Metafísica - Livro XI 8

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

O ser por acidente, o ser como verdadeiro e o acaso

Como a palavra 'ser' tem vários sentidos, e um deles é 'ser por acidente', precisamos examinar primeiro o que 'é' nesse sentido. É evidente que nenhuma das ciências conhecidas se ocupa do que é acidental. A arquitetura não examina o que vai acontecer a quem mora na casa (por exemplo, se a vida deles ali será penosa ou não), e o mesmo vale para a tecelagem, para a fabricação de calçados ou para a arte do confeiteiro. Cada uma dessas ciências examina apenas o que lhe é próprio, isto é, o seu fim específico.
Considere agora este argumento: 'quando aquele que sabe música se torna alfabetizado, ele passará a ser as duas coisas ao mesmo tempo, sem ter sido as duas antes; e aquilo que é, sem ter sido sempre, teve de vir a ser em algum momento; portanto ele teve de se tornar músico e alfabetizado ao mesmo tempo'. Nenhuma das ciências reconhecidas se ocupa disso, a sofística. Pois ela se ocupa do que é acidental. Por isso Platão não erra muito quando diz que o sofista passa o tempo lidando com o não ser.
Que nem sequer é possível uma ciência do acidental ficará claro se tentarmos ver o que o acidental realmente é. Dizemos que tudo ou é sempre e por necessidade (necessidade não no sentido de força, mas naquele sentido a que recorremos nas demonstrações), ou ocorre na maioria das vezes, ou não ocorre nem na maioria das vezes nem sempre e por necessidade, mas apenas por acaso. Por exemplo, pode fazer frio nos dias de mais calor do verão, e isso não acontece nem sempre e por necessidade, nem na maioria das vezes, embora possa acontecer alguma vez.
O acidental, então, é o que ocorre, mas não sempre, nem por necessidade, nem na maioria das vezes. Agora que dissemos o que o acidental é, fica óbvio por que não ciência de uma coisa assim. Pois toda ciência trata do que é sempre ou na maioria das vezes, e o acidental não está em nenhuma dessas duas classes.
É evidente que não causas e princípios do acidental do mesmo tipo que existem para o que é por essência. Se houvesse, tudo seria por necessidade. Pois se A existe quando B existe, e B existe quando C existe, e se C existe não por acaso mas por necessidade, então também aquilo de que C era causa existirá por necessidade, e assim por diante até o último efeito (mas justamente esse último foi suposto ser acidental). Portanto todas as coisas existiriam por necessidade, e o acaso, isto é, a possibilidade de uma coisa ocorrer ou não ocorrer, ficaria completamente eliminado do curso dos acontecimentos.
E se supusermos que a causa não existe ainda, mas está vindo a ser, o resultado é o mesmo: tudo ocorrerá por necessidade. Pois o eclipse de amanhã ocorrerá se A ocorrer, e A se B ocorrer, e B se C ocorrer; e desse modo, se formos subtraindo tempo do intervalo limitado entre agora e amanhã, chegaremos em algum momento à condição que existe agora. Portanto, que essa condição existe, tudo que vem depois dela ocorrerá por necessidade, de modo que todas as coisas ocorreriam por necessidade.
Quanto àquilo que 'é' no sentido de ser verdadeiro ou de ser por acidente: o primeiro depende de uma combinação feita no pensamento e é um estado do pensamento (por isso os princípios que se buscam não são os desse tipo de ser, mas os daquilo que está fora da mente e pode existir separado dela). o segundo, o ser por acidente, não é necessário, mas indeterminado, e as causas de uma coisa assim são desordenadas e indefinidas.
A adequação a um fim aparece nos acontecimentos que se dão pela natureza ou como resultado do pensamento. Quando um desses acontecimentos se por acidente, é o que chamamos de 'sorte'. Pois assim como uma coisa pode existir por sua própria natureza ou por acidente, ela também pode ser causa de um desses dois modos. A sorte é uma causa acidental que age naqueles acontecimentos voltados para um fim que costumam ser realizados de acordo com um propósito.
Por isso a sorte e o pensamento dizem respeito ao mesmo campo, pois não propósito sem pensamento. As causas das quais resultados afortunados poderiam surgir são indeterminadas. Por isso a sorte é obscura ao cálculo humano e é uma causa por acidente, embora, falando em sentido absoluto, não seja causa de nada. É boa ou sorte quando o resultado é bom ou ruim; e é prosperidade ou infortúnio quando a magnitude dos resultados é grande.
que nada acidental é anterior ao que é por essência, as causas acidentais também não são anteriores. Portanto, se a sorte ou o que acontece por si fosse a causa do universo material, a razão e a natureza seriam causas anteriores a ela.