A Guerra dos Judeus - Livro V 1
Livro V: Tito e o cerco de Jerusalém
Sobre os revoltosos em Jerusalem e os sofrimentos terriveis que a cidade padeceu por causa deles.
Depois de atravessar o deserto que fica entre o Egito e a Síria, da maneira já descrita, Tito chegou a Cesareia. Ele havia decidido organizar suas tropas naquele lugar antes de iniciar a guerra. Enquanto ainda ajudava o pai em Alexandria a consolidar o governo que Deus acabara de lhes conferir, aconteceu que a revolta em Jerusalém ressurgiu e se dividiu em três facções, e uma facção lutava contra a outra. Em casos tão sombrios, essa divisão pode ser chamada de coisa boa, efeito da justiça divina. O ataque que os zelotes desferiram contra o povo, e que considero o início da destruição da cidade, já foi explicado com cuidado: como surgiu e até que ponto cresceu o estrago. Mas, quanto à presente revolta, não erraria quem a chamasse de revolta gerada por outra revolta, semelhante a uma fera enlouquecida que, por falta de alimento vindo de fora, passou a devorar a própria carne.
Eleazar, filho de Simão, que havia feito a primeira separação dos zelotes em relação ao povo e os obrigara a recolher-se ao Templo, mostrou-se muito irritado com os ataques insolentes que João movia todos os dias contra o povo. Esse homem nunca deixava de matar. Mas a verdade é que Eleazar não suportava submeter-se a um tirano que surgira depois dele. Por isso, desejoso de tomar para si todo o poder e domínio, separou-se de João e tomou como aliados Judas, filho de Quelcias, e Simão, filho de Esron, que estavam entre os homens mais poderosos. Estava também com ele Ezequias, filho de Cobar, pessoa de destaque. Cada um desses era seguido por um grande número de zelotes. Eles tomaram o pátio interno do Templo e depositaram suas armas sobre os portões sagrados e sobre as fachadas santas daquele pátio. Como tinham fartura de mantimentos, mantinham bom ânimo, pois havia grande abundância do que estava consagrado a usos sagrados, e não tinham escrúpulo em utilizá-lo. Mesmo assim, temiam por causa de seu número reduzido. Depois de guardar ali as armas, não se moviam do lugar em que estavam. Quanto a João, a vantagem que tinha sobre Eleazar no número de seguidores correspondia à desvantagem de sua posição, já que tinha os inimigos acima de sua cabeça. Ele não podia atacá-los sem algum risco, mas sua raiva era grande demais para deixá-los em paz. Embora sofresse de Eleazar e de seu grupo mais dano do que conseguia causar, não deixava de atacá-los. Por isso havia investidas contínuas de um contra o outro, além de dardos lançados de lado a lado, e o Templo ficava manchado de mortes por toda parte.
O tirano Simão, filho de Giora, a quem o povo havia convidado a entrar, na esperança de que ele os ajudasse nas grandes aflições em que estavam, tinha em seu poder a cidade alta e boa parte da cidade baixa. Agora ele desferia ataques ainda mais violentos contra João e seu grupo, porque estes também eram combatidos do alto. Ainda assim, Simão ficava abaixo da posição deles quando os atacava, assim como eles ficavam abaixo dos que os atacavam do alto. Disso resultava que João tanto recebia quanto causava grandes danos, e isso com facilidade, pois era combatido dos dois lados. A mesma vantagem que Eleazar e seu grupo tinham sobre ele, por estarem acima, ele tinha sobre Simão, por estar numa posição mais alta. Por isso, repelia com facilidade os ataques que vinham de baixo, apenas com as armas lançadas pelas mãos dos inimigos, mas era obrigado a repelir, com suas máquinas de guerra, os que lançavam dardos do Templo acima dele. Ele