Cartas - Livro I 23
As primeiras cartas literárias publicadas: retórica, amizade e a vida pública e privada de um senador romano
Caio Plínio ao seu Pompeu Falcão, saudações.
Você me consulta se acho que, sendo tribuno, você deve advogar causas. Importa muito o que você considera ser o tribunato: uma sombra vazia e um nome sem dignidade, ou um poder sacrossanto que a ninguém convém rebaixar à condição comum, nem mesmo a si próprio.
Eu mesmo, quando fui tribuno, talvez tenha errado por me julgar alguma coisa, mas, como se fosse, abstive-me de advogar causas: primeiro, porque achava indecoroso que aquele diante de quem todos devem levantar-se e ceder o lugar ficasse de pé enquanto todos estavam sentados; e que aquele que podia mandar calar qualquer um tivesse o silêncio imposto por uma clepsidra; e que aquele a quem era proibido interromper tivesse de ouvir até insultos e, se os tolerasse impunes, parecesse covarde, e, se os vingasse, parecesse insolente.
Tinha ainda diante dos olhos este embaraço: se por acaso me apelasse ou aquele a quem eu assistia, ou aquele contra quem eu falava, deveria eu interceder e prestar auxílio, ou ficar quieto e calado e, como que renunciando à magistratura, reduzir-me a simples particular?
Movido por essas razões, preferi mostrar-me tribuno a todos do que advogado a poucos.
Mas você (repito) importa muito o que considera ser o tribunato e que papel se impõe; o qual deve ser ajustado ao homem sábio de modo que ele o leve até o fim. Adeus.