Cartas - Livro I 18

As primeiras cartas literárias publicadas: retórica, amizade e a vida pública e privada de um senador romano

Caio Plínio ao seu Suetônio Tranquilo, saudações.

Você escreve que, apavorado por um sonho, teme sofrer algum revés na causa; pede que eu solicite um adiamento e que desculpe sua ausência por uns poucos dias, ou ao menos pelo próximo. É difícil, mas vou tentar, pois também o sonho vem de Zeus.
Importa, contudo, saber se você costuma sonhar com o que vai acontecer ou com o contrário. Pensando bem nesse seu sonho que você teme, parece-me que ele anuncia uma atuação excelente.
Eu havia assumido a causa de Júnio Pastor, quando, dormindo, vi minha sogra lançar-se aos meus joelhos suplicando que eu não a defendesse; e eu estava prestes a atuar, ainda muito jovem, num tribunal de quatro seções, contra os homens mais poderosos da cidade e até amigos de César; cada uma dessas coisas, por si só, poderia abalar minha decisão depois de um sonho tão funesto.
Atuei, mesmo assim, raciocinando aquilo: um presságio é o melhor, lutar pela pátria. Pois a pátria, e qualquer coisa mais cara que a pátria, parecia-me ser a palavra dada. Tudo correu bem, e foi aquela atuação que me abriu os ouvidos dos homens e a porta da fama.
Por isso, examine se você também, seguindo este exemplo, não pode tornar esse sonho favorável; ou, se considera mais seguro aquele preceito dos mais cautelosos, 'no que duvidares, não faças', responda nesse sentido.
Eu inventarei algum artifício e defenderei a sua causa, de modo que você possa apresentá-la quando quiser. Pois a sua situação é bem outra do que foi a minha. O julgamento dos centúnviros não pode de modo algum ser adiado; o seu, com dificuldade, é verdade, mas pode. Adeus.