dispunha de máquinas que lançavam dardos, lanças e pedras em grande quantidade. Com elas não só se defendia dos que o combatiam, como também matava muitos dos sacerdotes enquanto realizavam seus serviços sagrados. Pois, apesar de aqueles homens estarem tomados por toda sorte de impiedade, mesmo assim admitiam os que queriam oferecer seus sacrifícios, embora tivessem o cuidado de revistar antes os de seu próprio povo, suspeitando deles e vigiando-os. Já não temiam tanto os estrangeiros, que, embora tivessem obtido permissão para entrar naquele pátio, por mais cruéis que fossem os líderes, muitas vezes eram mortos por essa revolta. Os dardos lançados pelas máquinas vinham com tanta força que passavam por cima de todos os edifícios e chegavam até o altar e o próprio Templo, caindo sobre os sacerdotes e sobre os que estavam nos serviços sagrados. Muitas pessoas que tinham vindo até ali com grande fervor, dos confins da terra, para oferecer sacrifícios naquele lugar célebre, considerado sagrado por toda a humanidade, caíam mortas diante de seus próprios sacrifícios e aspergiam com o próprio sangue aquele altar venerado por todos os homens, gregos e bárbaros. Os corpos dos estrangeiros se misturavam aos do próprio povo, e os de pessoas profanas aos dos sacerdotes, e o sangue de toda sorte de cadáveres formava lagos nos próprios pátios santos. "Ó cidade infeliz, que sofrimento tão grande como este você suportou dos romanos, quando vieram purificá-la de seu ódio interno? Você já não podia ser lugar digno de Deus, nem podia continuar existindo por muito tempo, depois de ter sido sepulcro dos corpos de seu próprio povo e de ter feito da própria casa santa um cemitério nesta sua guerra civil. Ainda assim, você poderá melhorar de novo, se talvez vier a aplacar a ira daquele Deus que é o autor de sua destruição." Mas preciso conter-me diante dessas emoções, pelas regras da história, pois este não é o momento para lamentos pessoais, e sim para narrativa histórica. Volto, então, aos acontecimentos que se seguem nesta revolta.
Havia, então, três facções traiçoeiras na cidade, separadas umas das outras. Eleazar e seu grupo, que guardavam as primícias sagradas, atacavam João em meio à bebedeira. Os que estavam com João saqueavam a população e investiam com fúria contra Simão. Esse Simão obtinha seus mantimentos da cidade, em oposição aos revoltosos. Por isso, quando João era atacado dos dois lados, fazia seus homens girarem: lançava dardos contra os cidadãos que avançavam contra ele, a partir dos pórticos que ocupava, ao mesmo tempo que enfrentava com suas máquinas de guerra os que o atacavam do Templo. E sempre que se via livre dos que estavam acima dele, o que acontecia com frequência, por estarem eles bêbados e cansados, ele saía com um grande número de homens contra Simão e seu grupo. Fazia isso sempre nas partes da cidade que conseguia alcançar, até que ateou fogo às casas cheias de trigo e de toda sorte de provisões. O mesmo fez Simão quando, com a retirada dos outros, atacou também a cidade. Era como se tivessem feito de propósito para servir aos romanos, destruindo o que a cidade havia armazenado contra o cerco e assim cortando os próprios nervos de seu poder. Assim aconteceu que todos os lugares ao redor do Templo foram queimados e se tornaram um espaço deserto entre as facções, pronto para o combate dos dois lados. Quase todo o trigo foi queimado, embora tivesse sido suficiente para um cerco de muitos anos. Foi por isso que acabaram vencidos pela fome, o que seria impossível se eles próprios não tivessem aberto o caminho para isso com esse comportamento.
