Metafísica - Livro XI 7

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

As três ciências teóricas: física, matemática e teologia, e por que a teologia é a mais alta

Toda ciência procura certos princípios e causas para cada um dos seus objetos. A medicina e a ginástica, por exemplo, fazem isso, e o mesmo vale para todas as outras ciências, sejam elas voltadas para produzir coisas, sejam matemáticas. Cada uma delas separa para si uma certa classe de coisas e se ocupa dessa classe como de algo que existe e é real, mas não a estuda enquanto real. Quem estuda as coisas exatamente enquanto reais é outra ciência, distinta de todas essas.
Cada uma das ciências que mencionei capta de algum jeito o "o que é" dentro de uma certa classe de coisas e, a partir daí, tenta provar as demais verdades, com mais ou menos precisão. Algumas chegam a esse "o que é" pela percepção dos sentidos, outras adotam esse ponto de partida como suposição. Fica claro, por esse tipo de exame, que não demonstração da substância nem do "o que é" da coisa: esse ponto de partida cada ciência simplesmente assume.
Existe uma ciência da natureza, e é evidente que ela tem de ser diferente tanto da ciência prática quanto da ciência produtiva. No caso da ciência produtiva, o princípio do movimento está em quem produz, não no produto, e esse princípio é uma arte (technē, o saber fazer) ou alguma outra capacidade. Do mesmo modo, na ciência prática o movimento não está na coisa feita, mas em quem age.
a ciência do estudioso da natureza trata das coisas que têm em si mesmas um princípio de movimento. Por esses fatos fica claro que a ciência da natureza não pode ser nem prática nem produtiva, e sim teórica, que ela precisa cair em uma dessas três classes.
E como cada uma das ciências tem de conhecer de algum modo o "o que é" e usar isso como princípio, não devemos deixar de observar como o estudioso da natureza deve definir as coisas e como ele deve enunciar a definição da essência. A pergunta é se essa definição se parece com a de "nariz arrebitado" ou antes com a de "côncavo".
Dessas duas, a definição de "arrebitado" inclui a matéria da coisa, mas a de "côncavo" não depende da matéria. O arrebitado se encontra num nariz, de modo que buscamos sua definição sem eliminar o nariz, pois o que é arrebitado é um nariz côncavo. Fica claro, então, que a definição da carne, do olho e das outras partes do corpo também precisa sempre ser enunciada sem eliminar a matéria.
Existe uma ciência do ser enquanto ser, capaz de existir separado. Por isso temos de examinar se ela deve ser considerada a mesma coisa que a física ou antes algo diferente. A física trata das coisas que têm em si mesmas um princípio de movimento. A matemática é teórica e trata de coisas que estão em repouso, mas seus objetos não conseguem existir separados das coisas.
Portanto, sobre aquilo que pode existir separado e é imóvel, uma ciência diferente dessas duas, contanto que exista uma substância dessa natureza, ou seja, separável e imóvel, como tentaremos provar que existe. E se existe no mundo algo desse tipo, é justamente que estará o divino, e isso tem de ser o primeiro e mais dominante princípio.
Fica evidente, então, que existem três tipos de ciências teóricas: a física, a matemática e a teologia. A classe das ciências teóricas é a melhor de todas, e dentre elas a própria teologia é a melhor, pois trata da mais alta das coisas que existem. Cada ciência é chamada de melhor ou pior conforme o objeto próprio de que trata.
para levantar ainda a questão de saber se a ciência do ser enquanto ser deve ou não ser considerada universal. Cada uma das ciências matemáticas trata de uma única classe determinada de coisas, mas a matemática universal se aplica igualmente a todas elas.
Ora, se as substâncias naturais forem as primeiras das coisas que existem, então a física terá de ser a primeira das ciências. Mas se existe uma outra entidade e substância, separável e imóvel, o conhecimento dela tem de ser diferente da física e anterior a ela, e universal justamente por ser anterior.