Cartas - Livro I 8

As primeiras cartas literárias publicadas: retórica, amizade e a vida pública e privada de um senador romano

Caio Plínio a seu Pompeu Saturnino, saudações.

Sua carta chegou em momento muito oportuno: nela você me pedia que eu lhe enviasse algo dos meus escritos, justo quando eu tinha decidido fazer isso. Você esporeou, então, um cavalo que corria por conta própria, e ao mesmo tempo tirou de você a chance de recusar o trabalho e de mim a vergonha de exigi-lo.
Pois não me cabe usar com timidez o que me foi oferecido, nem a você reclamar do que pediu. Mesmo assim, não espere nenhuma obra nova de um homem indolente. Vou pedir que você dedique de novo o seu tempo ao discurso que pronunciei diante dos meus concidadãos quando dediquei a biblioteca.
Lembro que você anotou algumas coisas, mas em termos gerais; por isso peço agora que não atente para o conjunto, mas também passe a sua lima, como costuma fazer, pelos detalhes. Pois, mesmo depois da revisão, vamos ficar livres para publicá-lo ou guardá-lo.
Aliás, talvez seja a própria revisão que resolva esta minha hesitação num sentido ou no outro: ou ela vai mostrar que o texto é indigno de publicação, ao revisá-lo muitas vezes, ou vai torná-lo digno, ao fazer justamente isso.
Embora as causas desta minha hesitação não estejam tanto no que está escrito quanto no próprio tipo de assunto: ele é meio jactancioso e altivo demais. Isto vai pesar sobre a minha modéstia, ainda que o estilo em si seja contido e discreto, porque sou obrigado a falar tanto da generosidade dos meus pais quanto da minha.
É um terreno arriscado e escorregadio, mesmo quando a necessidade o favorece. Pois, se até os elogios alheios costumam ser ouvidos com pouca paciência, como é difícil conseguir que não pareça enfadonho o discurso de quem fala de si ou dos seus! É que invejamos não a honra em si, mas ainda mais a sua fama e o seu anúncio, e não distorcemos nem criticamos as boas ações que ficam na obscuridade e no silêncio.
Por isso muitas vezes pergunto a mim mesmo se compus isto, seja o que for, apenas para mim ou também para os outros. Que foi para mim, lembra-me o fato de que muitas coisas necessárias para realizar um propósito, uma vez cumprido esse propósito, perdem tanto a utilidade quanto o encanto.
E, para não buscar exemplos muito distantes, o que foi mais útil do que registrar por escrito também as razões da minha generosidade? Por meio disso eu conseguia, primeiro, demorar-me em pensamentos honestos; depois, perceber a beleza deles num exame mais longo; e, por fim, evitar o arrependimento que costuma acompanhar uma doação repentina. Disso nascia um certo exercício de desprezar o dinheiro.
Pois, enquanto a natureza prende todos os homens a guardá-lo, a mim, ao contrário, um amor à generosidade refletido por muito tempo me libertava dos grilhões comuns da avareza, e a minha generosidade parecia tanto mais louvável por eu ser levado a ela não por algum impulso, mas por reflexão.
A isso somava-se o fato de eu prometer não jogos ou gladiadores, mas uma quantia anual para a manutenção de crianças nascidas livres. Os prazeres dos olhos e dos ouvidos, aliás, tão pouco precisam de recomendação que devem ser mais contidos do que estimulados pelo discurso;
mas, para que alguém aceite de bom grado o tédio e o trabalho da educação, é preciso conquistá-lo não com recompensas, mas também com exortações bem escolhidas.
Pois, se os médicos acompanham com palavras mais agradáveis os alimentos saudáveis mas sem sabor, quanto mais convinha que quem cuida do bem público recomendasse, com a gentileza do discurso, uma medida utilíssima mas pouco popular? Sobretudo porque tínhamos de nos empenhar para que aquilo que se dava aos pais fosse aprovado também pelos que não têm filhos, e os demais esperassem com paciência e merecessem o privilégio concedido a poucos.
Mas, assim como naquele momento eu visava mais ao bem comum do que à vaidade própria, querendo que se compreendesse a intenção e o efeito da minha medida, agora, na hora de publicar, receio que talvez se pense que servi não à utilidade dos outros, mas ao meu próprio elogio.
Além disso, lembro-me de quanto é melhor depositar o fruto da honra na consciência do que na fama. Pois a glória deve seguir, não ser buscada, e, se por algum acaso ela não seguir, nem por isso é menos belo o que mereceu a glória.
os que enfeitam com palavras as próprias boas ações são tidos como tendo agido não porque as anunciam, mas para poder anunciá-las. Assim, o que seria magnífico se contado por outro perde o brilho quando o próprio autor o narra; pois os homens, quando não conseguem destruir o feito, atacam a sua ostentação. De modo que, se você fizer o que devia ser calado, é o feito em si que é culpado; se não calar o que merecia louvor, você mesmo é culpado.
A mim, no entanto, prende-me uma razão particular. É que pronunciei este mesmo discurso não diante do povo, mas diante dos decuriões, não em praça aberta, mas na cúria.
Receio então que não seja muito coerente, depois de eu ter evitado, ao falar, a bajulação e os aplausos da multidão, agora buscar essas mesmas coisas com a publicação; e, depois de ter afastado o próprio povo, a quem eu servia, do limiar e das paredes da cúria, para não dar impressão de demagogia, agora ir atrás justamente daqueles a quem nada toca do meu benefício além do exemplo, como que numa ostentação descarada.
Você conhece as causas da minha hesitação; mesmo assim, vou seguir o seu conselho, cuja autoridade me basta como razão. Adeus.