Como a cidade estava envolvida em guerra por todos os lados, por causa dessas multidões traiçoeiras de homens perversos, o povo da cidade, no meio deles, era como um grande corpo despedaçado. Os idosos e as mulheres estavam em tal aflição com as calamidades internas que desejavam a chegada dos romanos e esperavam ansiosos por uma guerra externa, que os livrasse das misérias domésticas. Os próprios cidadãos viviam num pavor e num terror enormes. Não tinham nenhuma oportunidade de deliberar e de mudar de conduta. Não havia esperança de chegar a um acordo com os inimigos, e quem quisesse fugir não conseguia, pois havia guardas postados em todos os lugares. Os chefes dos bandidos, embora estivessem em conflito uns com os outros em outros aspectos, concordavam em matar os que defendiam a paz com os romanos ou os que eram suspeitos de inclinação a desertar para eles, tratando-os como inimigos comuns. Em nada concordavam, a não ser nisto: matar os inocentes. O barulho dos que combatiam era incessante, de dia e de noite, mas os lamentos dos que choravam superavam tudo. Nunca havia motivo para que parassem de lamentar, porque as calamidades vinham sem parar, uma após a outra, ainda que o pavor profundo em que viviam impedisse o pranto aberto. Forçados pelo medo a esconder o que sentiam por dentro, eram atormentados intimamente, sem ousar abrir os lábios para gemer. Não se prestava qualquer atenção aos que ainda estavam vivos por parte de seus parentes, nem se cuidava do enterro dos mortos. A causa de ambas as coisas era que cada um desesperava de si mesmo. Os que não estavam entre os revoltosos não tinham grandes desejos de nada, pois esperavam com certeza ser destruídos muito em breve. Já os revoltosos lutavam entre si pisando os cadáveres amontoados uns sobre os outros, e, tomando uma raiva insana daqueles corpos sob seus pés, ficavam ainda mais ferozes por causa disso. Além disso, ainda inventavam algo de pernicioso contra si mesmos. E, uma vez decididos a algo, executavam sem piedade e não deixavam de usar nenhum método de tortura ou de barbárie. João chegou a profanar os materiais sagrados, empregando-os na construção de suas máquinas de guerra. O povo e os sacerdotes haviam decidido antes reforçar o Templo e elevar a casa santa em vinte côvados. O rei Agripa, com enorme despesa e muito esforço, havia trazido até ali os materiais próprios para essa finalidade, peças de madeira que valia a pena ver, tanto pela retidão quanto pelo tamanho. Mas, com a chegada da guerra e a interrupção da obra, João mandou cortá-las e prepará-las para construir torres, achando-as compridas o bastante para, delas, enfrentar os adversários que o combatiam do Templo acima dele. Mandou trazê-las e erguê-las atrás do pátio interno, em frente ao lado oeste dos pórticos, único lugar onde podia erguê-las, pois os outros lados daquele pátio tinham tantos degraus que não permitiam chegar perto o bastante dos pórticos.
João esperava, assim, levar a melhor sobre os inimigos com essas máquinas construídas por sua impiedade. Mas o próprio Deus mostrou que aquele esforço não lhe serviria de nada, trazendo os romanos sobre ele antes que tivesse erguido qualquer de suas torres. Tito, depois de reunir parte de suas forças ao redor de si e de ordenar que o restante o encontrasse em Jerusalém, partiu de Cesareia. Levava consigo aquelas três legiões que haviam acompanhado seu pai quando ele devastou a Judeia, junto com a décima segunda legião, que antes havia sido derrotada com Cestio. Essa legião, além de notável por seu valor, marchava agora com maior empenho para vingar-se dos judeus, lembrando o que havia sofrido deles antes. Dessas legiões, Tito ordenou que a quinta o encontrasse passando por Emaús, e que a décima subisse por Jericó. Ele próprio também avançou, com o restante. Além dessas, marchavam as tropas auxiliares vindas dos reis, agora em maior número do que antes, junto com um contingente considerável que veio em seu auxílio da Síria. Os que haviam sido selecionados dessas quatro legiões e enviados com Múcio à Itália tiveram suas vagas preenchidas pelos soldados que vieram do Egito com Tito, dois mil homens escolhidos entre os exércitos de Alexandria. Seguiam-no também três mil homens tirados dos que guardavam o rio Eufrates. Veio ainda Tibério Alexandre, que era amigo dele, muito valioso tanto pela boa vontade quanto pela prudência. Antes havia sido governador de Alexandria, mas agora foi considerado digno de ser general do exército [sob Tito]. A razão disso era que ele havia sido o primeiro a encorajar Vespasiano, pouco antes, a aceitar esse seu novo domínio, e a ele se uniu com grande fidelidade quando as coisas estavam incertas e a fortuna ainda não se declarara a seu favor. Ele acompanhou Tito como conselheiro, muito útil nesta guerra, tanto por sua idade quanto por sua experiência nesses assuntos.