Metafísica - Livro XI 5

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

Em defesa do princípio de não contradição

nas coisas um princípio a respeito do qual não podemos nos enganar, mas pelo contrário somos sempre obrigados a reconhecer como verdadeiro: o de que a mesma coisa não pode, ao mesmo tempo, ser e não ser, nem admitir qualquer outro par parecido de opostos. Sobre questões desse tipo não existe demonstração no sentido pleno, embora exista uma prova contra quem o nega.
Isso porque não é possível deduzir essa verdade a partir de um princípio mais certo do que ela própria, e seria preciso fazê-lo se quiséssemos uma demonstração completa dela no sentido pleno. Mas quem quer provar a alguém que afirma os opostos que ele está errado deve arrancar dele uma admissão que, no fundo, seja idêntica ao princípio de que a mesma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo, sem que pareça idêntica. assim consegue refutar o homem que sustenta que afirmações opostas podem ser feitas com verdade sobre o mesmo sujeito.
Ora, os que vão discutir um com o outro precisam, em alguma medida, se entender mutuamente, pois sem isso como poderiam discutir? Por isso toda palavra tem de ser inteligível e indicar alguma coisa, e não muitas, mas apenas uma; e se ela significa mais de uma coisa, é preciso deixar claro a qual delas a palavra está sendo aplicada no momento.
Quem diz "isto é e não é" nega aquilo mesmo que afirma, e portanto diz que a palavra não significa o que ela significa, o que é impossível. Logo, se "isto é" significa alguma coisa, não se pode afirmar com verdade o seu contraditório.
Além disso, se a palavra significa alguma coisa e isso é afirmado com verdade, essa ligação tem de ser necessária; e o que existe por necessidade nunca pode deixar de existir. Não é possível, portanto, fazer com verdade, sobre o mesmo sujeito, ao mesmo tempo a afirmação e a negação opostas.
Além disso, se a afirmação não for mais verdadeira do que a negação, quem diz "homem" não estará mais certo do que quem diz "não-homem". E parece que, ao dizer que o homem não é um cavalo, alguém estaria tão ou mais certo do que ao dizer que ele não é um homem; de modo que estaria certo também ao dizer que a mesma pessoa é um cavalo, pois se admitiu ser possível fazer afirmações opostas com igual verdade. Segue-se então que a mesma pessoa é um homem e um cavalo, ou qualquer outro animal.
Assim, embora não haja demonstração dessas coisas no sentido pleno, uma prova que basta contra quem faz tais suposições. E talvez, se alguém tivesse interrogado o próprio Heráclito desse modo, poderia tê-lo forçado a confessar que afirmações opostas jamais podem ser verdadeiras sobre os mesmos sujeitos. Mas, do jeito que foi, ele adotou essa opinião sem entender o que sua afirmação implica.
Em todo caso, se o que ele diz é verdadeiro, então nem mesmo isso será verdadeiro, ou seja, que a mesma coisa pode ao mesmo tempo ser e não ser. Pois assim como, quando as afirmações são separadas, a afirmação não é mais verdadeira do que a negação, do mesmo modo, sendo a afirmação combinada e complexa como uma única afirmação, o conjunto tomado como afirmação não será mais verdadeiro do que a negação.
Além disso, se não for possível afirmar nada com verdade, então isto mesmo será falso: a tese de que não existe nenhuma afirmação verdadeira. Mas se existe uma afirmação verdadeira, isso parece refutar o que dizem os que levantam tais objeções e destroem por completo o discurso racional.