Metafísica - Livro XI 3

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

Uma só ciência do ser enquanto ser: tudo se diz 'ser' por referência à substância

O filósofo investiga o ser enquanto ser de modo geral, e não apenas uma parte dele. Acontece que a palavra 'ser' tem muitos sentidos e não é usada num só. Se ela fosse usada por puro acaso, sem nada em comum entre seus vários usos, então o ser não caberia numa única ciência, porque os sentidos de uma palavra ambígua não formam um único gênero. Mas se a palavra é usada por causa de algo comum a todos os usos, então o ser cabe numa única ciência.
Tudo indica que a palavra 'ser' é usada desse segundo modo, parecido com 'médico' e 'saudável'. Cada um desses dois termos também usamos em muitos sentidos. Eles se aplicam às coisas por causa de algum tipo de referência: num caso a referência é a ciência médica, no outro é a saúde, e em outros é mais alguma coisa, mas em cada caso a referência é a um único conceito.
Por exemplo, uma conversa e uma faca são chamadas 'médicas', uma porque parte da ciência médica, a outra porque é útil a ela. E uma coisa é chamada 'saudável' de modo semelhante: uma porque é sinal de saúde, outra porque produz saúde. O mesmo vale para os demais casos.
Pois bem, tudo o que existe é dito 'ser' exatamente dessa mesma maneira. Cada coisa que existe é dita 'ser' porque é uma modificação do ser enquanto ser, ou um estado permanente dele, ou um estado passageiro, ou um movimento dele, ou algo do gênero.
E que tudo o que existe pode ser remetido a algo único e comum, cada par de contrários também pode ser remetido às diferenças e contrariedades primeiras do ser, sejam essas diferenças primeiras a pluralidade e a unidade, ou a semelhança e a dessemelhança, ou outras diferenças quaisquer. Vamos tomar isso como discutido.
Não faz diferença remeter aquilo que é ao ser ou à unidade. Mesmo que ser e unidade não sejam a mesma coisa, e sim coisas diferentes, ao menos eles são conversíveis: aquilo que é uno também de algum modo é, e aquilo que é também é uno.
Acontece que todo par de contrários cabe ser examinado por uma e mesma ciência. Em cada par, um dos termos é a privação do outro, ou seja, a falta do outro. Aqui alguém poderia levantar uma dúvida a respeito de certos contrários: como dizer que um é simplesmente a falta do outro quando existe um meio-termo entre eles, como acontece com o injusto e o justo?
Em todos esses casos, a resposta é que a privação não nega a definição inteira, mas apenas a espécie mais baixa. Se o homem justo é 'aquele que, por uma disposição permanente, obedece às leis', o homem injusto não terá necessariamente negada toda a definição. Pode ser que ele seja apenas 'em algum aspecto deficiente em obediência às leis', e é nesse aspecto que a privação se aplica a ele. O mesmo vale para todos os outros casos.
O matemático investiga abstrações. Antes de começar sua investigação, ele retira todas as qualidades sensíveis, como o peso e a leveza, a dureza e seu contrário, o calor e o frio e as demais oposições que os sentidos captam. Ele deixa de lado tudo isso e mantém apenas o que é quantitativo e contínuo, às vezes em uma dimensão, às vezes em duas, às vezes em três, junto com as propriedades dessas coisas enquanto quantitativas e contínuas.
O matemático não considera essas coisas sob nenhum outro aspecto. Ele examina as posições relativas de algumas e as propriedades delas, e a possibilidade ou impossibilidade de comparar a medida de outras, e as proporções de outras ainda. Mesmo assim, colocamos uma e mesma ciência para tratar de tudo isso: a geometria.
O mesmo se passa com o ser. As propriedades do ser enquanto ser, e as contrariedades que nele enquanto ser, não cabe a nenhuma outra ciência investigar a não ser a filosofia.
À física caberia o estudo das coisas não enquanto seres, mas enquanto participam do movimento. A dialética e a sofística lidam com propriedades das coisas que existem, mas não com elas enquanto seres, nem com o próprio ser enquanto ser. Resta, então, que é o filósofo quem estuda as coisas que mencionamos, enquanto elas são ser.
que tudo o que existe é dito 'ser' por causa de algo único e comum, embora a palavra tenha muitos sentidos, e o mesmo acontece com os contrários (pois eles se remetem às contrariedades e diferenças primeiras do ser), e que coisas desse tipo podem caber numa única ciência, fica resolvida a dificuldade que levantamos no começo. Refiro-me à questão de como pode haver uma única ciência de coisas que são muitas e diferentes em gênero.