Metafísica - Livro XI 11
Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física
Como classificar a mudança: o que muda, de que estado para qual, e por que só uma das três mudanças é movimento de fato
Entre as coisas que mudam, algumas mudam num sentido acidental, como quando dizemos que "o músico" caminha (é a pessoa que por acaso é música que caminha). Outras mudam num sentido mais amplo, porque alguma parte delas muda: são as coisas que mudam em razão de uma de suas partes. O corpo fica saudável porque o olho fica saudável. Mas há algo que, por sua própria natureza, é movido de forma direta, e isso é o que é movível por essência.
A mesma distinção vale para aquilo que causa o movimento. Pois algo causa movimento de modo acidental, ou em razão de uma de suas partes, ou por essência. Há algo que causa movimento de forma direta; há algo que é movido; há também o tempo em que ele é movido, e aquilo a partir de que e aquilo para que ele é movido.
Mas as formas, as qualidades e o lugar, que são os pontos finais do movimento das coisas que se movem, não se movem. Por exemplo, o conhecimento ou o calor: não é o calor que é um movimento, mas sim o aquecer.
A mudança que não é acidental não se encontra em todas as coisas, mas apenas entre contrários, entre os termos intermediários a eles, e entre contraditórios. Podemos nos convencer disso pela indução, isto é, examinando caso a caso.
Aquilo que muda, muda de uma de quatro maneiras: de positivo para positivo, de negativo para negativo, de positivo para negativo, ou de negativo para positivo. (Por "positivo" entendo aquilo que se exprime por um termo afirmativo.) Portanto, só pode haver três mudanças, pois ir de negativo para negativo não é mudança: como os dois termos não são nem contrários nem contraditórios, não há oposição entre eles.
A mudança do negativo para o positivo que é seu contraditório é a geração: quando a mudança é absoluta, é geração absoluta; quando é parcial, é geração parcial. E a mudança do positivo para o negativo é a destruição: quando é absoluta, é destruição absoluta; quando é parcial, é destruição parcial.
Ora, "aquilo que não é" tem vários sentidos. O movimento não pode pertencer ao não ser que resulta de juntar ou separar ideias num juízo, nem ao não ser que é apenas potência e se opõe ao que existe em sentido pleno. (É verdade que o não branco ou o não bom podem ser movidos de modo acidental, pois o não branco poderia ser um homem; mas aquilo que não é coisa nenhuma de modo algum não pode ser movido.)
Logo, aquilo que não é não pode ser movido. E se assim é, a geração não pode ser um movimento, porque é justamente aquilo que não é que é gerado. Mesmo admitindo plenamente que essa geração ocorra por acidente, ainda assim é correto dizer que o "não ser" se aplica àquilo que é gerado em sentido absoluto.
Da mesma forma, o repouso não pode pertencer àquilo que não é. Estas consequências, então, mostram-se incômodas. E há ainda esta: tudo o que é movido está num lugar, mas aquilo que não é não está em lugar nenhum, pois, se estivesse, estaria em algum ponto.
A destruição também não é movimento, pois o contrário do movimento é o repouso, ao passo que o contrário da destruição é a geração.
Como todo movimento é uma mudança, e as espécies de mudança são as três que nomeamos, e dessas as que se dão por geração e por destruição não são movimentos (já que são as mudanças de uma coisa para o seu contraditório), segue-se que só a mudança de positivo para positivo é movimento. E os termos positivos são contrários ou intermediários (pois mesmo a privação deve ser contada como um contrário) e se exprimem por um termo afirmativo, como "nu", "desdentado" ou "preto".