Capítulos

Metafísica - Livro XI

A Obra e o Autor

A Metafísica de Aristóteles (384 a 322 a.C.) é uma coleção de quatorze tratados reunidos por editores posteriores, não um livro único. A tradição atribui a compilação a Andrônico de Rodes, por volta do século I a.C., mas esse ponto é debatido entre os estudiosos. O título Metafísicasignifica apenas "depois da Física" (em grego ta meta ta physika) e provavelmente registra a posição dos textos na lista de obras. Cada livro é identificado por uma letra grega; o Livro XI é o Kappa. A tradução usada aqui segue a versão inglesa de W. D. Ross, de 1908, com a numeração de passagens segundo a paginação de Bekker.

O Livro XI na Obra

O Livro XI (Kappa) é um livro de retomada. Os capítulos 1 a 8 reapresentam, de forma mais curta e por vezes mais seca, o conteúdo de três livros anteriores: as aporias do Livro III (Beta), a ciência do ser enquanto ser e a defesa do princípio de não contradição do Livro IV (Gama) e a divisão das ciências do Livro VI (Épsilon). Os capítulos 9 a 12 mudam de assunto e tratam de temas tipicamente físicos: a natureza do movimento, o infinito, a mudança e os conceitos de contato, sucessão e continuidade. Por causa dessa estrutura dupla, o Livro XI é o mais controverso da coleção quanto à sua autenticidade e ao seu lugar na obra.

A Controvérsia sobre a Autenticidade

O lugar do Livro XI na Metafísica é objeto de debate entre os estudiosos. Os capítulos 1 a 8 são, em boa parte, versões resumidas dos Livros III, IV e VI, e os capítulos 9 a 12 correspondem de perto a passagens da Física de Aristóteles, em especial dos livros sobre o movimento e o infinito, ao ponto de parecerem excertos ou paráfrases desse texto. Diante disso, parte dos comentadores questiona se o livro foi escrito pelo próprio Aristóteles como tratado independente, se reúne notas preparatórias dele reaproveitadas por um editor, ou se é uma compilação feita por um discípulo a partir de outras obras. Não há consenso. Alguns estudiosos defendem a autoria aristotélica dos capítulos 1 a 8 e tratam os capítulos 9 a 12 como acréscimo posterior; outros consideram o livro inteiro de origem incerta. A própria questão de por que um resumo desses livros foi incluído na coleção, ao lado dos textos que ele resume, permanece em aberto.

Conteúdo do Livro

Relação com os Outros Livros

Para o leitor, o Livro XI funciona como uma recapitulação. Quem leu os Livros III, IV e VI reconhece nos capítulos 1 a 8 os mesmos problemas tratados de forma mais condensada, o que pode servir de revisão, mas também levanta a suspeita de redundância que alimenta o debate sobre a autenticidade. Os capítulos 9 a 12 oferecem, em contrapartida, um resumo conciso de teses centrais da física aristotélica: a definição do movimento como o ato do que está em potência enquanto está em potência, a tese de que o infinito existe apenas em potência e nunca como uma coisa atual separada, e a classificação das espécies de mudança. Esse material conecta a Metafísica à Física e prepara, em certa medida, a discussão sobre a substância eterna e o Motor Imóvel que vem no Livro XII.

Transmissão e Texto

O texto grego sobreviveu por manuscritos medievais, em duas famílias principais que divergem em pontos do texto. A obra circulou no mundo árabe, com Avicena e Averróis, e foi traduzida para o latim no século XIII. As dúvidas sobre o Livro XI são antigas e foram registradas pelos comentadores ao longo da história da recepção da Metafísica. Como nos demais tratados aristotélicos, o texto tem caráter de notas densas e elípticas, o que torna ainda mais difícil decidir, só pela leitura, se um trecho é redação acabada do próprio Aristóteles ou material reaproveitado.

Influência no Pensamento Cristão

O Livro XI é um livro de retomada, e sua importância para o pensamento cristão vem menos de uma tese própria do que de tudo o que ele reúne e prepara. Ao recapitular as aporias da filosofia primeira, a ciência do ser enquanto ser, a defesa do princípio de não contradição e a divisão das ciências teóricas que culmina na teologia, Kappa volta a apresentar o arcabouço inteiro que a escolástica medieval recebeu da Metafísica. Foi esse conjunto, e não um capítulo isolado, que Tomás de Aquino e os comentadores cristãos absorveram quando a obra chegou ao Ocidente latino no século XIII, depois de longa circulação no mundo árabe com Avicena e Averróis. A defesa do princípio de não contradição, em particular, tornou-se ponto de apoio da lógica e da teologia cristãs, e a afirmação de que a teologia é a mais alta das ciências teóricas foi lida com simpatia por uma tradição que via na metafísica uma serva da fé.

Relevância para o Cristão de Hoje

Justamente por ser uma síntese, o Livro XI é uma boa porta de entrada para ver de relance o que o cristão herdou da metafísica aristotélica: a confiança em primeiros princípios firmes como o da não contradição, a ideia de uma ciência do ser que desemboca em Deus e a hierarquia dos saberes que coloca a teologia no topo. Convém manter a honestidade habitual: Aristóteles era um pagão do século IV a.C., e a escolástica fez dele um uso seletivo, adaptando seus conceitos à revelação. O Livro XI não dita nenhuma doutrina cristã; ele oferece um mapa condensado do material filosófico que a fé, depois, transformou em ferramenta a seu serviço.