Cartas - Livro III 6

Retratos de homens ilustres, processos no senado e reflexões sobre a vida literária

Caio Plínio a seu caro Ânio Severo, saudações.

De uma herança que me coube, comprei pouco uma estátua de Corinto, modesta, é verdade, mas graciosa e bem trabalhada, tanto quanto entendo, eu que talvez entenda pouquíssimo de tudo, e desta coisa com certeza muito pouco; mas mesmo eu entendo desta estátua.
Pois ela é nua, e não esconde os defeitos, se algum, nem deixa de mostrar as qualidades. Representa um velho de pé; os ossos, os músculos, os tendões, as veias, até as rugas aparecem como de alguém que respira; os cabelos ralos e recuados, a fronte larga, o rosto franzido, o pescoço fino; os braços pendem, os mamilos caídos, o ventre encolhido;
também por trás se a mesma idade, na medida em que se pode ver por trás. O próprio bronze, tanto quanto a cor verdadeira indica, é velho e antigo; tudo enfim de tal modo que pode prender os olhos dos artistas e deleitar os dos leigos.
O que me levou, embora principiante, a comprá-la. Comprei-a, mas, não para tê-la em casa, pois ainda não tenho em casa nenhuma peça de Corinto, mas para colocá-la na nossa terra, em lugar movimentado, e de preferência no templo de Júpiter;
pois ela me parece um presente digno do templo, digno do deus. Você, então, como costuma fazer com tudo o que lhe encarrego, assuma este cuidado e mande fazer uma base, do mármore que quiser, que leve o meu nome e os meus títulos, se você achar que estes também devem ser acrescentados.
Quanto à estátua, assim que encontrar alguém que não se incomode, eu a envio, ou eu mesmo a levo comigo, o que você prefere. Pois pretendo, se a obrigação do cargo permitir, ir até aí.
Você se alegra porque prometo ir, mas vai franzir a testa quando eu acrescentar 'por poucos dias': pois estes mesmos assuntos que ainda não me deixam sair também não me deixam ficar fora por mais tempo. Adeus.