Metafísica - Livro XI 1

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

As aporias sobre a filosofia primeira: uma ou várias ciências dos princípios?

Que a sabedoria é uma ciência dos princípios primeiros fica evidente pelos capítulos introdutórios, nos quais levantamos objeções ao que outros disseram sobre esses princípios. Mas alguém poderia perguntar se a sabedoria deve ser concebida como uma única ciência ou como várias. Se for uma só, cabe a objeção de que uma ciência sempre trata de coisas contrárias, ao passo que os princípios primeiros não são contrários entre si. E se não for uma só, com que tipo de ciências ela deveria então ser identificada?
Além disso, examinar os princípios da demonstração é tarefa de uma única ciência ou de mais de uma? Se for de uma só, por que dessa em vez de qualquer outra? Se for de várias, de que tipo de ciências estaríamos falando?
Outra questão: a sabedoria investiga todas as substâncias ou não? Se não investiga todas, é difícil dizer quais ela investiga. Mas se, sendo uma só, ela investiga todas elas, fica obscuro como uma mesma ciência pode abarcar assuntos tão diversos.
ainda esta dúvida: a sabedoria trata apenas das substâncias, ou também das propriedades delas? Acontece que, no caso das propriedades, a demonstração é possível, mas no caso das substâncias não é. E se forem duas ciências diferentes, o que é cada uma e qual delas é a sabedoria? Se a pensarmos como a ciência que demonstra, então a sabedoria é a ciência das propriedades. Mas se a pensarmos como a ciência que trata do que é primeiro, então é a ciência das substâncias que reivindica o título.
Por outro lado, a ciência que procuramos não deve ser confundida com aquela que trata das causas mencionadas na Física. Em primeiro lugar, ela não trata da causa final. A causa final é da ordem do bem, e o bem se encontra no campo da ação e do movimento; é ele que põe tudo em marcha como primeiro motor, pois essa é a natureza do fim a ser alcançado. Mas no caso das coisas que não se movem, não nada que as tenha movido primeiro.
Em segundo lugar, e de modo geral, é difícil decidir se a ciência que agora procuramos trata das substâncias que percebemos pelos sentidos, ou se trata de outras. Se tratar de outras, deve tratar ou das Formas ou dos objetos da matemática. Ora, é evidente que as Formas não existem.
E mesmo que se admitisse que elas existem, ainda seria difícil explicar por que não acontece com as outras coisas, das quais também haveria Formas, o mesmo que acontece com os objetos da matemática. Esses pensadores colocam os objetos da matemática num lugar intermediário, entre as Formas e as coisas sensíveis, como um terceiro conjunto de coisas separado tanto das Formas quanto das coisas deste mundo. que não existe um terceiro homem nem um terceiro cavalo além do homem ideal e dos homens individuais. E se as coisas não são como esses pensadores dizem, com que tipo de objetos devemos supor que o matemático lida? Não com as coisas deste mundo, com certeza, pois nenhuma delas é do tipo que as ciências matemáticas exigem.
De qualquer modo, a ciência que agora buscamos não trata dos objetos da matemática, pois nenhum deles pode existir separado. Mas ela também não trata das substâncias sensíveis, pois estas são perecíveis.
Em termos gerais, alguém poderia perguntar a que tipo de ciência cabe discutir as dificuldades sobre a matéria dos objetos da matemática. Não cabe à física, pois toda a investigação do físico se ocupa das coisas que têm em si mesmas um princípio de movimento e de repouso. Tampouco cabe à ciência que investiga a demonstração e o conhecimento, pois é justamente esse o assunto que ela examina. Resta, então, que isso é tratado pela filosofia que estabelecemos para nós como meta.
Pode-se também discutir se a ciência que buscamos deveria tratar dos princípios que alguns chamam de elementos. Todos supõem que esses elementos estão presentes nas coisas compostas. Mas pode-se pensar que a ciência que buscamos deveria tratar antes dos universais, pois toda definição e toda ciência são dos universais, e não das espécies mais baixas. Nesse sentido, ela trataria dos gêneros mais altos.
Esses gêneros mais altos seriam o ser e a unidade, pois são eles que, mais que tudo, parecem conter todas as coisas que existem e parecem ser os mais próximos de princípios, que vêm primeiro por natureza. Afinal, se eles desaparecem, todas as outras coisas se destroem junto, pois tudo o que existe é, e é um.
Mas se quisermos tomar o ser e a unidade como gêneros, eles teriam que poder ser afirmados das suas próprias diferenças, e nenhum gênero pode ser afirmado de qualquer uma das diferenças que o dividem. Por esse caminho, parece que não deveríamos fazer do ser e da unidade nem gêneros nem princípios.
Além disso, se o que é mais simples é mais princípio do que o menos simples, e os membros últimos de um gênero são mais simples do que os gêneros (porque são indivisíveis, ao passo que os gêneros se dividem em muitas espécies diferentes), então as espécies pareceriam ser os princípios, e não os gêneros.
Mas, como as espécies são arrastadas na destruição dos gêneros, os gêneros se parecem mais com princípios, pois aquilo que arrasta outra coisa na sua própria destruição é princípio dessa coisa. Estes e outros problemas do mesmo tipo são os assuntos que envolvem dificuldades.