estavam fora, porque temiam pelos que tinham ficado na cidade. Assim os judeus se tornavam cada vez mais numerosos e levavam grande vantagem sobre os romanos pelo pleno conhecimento daquelas vielas estreitas. Feriram muitos deles, caíram sobre eles e os expulsaram da cidade. Esses romanos foram então forçados a resistir o melhor que podiam, pois não conseguiam sair em grande número pela brecha do muro, que era estreita demais. É provável também que todos os que tinham entrado teriam sido despedaçados, se Tito não lhes tivesse enviado socorro. Ele ordenou que os arqueiros se postassem nas extremidades superiores dessas vielas estreitas, e ele mesmo se posicionou onde havia a maior multidão de inimigos. Com seus dardos, conteve o avanço deles. Junto com ele estava também Domício Sabino, homem valente, e que naquela batalha mostrou ser assim. César continuou a disparar dardos contra os judeus sem parar, impedindo que avançassem sobre seus homens, até que todos os seus soldados tivessem se retirado da cidade.
Foi assim que os romanos foram expulsos depois de terem tomado o segundo muro. Diante disso, os combatentes que estavam na cidade se exaltaram e ficaram empolgados com esse êxito. Começaram a achar que os romanos jamais ousariam entrar na cidade de novo, e que, se eles próprios se mantivessem dentro dela, não voltariam a ser vencidos. Pois Deus tinha cegado a mente deles por causa das transgressões que haviam cometido. Eles não conseguiam ver o quanto as forças dos romanos eram maiores do que as que agora tinham sido expulsas, nem percebiam a fome que avançava sobre eles. Até então, tinham se alimentado das desgraças do povo e bebido o sangue da cidade. Mas agora, fazia tempo que a miséria se abatera sobre a parcela mais virtuosa da população, e muitos já haviam morrido por falta do necessário. Os sediciosos, no entanto, consideravam que a destruição do povo era um alívio para eles mesmos. Pois desejavam que ninguém fosse preservado, exceto os que se opunham à paz com os romanos e estavam decididos a viver lutando contra eles. Ficavam satisfeitos quando a multidão dos que pensavam de modo contrário era consumida, sentindo-se então livres de um peso pesado. Essa era a disposição de espírito deles em relação aos que estavam dentro da cidade. Ao mesmo tempo, cobriam-se com suas armas e barravam os romanos quando estes tentavam entrar de novo na cidade, formando uma muralha com os próprios corpos diante da parte do muro que tinha sido derrubada. Assim se defenderam com valentia durante três dias. Mas, no quarto dia, não conseguiram suportar os assaltos violentos de Tito e foram obrigados pela força a fugir para onde já tinham fugido antes. Então ele tomou tranquilamente de novo aquele muro e o demoliu por completo. Depois de instalar uma guarnição nas torres que ficavam nas partes sul da cidade, passou a planejar como assaltar o terceiro muro.