Capítulos

Cartas - Livro III
Retratos de homens ilustres, processos no senado e reflexões sobre a vida literária
Sobre a obra
As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e mais tarde governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, poliu e publicou. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.
Este é o Livro III, com 21 cartas, do período em que Plínio já tinha sido cônsul, por volta do ano 100. A datação exata da publicação é debatida; a estimativa mais comum agrupa os três primeiros livros na virada do século I para o II.
Retratos de homens ilustres
Boa parte do livro são vidas em miniatura. A carta 1 descreve o dia inteiro de Vestrício Espurina na velhice, hora a hora, como modelo de vida ordenada. A carta 5 lista, em ordem de composição, todas as obras do tio do autor, Plínio, o Velho, e é a fonte antiga que melhor documenta a produção do naturalista, da qual só sobreviveu a História Natural. A carta 7 relata a morte do poeta Sílio Itálico, que deixou de comer por causa de um tumor incurável, e a carta 21 registra a morte de Marcial, e é o testemunho contemporâneo que sobreviveu sobre o fim do epigramista.
Vidas em miniatura
- O dia ordenado de Vestrício Espurina na velhice — (Cartas - Livro III 1:1)
- O catálogo das obras de Plínio, o Velho, em ordem de composição — (Cartas - Livro III 5:1-3)
- Sílio Itálico deixa de comer para escapar de um tumor — (Cartas - Livro III 7:1-2)
- A morte de Marcial e a ajuda de viagem que Plínio lhe dera — (Cartas - Livro III 21:1-2)
- Árria, que escondeu do marido doente a morte do filho — (Cartas - Livro III 16:1-2)
Processos, senado e voto secreto
A carta 9 narra por completo a acusação movida pela província da Bética contra o procônsul Cecílio Clássico, e é uma das exposições mais longas de um processo de extorsão que sobreviveram da Antiguidade. A carta 20 registra a adoção do voto secreto nas eleições do senado e mede o entusiasmo com ceticismo: a mudança tirou o tumulto, mas Plínio não garante que tenha melhorado o eleitor.
Cartas da vida pública
- A província da Bética contra Cecílio Clássico — (Cartas - Livro III 9:1-4)
- O senado adota a cédula secreta nas eleições — (Cartas - Livro III 20:1-4)
- O discurso de agradecimento a Trajano, ampliado em livro — (Cartas - Livro III 18:1)
- O tribunato transferido a pedido de Suetônio — (Cartas - Livro III 8:1)
A lembrança do terror e a violência doméstica
A carta 11 é a mais dura do livro. Ao falar do filósofo Artemidoro, Plínio lembra a expulsão dos filósofos de Roma sob Domiciano e enumera os amigos que perdeu: Seneção, Rústico e Helvídio mortos, Maurico, Gratila, Árria e Fânia banidos. Diz que socorreu Artemidoro com dinheiro quando isso era perigoso, e recusa a fama que o filósofo lhe atribui, afirmando que apenas escapou da vergonha.
A carta 14 conta que Lárcio Macedo, senhor cruel e filho de um antigo escravo, foi atacado no banho pelos próprios escravos e morreu dos ferimentos. Plínio comenta o episódio como prova do risco permanente em que vivia um senhor romano, e o texto é usado hoje como documento da violência estrutural da escravidão doméstica.
Cartas do medo e do castigo
- Os filósofos expulsos e os sete amigos mortos ou banidos — (Cartas - Livro III 11:2-3)
- Lárcio Macedo atacado pelos próprios escravos — (Cartas - Livro III 14:1-2)
Relevância para o leitor cristão
O Livro III não menciona cristãos. Seu interesse é o do pano de fundo: mostra o mundo social e jurídico em que as primeiras comunidades cristãs viviam, na geração em que a crítica majoritária situa os últimos escritos do Novo Testamento. Vale registrar um traço que reaparece depois. A carta 11 mostra o poder imperial expulsando filósofos e punindo a firmeza de convicção como se fosse insubordinação. Uma década mais tarde, no Livro X, o mesmo autor manda executar cristãos alegando que a obstinação já merecia castigo. O reflexo é o mesmo, aplicado a outro grupo.