Metafísica - Livro XI 9

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

O que é o movimento: o ato daquilo que está em potência

Algumas coisas existem de modo atual (já realizadas), outras de modo potencial (apenas como possibilidade), e outras de ambos os modos. Conforme o caso, uma coisa pode ser uma realidade concreta, ou ter uma certa quantidade, ou algo parecido. Não existe movimento à parte das coisas, pois toda mudança acontece sempre dentro de alguma categoria do ser, e não nada comum a essas categorias que esteja fora de todas elas.
Cada categoria pertence a seus objetos de dois modos opostos. Tomando a categoria do que uma coisa é, num caso temos a forma positiva, e no outro a sua privação (a falta dela). Quanto à qualidade, num caso temos o branco e no outro o preto. Quanto à quantidade, o completo e o incompleto. Quanto ao movimento no espaço, o para cima e o para baixo, ou o leve e o pesado. Por isso tantos tipos de movimento e mudança quantos são os tipos de ser.
Como em cada classe de coisas existe a distinção entre o que está em potência e o que está plenamente realizado, eu chamo de movimento a realização (o ato) daquilo que está em potência, enquanto está em potência.
Que isso é verdade fica claro pelos seguintes fatos. Quando aquilo que é construível, enquanto é justamente o que chamamos de construível, existe de modo atual, então está sendo construído, e isso é o processo de construir. O mesmo vale para aprender, curar, caminhar, saltar, envelhecer e amadurecer.
O movimento acontece quando essa realização plena existe, e nem antes nem depois. O movimento, então, é a realização plena daquilo que existe em potência, quando está plenamente realizado e atual, não enquanto é ele mesmo, mas enquanto é capaz de se mover.
Por 'enquanto' eu quero dizer o seguinte. O bronze é, em potência, uma estátua. Mesmo assim, não é a realização plena do bronze enquanto bronze que constitui o movimento. Pois ser bronze e ser uma certa capacidade não são a mesma coisa. Se fossem absolutamente a mesma coisa na sua definição, então a realização plena do bronze seria um movimento. Mas não são a mesma coisa.
Isso fica evidente no caso dos contrários. Ser capaz de estar bem de saúde e ser capaz de estar doente não são a mesma coisa, pois, se fossem, estar com saúde e estar doente seriam idênticos. O que é um e o mesmo é aquilo que está por baixo e que se torna saudável ou doente, seja a umidade ou o sangue.
E, como não são a mesma coisa, assim como a cor e o visível não são a mesma coisa, conclui-se que o movimento é a realização plena daquilo que está em potência, enquanto está em potência.
Que o movimento é isso, e que ele acontece quando essa realização plena existe, nem antes nem depois, fica evidente. Pois cada coisa é capaz de ser ora atual, ora não, como o construível enquanto construível. E a realização atual do construível, enquanto construível, é o ato de construir.
Pois a realização ou é o ato de construir, ou é a casa pronta. Mas, quando a casa existe, ela não é construível. O que é construível é justamente aquilo que está sendo construído. A realização, portanto, tem de ser o ato de construir, e isso é um movimento. E a mesma explicação vale para todos os outros movimentos.
Que o que dissemos está certo fica evidente pelo que todos os outros dizem sobre o movimento, e pelo fato de não ser fácil defini-lo de outro modo. Antes de tudo, não se pode colocá-lo em nenhuma classe. Alguns o chamam de alteridade (ser outro), de desigualdade e de não ser. Mas nenhuma dessas coisas necessariamente se move, e a mudança não é mais a passagem para ou a partir delas do que a partir de seus opostos.
A razão pela qual as pessoas colocam o movimento nessas classes é que ele parece ser algo indefinido, e os princípios de uma das duas colunas de contrários são indefinidos porque são privativos (exprimem falta), que nenhum deles é um 'isto' nem um 'tal', nem entra em qualquer das outras categorias.
E a razão pela qual se pensa que o movimento é indefinido é que não para classificá-lo nem junto com a potência das coisas, nem junto com a sua realização atual. Pois aquilo que é apenas capaz de ter certa quantidade não é necessariamente movido, e o que tem atualmente certa quantidade também não é necessariamente movido. O movimento é pensado como uma realização atual, mas uma realização incompleta. A razão é que aquilo de que ele é a realização (a coisa em potência) ainda está incompleto.
Por isso é difícil captar o que é o movimento, pois somos forçados a classificá-lo ou como privação, ou como potência, ou como realização atual absoluta, mas é evidente que nenhuma dessas possibilidades funciona. O que resta, então, é que ele tem de ser o que dissemos: uma realização atual, mas aquela realização especial que descrevemos, difícil de detectar, embora capaz de existir.
É evidente que o movimento está naquilo que se move, pois ele é a realização plena dessa coisa produzida por aquilo que é capaz de causar movimento. E a realização atual daquilo que é capaz de causar movimento não é diferente da realização daquilo que é movido, pois o movimento tem de ser a realização plena de ambos.
Uma coisa é capaz de causar movimento porque pode fazê-lo, mas é motor de fato quando está em atividade. E é sobre aquilo que se move que ela é capaz de agir. Por isso a realização atual de ambos é uma só, assim como a distância de um a dois é a mesma que a de dois a um, e assim como a subida íngreme e a descida íngreme são uma coisa, embora ser uma e ser a outra não seja idêntico. O caso do motor e do movido é semelhante.