Capítulos

Um rolo de papiro parcialmente desenrolado, lacrado com selo de cera vermelha, ao lado de um anel de sinete e um tinteiro

Cartas - Livro I

As primeiras cartas literárias publicadas: retórica, amizade e a vida pública e privada de um senador romano

Sobre a obra

As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e mais tarde governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, poliu e publicou. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.

Este é o Livro I, com 24 cartas. Elas retratam os anos que vão do fim do reinado de Domiciano ao início do de Trajano. A datação da publicação é debatida: a estimativa mais comum situa os três primeiros livros entre o fim do século I e os primeiros anos do século II, provavelmente lançados em grupos, e não um por vez.

A carta que abre a coleção

A primeira carta é uma dedicatória a Septício Claro e funciona como prefácio do conjunto. Plínio afirma que reuniu as cartas escritas com mais cuidado e que não seguiu ordem cronológica, porque não estava compondo uma obra de história, mas juntando cada uma conforme lhe caía nas mãos. É uma declaração de método importante: o leitor tem em mãos uma seleção literária, organizada por efeito, não um arquivo pessoal.

(Cartas - Livro I 1:1-2)

Retórica, publicação e vida literária

Boa parte do livro trata do ofício da palavra: discursos enviados a amigos para correção, recitações públicas, o julgamento do estilo alheio. A carta 20, endereçada a Cornélio Tácito, é uma discussão longa sobre se um discurso ganha ou perde ao ser encurtado, e mostra os dois homens como interlocutores literários de peso.

Cartas sobre oratória e estudos

A memória do reinado de Domiciano

Plínio escreve depois da morte de Domiciano, e o medo recente aparece com frequência. A carta 5 é o retrato de Marco Régulo, delator que prosperou acusando senadores e que, morto o imperador, tenta descobrir se Plínio guarda rancor. A carta 12 relata a morte voluntária de Corélio Rufo, que deixou de comer para acabar com uma doença longa, e diz que ele resistiu enquanto Domiciano vivia para não morrer antes do tirano.

Cartas do rescaldo político

Amizade, patrocínio e vida privada

O outro polo do livro é doméstico e social. Plínio caça javali com tabuinhas de escrever nas mãos e conta o episódio a Tácito. Reclama, a Minício Fundano, de que os dias na cidade parecem necessários um a um e vazios em conjunto. Cobra de um amigo o jantar prometido e não comparecido. E se retrata, carta após carta, no papel de patrono: procura marido para a sobrinha de Júnio Maurico, completa o censo equestre de um conterrâneo e intermedeia a compra de um terreno para Suetônio, o futuro biógrafo dos Césares. Vale lembrar que é ele quem narra e quem escolheu o que entra: o patrono generoso dessas páginas é o autorretrato de Plínio, não um relato de terceiros.

Cartas do cotidiano e da rede de favores

Relevância para o leitor cristão

O Livro I não menciona cristãos e não trata de religião judaica ou cristã. Seu valor é outro: mostra por dentro a sociedade em que as primeiras comunidades cristãs viviam, na geração em que a crítica majoritária situa os últimos textos do Novo Testamento. Aqui estão a rede de favores entre patronos e clientes, o peso do processo judicial, o culto à reputação, o rastro deixado pelos delatores do reinado anterior e a naturalidade com que a escravidão organiza a casa.

A ponte direta com o cristianismo está no Livro X, escrito uma década depois, quando o mesmo autor, já governador da Bitínia-Ponto, escreve a Trajano perguntando como julgar cristãos. Ler o Livro I antes ajuda a entender o tom daquela carta: o homem que interroga cristãos é o mesmo que aqui pesa discursos, heranças e amizades com cuidado de administrador.

(Cartas - Livro X 96:1-10)