Metafísica - Livro XI 2

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

Continuação das aporias: há substância além das sensíveis? o ser e o uno são substância? os princípios são universais ou individuais?

Outra questão: devemos supor que existe algo separado das coisas individuais, ou são essas mesmas coisas individuais que a ciência que procuramos estuda? Mas as coisas individuais são infinitas em número. Por outro lado, aquilo que está separado dos indivíduos são os gêneros ou as espécies; e a ciência que agora buscamos não trata nem de um nem de outro. dissemos antes por que isso é impossível.
De modo geral, é difícil dizer se devemos admitir que existe uma substância separada além das substâncias sensíveis (isto é, as substâncias deste mundo), ou se essas são as coisas reais e é delas que a sabedoria se ocupa. Pois parece que buscamos um outro tipo de substância, e esse é justamente o nosso problema: ver se algo capaz de existir separado por si mesmo, sem pertencer a nenhuma coisa sensível.
Além disso, se existe uma outra substância separada das substâncias sensíveis e correspondente a elas, a quais tipos de coisas sensíveis devemos atribuir essa substância correspondente? Por que supor que os homens ou os cavalos a tenham, mais do que os outros animais, ou mesmo as coisas sem vida? Por outro lado, estabelecer substâncias eternas em número igual ao das substâncias sensíveis e perecíveis pareceria ultrapassar os limites do que é razoável.
Mas, se o princípio que agora procuramos não é separável das coisas corpóreas, o que teria mais direito a esse nome do que a matéria? A matéria, no entanto, não existe em ato, e sim em potência. E pareceria, antes, que a forma é um princípio mais importante do que a matéria. Mas a forma é perecível, de modo que não haveria nenhuma substância eterna capaz de existir separada e independente. Isso, no entanto, é estranho, pois um princípio e uma substância desse tipo parecem existir, e quase todos os pensadores mais refinados os buscam como algo que existe. De fato, como poderia haver ordem se não houvesse algo eterno, independente e permanente?
Além disso, se uma substância ou princípio com a natureza daquilo que agora buscamos, e se esse princípio é um para todas as coisas, o mesmo tanto para as coisas eternas quanto para as perecíveis, é difícil dizer por que motivo, havendo um único princípio, algumas das coisas que caem sob ele são eternas e outras não são eternas. Isso é estranho.
Mas, se um princípio das coisas perecíveis e outro princípio das coisas eternas, cairemos numa dificuldade igual caso o princípio das coisas perecíveis também seja eterno. Pois, sendo o princípio eterno, por que as coisas que caem sob ele não são também elas eternas? E, se esse princípio é perecível, então ele exige um outro princípio para explicá-lo, e esse outro exige mais um, e assim por diante até o infinito.
Por outro lado, se tomarmos aquilo que se considera os princípios mais imutáveis, o ser e o uno, surge a seguinte dificuldade: primeiro, se cada um deles não indica um 'isto', uma substância determinada, como poderiam ser separados e independentes? No entanto, esperamos que os princípios eternos e primeiros sejam justamente assim, separados e independentes.
Mas, se cada um deles de fato designa um 'isto', uma substância, então tudo o que existe seria substância. Pois o ser se afirma de todas as coisas (e o uno, de algumas). Ora, dizer que tudo o que existe é substância é falso.
Além disso, como podem estar certos os que dizem que o primeiro princípio é o uno e que este é a substância, e que geram o número como o primeiro produto a partir do uno e da matéria, afirmando que o número é substância? Como devemos conceber o 'dois', e cada um dos outros números formados de unidades, como sendo uma coisa? Sobre esse ponto eles nada dizem, nem é fácil dizer alguma coisa.
E, se quisermos supor que as linhas, ou o que vem depois delas (refiro-me às primeiras superfícies), são princípios, ao menos essas não são substâncias separadas, mas cortes e divisões: as superfícies, cortes dos sólidos; as linhas, cortes das superfícies; e os pontos, cortes das linhas. Além disso, são limites dessas mesmas coisas. Todos eles estão dentro de outras coisas, e nenhum é separável.
Além disso, como supor que existe uma substância da unidade e do ponto? Toda substância vem a ser por um processo gradual, mas o ponto não vem a ser assim, pois o ponto é uma divisão.
Levanta-se ainda uma dificuldade pelo fato de que todo conhecimento é do universal e do 'tal', mas a substância não é um universal, e sim antes um 'isto', uma coisa separada. Assim, se conhecimento dos primeiros princípios, surge a pergunta: como supor que o primeiro princípio seja uma substância?
Outra questão: existe algo além da coisa concreta (e por 'coisa concreta' entendo a matéria junto com aquilo que se une a ela), ou não? Se não há, esbarramos na objeção de que tudo o que está na matéria é perecível. Mas, se algo além, esse algo deve ser a forma ou figura. Ora, é difícil determinar em quais casos a forma existe separada e em quais não, pois em alguns casos a forma claramente não é separável, como no caso de uma casa.
Por fim, os princípios são os mesmos em espécie ou em número? Se forem um em número, todas as coisas serão a mesma coisa.